A pandemia elevou a importância do jornalismo científico, que saiu das páginas de ciência para ocupar todo o noticiário. Matérias sobre estudos clínicos ou mencionando trabalhos produzidos por cientistas espalharam-se por todas as editorias dos jornais e sites. O tema virou pauta obrigatória em TVs, rádios e podcasts. 

Mas o coronavírus não é o único a pautar assuntos científicos fora dos limites das editorias de ciência ou programas especializados em saúde. A mudança climática é outra pauta fortemente associada a estudos demostrando as consequências do aquecimento global e seus efeitos. E que não se limita às páginas de meio ambiente, geralmente a cargo de jornalistas especializados. 

Para quem já cobre ciência, não é difícil navegar por esses estudos e perceber inconsistências. Mas para boa parte dos que tiveram que passar a produzir ou editar matérias baseadas em trabalhos científicos, as armadilhas e riscos podem não ser tão óbvios.

O mesmo ocorre com quem lê as matérias, na maior parte das vezes sem familiaridade com termos científicos ou conhecimento para identificar a relevância de um estudo ou instituição. 

Em um artigo no portal de textos acadêmicos The Conversation, o professor de química Mark Zimmer, do Connecticut College, fez seis recomendações para jornalistas. Ele diz que embora seja um acadêmico, pesquisador e PhD, frequentemente pergunta-se ao ler matérias sobre ciência na imprensa:

“Isso é ciência ou é ficção?”

Zimmer diz que existem muitas razões pelas quais uma matéria científica pode não ser sólida.

“Charlatães tiram proveito da complexidade da ciência, alguns provedores de conteúdo não conseguem distinguir a ciência ruim da boa e alguns políticos espalham ciência falsa para apoiar suas posições.”

E recomenda aos jornalistas:

“Se a ciência parece boa demais para ser verdade ou maluca demais para ser real, ou apoia uma causa controvertida de maneira muito conveniente, você deve verificar sua veracidade.”

Didier Raoult França Covid
Foto: Twitter Didier Raoult

Um exemplo notório é o do médico francês Didier Raoult, que alcançou projeção internacional ao defender teses sem comprovação científica, ajudando a turbinar o avanço das fake news antivacina. Raoult foi apontado em uma pesquisa da BBC Monitoring como um dos três fatores a influenciar os céticos em relação às vacinas contra a Covid-19.  

Ele chegou a ser notícia no Brasil, defendendo o uso da hidroxicloroquina contra o coronavírus com base em um estudo feito com apenas 42 pacientes. 

Veja as dicas do pesquisador para quem faz ou edita matérias com base em estudos clínicos ou científicos, válidas também para quem as lê: 

Busque o selo de aprovação da revisão por pares

Mark Zimmer lembra que os cientistas contam com os periódicos especializados para compartilhar seus resultados científicos por meio de artigos.  

“Uma vez que os pesquisadores estão confiantes em seus resultados, eles escrevem um manuscrito e o enviam para um periódico. Os editores encaminham os manuscritos a pelo menos dois revisores externos com experiência no tema. Esses revisores podem sugerir que o manuscrito seja rejeitado, publicado como está ou enviado de volta aos cientistas para mais experimentos. Esse processo é chamado de “revisão por pares”.

Ele observa que as pesquisas publicadas em periódicos revisados por pares passam por um rigoroso controle de qualidade por especialistas.

“A cada ano, cerca de  2.800 periódicos revisados  por pares publicam cerca de 1,8 milhões de artigos científicos. O corpo de conhecimento científico está em constante evolução e atualização, mas você pode confiar que a ciência que essas revistas descrevem é sólida. As políticas de retratação ajudam a corrigir o registro se forem descobertos erros após a publicação.”

Pelo menos um caso desses ocorreu na pandemia, em 2020, com o respeitado periódico científico The Lancet, que publicou um estudo apontando riscos cardíacos advindos da hidroxicloroquina. Com base nele, a Organização Mundial de Saúde determinou a suspensão dos testes.

Mas o jornal The Guardian revelou falhas graves no trabalho, levando o periódico a retirá-lo do ar e a anunciar uma revisão em seu processo de revisão por partes.  

O professor lembra que a revisão por pares leva meses, e que há atalhos para abreviar a divulgação:

“Para divulgar mais rapidamente, os cientistas às vezes publicam trabalhos de pesquisa no que é chamado de servidor de pre-print. Eles geralmente têm um “RXiv” (pronuncia-se “arquivo”, em inglês) em seu nome: MedRXiv, BioRXiv e assim por diante. Esses artigos não foram revisados ​​por pares e, portanto, não são validados por outros cientistas. Os pre-prints fornecem uma oportunidade para outros cientistas avaliarem e usarem a pesquisa como blocos de construção em seu próprio trabalho de forma antecipada.”

E aí vem um dos alertas feitos por ele:

“Há quanto tempo esse trabalho está no servidor de pre-print? Se já se passaram meses e ainda não foi publicado na literatura revisada por pares, seja muito cético.

Os cientistas que enviaram o pre-print são de uma instituição respeitável? Durante a crise da Covid-19, com os pesquisadores tentando entender um novo vírus perigoso e correndo para desenvolver tratamentos que salvam vidas, os servidores de pre-prints ficaram repletos de ciência imatura e não comprovada.  Padrões de pesquisa estabelecidos  foram sacrificados pela velocidade. “

O pesquisador também chama a atenção para pesquisas publicadas nos chamados periódicos predatórios .

