Por Andrew McCormick, vice-diretor da iniciativa Covering Climate Now

O Texas tinha acabado de congelar. Após uma tempestade de inverno devastadora, milhões  ficaram sem energia e lutando para encontrar aquecimento. Eles ferviam neve para obter água; alguns estavam morrendo. E, contra todas as evidências, a direita política negacionista da mudança climática reclamava dos moinhos de vento e culpava um New Deal Verde que ainda não existe.

“Sem o conhecimento da maioria das pessoas, o Green New Deal chegou ao Texas”, disse Tucker Carlson em 16 de fevereiro na Fox News. “A rede elétrica do estado passou a depender totalmente de moinhos de vento. Então ficou frio e os moinhos de vento quebraram, porque é isso que acontece no New Deal Verde”.

Uma hora depois, no Hannity , programa de notícias a cabo mais assistido da América, o governador do Texas Greg Abbott disse que a situação difícil de seu estado “mostra como o New Deal Verde seria um negócio mortal para os Estados Unidos”. Nos dias que se seguiram, desinformação semelhante foi repetida na programação da Fox News e Fox Business, nos veículos de direita concorrentes OAN e Newsmax, em jornais de direita e em uma miríade de declarações de funcionários eleitos republicanos.

Essas afirmações eram absurdas. O Texas funciona principalmente com gás natural. E foram os oleodutos e poços congelados − em meio a uma infraestrutura de energia não projetada para suportar o frio − os principais responsáveis pelos apagões. 

Além disso, no espírito de desregulamentação, os funcionários estaduais anos atrás isolaram sua rede do resto do país, o que significa que o Texas não conseguiu importar eletricidade de outro lugar para manter as luzes acesas. Alguns moinhos de vento congelaram, mas apenas porque não foram preparados para o inverno − não devido a uma vulnerabilidade inata dos moinhos de vento.

Na imprensa baseada na realidade, os especialistas defenderam a energia renovável e os meios de comunicação deram espaço para especialistas desmascararem as afirmações republicanas. Como diz o ditado, porém, uma mentira dá a volta ao mundo antes que a verdade coloque seus sapatos. 

E então uma pauta que deveria ter sido sobre texanos necessitados e um aviso angustiante de que a emergência climática virava a vida de cabeça para baixo tornou-se uma luta política baixa − e isso foi quando não foi reduzida a uma matéria sobre o voo do senador Ted Cruz para escapar do frio.

Claro, desinformação não é nenhuma novidade na história do clima. O jornalismo investigativo excepcional mostrou que as empresas de combustíveis fósseis sabiam, desde a década de 1970, que suas operações ameaçavam o futuro da humanidade, mas mantiveram-se em silêncio para manter os lucros fluindo. 

Agora, a indústria de combustíveis fósseis está decididamente na defensiva − perdendo no tribunal da opinião pública, perdendo investidores e enfrentando um novo presidente dos Estados Unidos que promete uma ação climática ampla. Não é surpresa que a indústria e seus apoiadores estejam novamente se voltando para a desinformação. A julgar pelo refrão que se seguiu ao congelamento do Texas, eles estão dispostos a falar mais alto.

A questão é: o que os jornalistas podem e devem fazer a respeito?

A melhor abordagem, por mais simples que pareça, é dar leads com os fatos, não com comentários, diz Kristy Roschke, diretora do News Co/Lab da Escola de Jornalismo Walter Cronkite da Universidade do Arizona. 

Os repórteres devem favorecer fontes locais e especialistas em detrimento de fontes não conhecidas da audiência. A cobertura das tempestades no Texas, que concentrou especialistas em clima e energia no estado, foi exemplar. 

E, tanto quanto possível, os jornalistas devem concentrar-se nas informações de que as pessoas precisam para tomar decisões no mundo real.

“Se a desinformação costuma ter como objetivo mudar o foco, o contra-ataque é o enfoque de serviço”, diz Roschke. 

Acima de tudo, diz ela, os jornalistas devem evitar o hábito de enquadrar tudo como um debate bilateral:

Não podemos continuar reforçando o debate quando não há debate sobre o tema”.

Pesquisas mostram que a repetição  afeta a forma como nosso cérebro imprime informações e as afirmações que julgamos verdadeiras. Repetir falsidades, então, mesmo para desmascarar, pode inadvertidamente reforçá-las. 

Uma ferramenta que os jornalistas podem usar para evitar essa armadilha é o que o professor aposentado de lingüística da UC Berkeley, George Lakoff, chama de  “sanduíche da verdade” − isto é, apresentar desinformação entre duas declarações de verdade.

Por exemplo: Os cortes de energia no Texas foram causados ​​principalmente pelo congelamento de usinas elétricas movidas a gás e carvão. Algumas figuras da mídia de direita e políticos republicanos, em vez disso, culparam incorretamente a energia renovável e o New Deal Verde. Mas a energia eólica e solar de fato se saíram melhor do que os combustíveis fósseis durante a onda de frio do Texas, e o Green New Deal ainda não existe, seja no nível federal ou no estado do Texas.

