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“Se não fosse a atuação da imprensa durante a pandemia, estaríamos perdidos”, diz Drauzio Varella

  • Especialista considera que Brasil está atrasadíssimo na aprovação da vacina e que esquemas diferentes de vacinação por estados não são a melhor opção
  • Médicos que transmitem informações erradas sobre Covid-19 devem ser punidos por órgãos fiscalizadores da profissão

 

Por Aldo De Luca | MediaTalks, Londres

 

Durante a live promovida por MediaTalks para marcar o lançamento sobre o novo especial examinando os efeitos da pandemia sobre o jornalismo, o médico Drauzio Varella enfatizou que desde o início da crise não foi veiculada nenhuma campanha governamental com esclarecimentos sobre a Covid-19, o que abriu caminho para a desinformação.

“Desde o início da pandemia estava claro que não se podia aglomerar. Quase um ano inteiro se passou, com grande carga de sofrimento mundial, e as pessoas continuam se manifestando contra até hoje. Por quê? Porque não é agradável. E daí disseminam as fake news.

Se não fosse a imprensa explicando quais os cuidados a tomar, estaríamos perdidos. Tenho um grande respeito pelo trabalho dos jornalistas. A falta de compreensão sobre a importância do trabalho jornalístico parte de uma minoria insignificante”.

Responsabilização dos médicos responsáveis por fake news

Drauzio Varella disse que os Conselhos de Medicina do país estão sendo omissos ao não punir médicos que se manifestam publicamente defendendo conceitos cientificamente errados ligados à Covid-19. Ele citou o exemplo da atuação do conselho norte-americano, que suspendeu por vários meses o registro de um médico que insistia em não usar a máscara em locais públicos. 

“Devido ao seu conhecimento técnico, os médicos têm muito mais responsabilidade do que qualquer outra pessoa de se manifestar corretamente sobre a pandemia. Não consigo entender as motivações de alguns. E nem a omissão dos os órgãos de classe que têm a obrigação de zelar para que isso não aconteça”.

“A Internet é terra de ninguém!”

O comentário foi feito durante a discussão sobre os prejuízos causados pela desinformação no combate à pandemia. O especialista defendeu que a liberdade de expressão não pode ser usada como pretexto para a veiculação de desinformação e que seus autores devem ser responsabilizados quando o erro for comprovado pelos fatos e dados disponíveis.

“Enquanto um jornalista pode ser responsabilizado criminalmente pelo que escreve num artigo, não existe nenhum tipo de controle na Internet, que é uma terra de ninguém. E toda vez que se fala em se responsabilizar as pessoas pelas informações que escrevem, volta a história de que deve-se ter liberdade na rede. Não sou contra a liberdade, mas ela deve estar acompanhada da responsabilidade. Deve ficar bem claro o que pode ou não pode.”

O médico expressou preocupação com mecanismos sofisticados como os vídeos deepfake, que conseguem imitar uma pessoa falando com perfeição, e lamentou que apesar de conteúdos falsos serem removidos, outros voltam a ocupar o espaço, perguntando: “Onde isso vai parar”? 

“Vacina melhorará o quadro gradativamente, mas 2021 será igual a 2020”

O médico explicou que o Brasil está atrasadíssimo na aprovação da vacina, e que ficou dependente da Sinovac e da desenvolvida por Oxford. Mas acha que as outras vacinas, que dependem de conservação em temperaturas negativas, deveriam ter sido consideradas desde o início, com o apoio da iniciativa privada para a sua distribuição. Ele também acha que sem coordenação e unidade será mais difícil imunizar toda a população, e que as opções diferentes de vacinação por estados não é a melhor opção.

“O Brasil tem experiência em vacinar a população, tem condições de produzir vacinas e ninguém imuniza de graça como faz o SUS. O problema é que cada estado quer fazer de um jeito e não há chance de dar certo dessa maneira. No que diz respeito ao combate à Covid-19, o Brasil é o campeão mundial da confusão”.

“Se pessoas não tomarem a vacina, a pandemia não vai passar”

O médico disse também que as pessoas devem se conscientizar de sua responsabilidade em tomar a vacina e que devem fazer isso assim que ela estiver disponível. Lembrou da época em que atuou com a população carcerária do Carandiru. Havia um consumo generalizado de cocaína injetável, associado à proliferação da Aids. 

Os viciados consideravam que tinham o direito de fazer o que quisessem com suas vidas. Até que o médico passou a argumentar em palestras que o vírus da Aids poderia ser passado para as esposas em visitas íntimas, e daí para o resto da família. O resultado foi que o consumo cessou não só na penitenciária, mas em toda a periferia.

“Da mesma forma, se as pessoas não tomarem a vacina, o vírus vai continuar circulando entre nós indefinidamente, contaminando outras pessoas e até os familiares. Quem não tomar, tem o direito de ficar passando a doença para os outros? A vacina não é uma salvação instantânea.

A melhoria será gradual e 2021 será igual a 2020. Se tudo correr bem, com menos mortes. Mas teremos que continuar com todos os cuidados que estamos tomando agora, até que a vacina permita que a população ganhe imunidade, o que é um processo lento”.

 

 

Aldo De Luca,  Conselheiro e colaborador do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileiro radicado em Londres. Formado em Jornalismo pela UFF (Universidade Federal Fluminense), foi repórter especial do jornal O Globo em 1987 e 1988. Fundou junto com Luciana Gurgel a agência Publicom, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group).  Além de jornalista,  é Engenheiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Integra a  FPA (UK Foreign Press Association).

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Leia o especial sobre os efeitos da pandemia no jornalismo, com a participação de correspondentes em sete países 

 

 

 

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