“Eles não revisam os manuscritos por pares e cobram dos autores uma taxa para publicá-los. Artigos de qualquer um dos  milhares de periódicos predatórios conhecidos  devem ser tratados com forte ceticismo.”

A lista dos predatórios recomendada pelo professor para consulta, elaborada pela Universidade Yale, está aqui.

Procure seus próprios pontos cegos

Mark Zimmer recomenda aos jornalistas cuidado com os preconceitos pessoais ou ideias pré-concebidas que possam induzir ao erro. 

“As pessoas dão às suas próprias memórias e experiências mais crédito do que merecem, o que torna difícil aceitar novas ideias e teorias. Os psicólogos chamam essa peculiaridade de viés de disponibilidade. É um atalho integrado útil quando você precisa tomar decisões rápidas e não tem tempo para analisar criticamente muitos dados, mas atrapalha suas habilidades de verificação de fatos.”

Ele acredita que na competição pela atenção, afirmações sensacionalistas superam fatos desinteressantes, porém mais prováveis. E aí entra a vontade de acreditar naquilo e – no caso dos jornalistas – salvar o que parece ser uma boa pauta: 

“A tendência de superestimar a probabilidade de ocorrências vívidas é chamada de viés de saliência. Isso leva as pessoas a acreditar erroneamente em descobertas exageradas e a confiar em políticos confiantes em vez de cientistas cautelosos.

Um viés de confirmação também pode estar em jogo. As pessoas tendem a dar crédito a notícias que se encaixam em suas crenças existentes. Essa tendência ajuda os que negam as mudanças climáticas e os antivacina a acreditar em suas causas, apesar do consenso científico contra eles”

O professor acha que os que passam as notícias falsas aos jornalistas conhecem as fraquezas das mentes humanas e tentam tirar vantagem desses preconceitos naturais. E que uma mente treinada pode reconhecer e superar preconceitos cognitivos.

Correlação não é causa

Essa talvez seja a maior armadilha de todas. Mark Zimmer sustenta que o fato de haver uma relação entre duas coisas não significa necessariamente que uma cause a outra.

Foto: Diana Polekhina/Unsplash

“Mesmo que as pesquisas descubram que as pessoas que vivem mais bebem mais vinho tinto, isso não significa que um gole diário estenderá sua vida.

Pode ser que os bebedores de vinho tinto sejam mais ricos e tenham mais cuidados com saúde, por exemplo. Esteja atento a esse erro nas notícias sobre nutrição.”

Quem foi objeto do estudo?

O pesquisador recomenda atenção a quem participou do estudo, e como.

“Se um estudo usou seres humanos, verifique se foi controlado por placebo. Isso significa que alguns participantes são designados aleatoriamente para receber o tratamento —como uma nova vacina— e outros recebem uma versão falsa que acreditam ser real, o placebo. Dessa forma, os pesquisadores podem dizer se algum efeito que observam é do medicamento que está sendo testado.”

Zimmer chama também a atenção para os testes duplo-cego, que a seu ver são os mais consistentes porque eliminam ideias preconcebidas. Neles, nem os pesquisadores nem os voluntários sabem quem está recebendo o medicamento ativo ou o placebo.

E destaca a importância de verificar a abrangência do estudo. 

“Quando mais pacientes são inscritos, melhores as condições de os pesquisadores identificarem problemas de segurança e efeitos positivos mais cedo. E diferenças entre os subgrupos tornam-se mais óbvias. Os ensaios clínicos podem ter milhares de assuntos, mas alguns estudos científicos envolvendo pessoas são muito menores. Eles devem abordar como alcançaram a confiança estatística que afirmam ter.”

No caso de estudos que não usaram pessoas como objeto, a cautela deve ser ainda maior.

“O que funciona bem em roedores pode não funcionar em você.”

A ciência não precisa de ‘lados’

Mark Zimmer é categórico quanto aos riscos da polarização, que a seu ver não pode fazer parte da matérias sobre ciência. E isso aplica-se fortemente à cobertura sobre as mudanças climáticas, um tema fortemente associado à política local e global. 

“Embora um debate político exija dois lados opostos, um consenso científico não. Quando a mídia interpreta objetividade como tempo igual, prejudica a ciência.”

Uma cobertura clara e honesta pode não ser o objetivo

O pesquisador não tem dúvidas de que para chamar a atenção do público, programas matinais e programas de entrevistas precisam de algo empolgante e novo. Mas acha que precisão pode acabar sendo sacrificada:

“Muitos jornalistas científicos estão fazendo o possível para cobrir com precisão novas pesquisas e descobertas, mas muitos meios de comunicação supostamente científicos seriam mais apropriadamente classificados como divertidos do que educacionais, e não devem ser suas fontes médicas de referência.

Ele recomenda cuidado com os produtos e procedimentos que parecem bons demais para ser verdade. E atenção aos interesses envolvidos: 

“Seja cético em relação aos testemunhos. Pense nas motivações dos principais players e em quem pode ganhar dinheiro com uma notícia”

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