Muitas matérias sobre o congelamento, em vez disso, incluíram declarações falsas de funcionários, mesmo quando as intenções dos repórteres eram denunciá-los. “A aspiração dos jornalistas aqui é boa, é ajudar as pessoas”, diz Roschke. 

Mas o efeito é permitir que a desinformação conduza a pauta. Ao tratar os argumentos de má-fé como argumentos merecedores de espaço, os jornalistas inadvertidamente emprestam credibilidade a falsas noções de que as mudanças climáticas ou a necessidade de energia limpa estão em debate, quando a ciênciadiz claramente o contrário. 

“Torna-se um ciclo que se autoperpetua”, diz Roschke. “O comportamento infantil e a postura em torno de um assunto tornam-se notícias, porque os eleitos são dignos de nota. Essa notícia, então, reforça aquelas falsas narrativas, o que faz os políticos continuarem alimentando [o ciclo]. ”

Isso não quer dizer que a apuração cuidadosa dos fatos não tenha seu lugar. Mas, para a redação média, dedicar muito tempo e espaço para rebater inverdades − de determinados atores de má-fé, nada menos − pode custar caro e prejudicar as notícias reais.

“Não, moinhos de vento congelados não causaram os apagões do Texas” é talvez uma manchete satisfatória de escrever. Mas para os leitores que procuram a verdade − que, crucialmente, podem nunca ler além do título − ela sustenta uma mentira, diz Roschke. Para ela, manchetes em forma de perguntas como “Os moinhos de vento congelados causaram os apagões?” são piores.

Se forem cuidadosos, os jornalistas podem examinar narrativas falsas para obter uma visão das preocupações e dúvidas genuínas que o público possa ter, diz Shaydanay Urbani, que conduz pesquisas e treinamento na First Draft, uma organização sem fins lucrativos que ajuda jornalistas e o público a se defender contra a desinformação. 

“A maior parte da desinformação tem alguma verdade embutida”, diz Urbani. A acusação comum da direita política de que a energia verde matará empregos, por exemplo, é parcialmente verdadeira, na medida em que a indústria de combustíveis fósseis necessariamente se contrairá em uma transição energética”. 

O argumento ignora o fato de que as forças do mercado estão mudando para as energias renováveis já e que mais empregos estão sendo criados em energia verde do que perdidos em combustíveis fósseis. Mas é natural que o público tema a perda de empregos e o que a mudança significará para suas comunidades − porque os patrocinadores dos combustíveis fósseis falam sobre o fantasma da perda de empregos, em primeiro lugar. 

“O que os repórteres podem fazer”, diz Urbani, “é mergulhar nas narrativas que a desinformação envolve e, em seguida, fazer histórias que abordem essas preocupações, ao mesmo tempo que enfatizam a verdade”. Em outras palavras: 

“Tente usar a desinformação para entender as preocupações mais profundas das pessoas e produza matérias  que respondam a essas preocupações”.

Claro, tudo isso é mais fácil dizer do que fazer. A desinformação é fácil, porque emprega narrativas simples e joga com as emoções das pessoas. É difícil reportar com cuidado e nuances, especialmente em uma época em que muitas redações estão carentes de recursos. 

Além do mais, os imperativos da mídia social e da otimização dos mecanismos de busca tornam mais complicado do que nunca enquadrar uma matéria. E até mesmo matérias perfeitas existem em um ecossistema de informações em rápida movimentação, onde as melhores intenções podem ser facilmente retiradas do contexto e reaproveitadas para atender a todos os tipos de interesses.

No final das contas, porém, o público deseja boas informações. Com uma perspectiva de ações mais adequadas para combater a mudança climática depois da posse de Joe Biden, pode-se esperar que os suspeitos de sempre mentirão e tentarão ofuscar a verdade. 

Isso representa um desafio para os jornalistas, mas também pode ser uma oportunidade de recuperar a confiança da audiência e conquistar novos públicos.

“Acho que as redações deveriam pensar na desinformação como uma oportunidade de ganhar seu público”, diz Urbani. “Sempre podemos fazer mais para nos conectar com as pessoas”.


Este artigo é parte da Covering Climate Now, uma colaboração de jornalismo global  destinada a fortalecer a cobertura jornalística sobre meio ambiente e mudança climática. Organizado por jornalistas e para jornalistas, o CCNow foi criado em abril de 2019, tendo como co-fundadores a Columbia Journalism Review, o The Nation e o The Guardian. Conta com mais de 400 veículos associados, que juntos atingem uma audiência superior a 2 bilhões de pessoas. 
O MediaTalks by J&Cia é membro da iniciativa. Se quiser saber mais sobre como participar da rede, entre em contato conosco em mediatalks@jornalistasecia.com.br