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Instituto Reuters aponta caminhos para o resgate da confiança na imprensa

O mais novo Digital News Report do projeto Trust In News do Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo na Universidade de Oxford, divulgado nesta quinta-feira (22/4), não revela a fórmula mágica para a recuperação da confiança na imprensa, que vem declinando como resultado da combinação de fatores diversos, como a polarização da sociedade e o impacto das plataformas digitais sobre o acesso a informações. 

De acordo com o relatório do ano passado, que foi quantitativo, menos de quatro em cada dez pessoas (38%) em 40 países disseram que normalmente confiam na maioria das notícias. 

Mas nem por isso o novo documento é menos importante. Ele consiste em um diagnóstico valioso sobre como as pessoas veem o jornalismo e porque confiam (ou não) nas notícias.

E aponta comportamentos e tendências que podem ajudar o setor e as empresas jornalísticas a encontrarem suas próprias soluções para reverter a queda da confiança na imprensa, que não é restrita a um veículo ou a um país.

Desafios múltiplos 

Os pesquisadoes do instituto examinaram a situação da confiança na imprensa em Brasil, Reino Unido, Estados Unidos e Índia, por meio de 82 entrevistas com profissionais da mídia e focus groups com 132 participantes.

Uma das conclusões é de que não há um único problema de “confiança na imprensa”. E sim múltiplos desafios que envolvem tanto a oferta quanto a demanda por informações.

Os focus groups  foram feitos em conjunto com o instituto de pesquisa britânico YouGov. As amostras eram formadas por adultos que confiavam mais ou menos na imprensa, de idades variadas e diferentes hábitos de consumo de notícias. 

Os quatro países, representando os dois hemisférios, são heterogêneos em vários aspectos. Um deles, salientado pelo Reuters, é a forma como o público integrou as mídias sociais e digitais aos hábitos de consumo de notícias.

“Considerando que os sites de redes sociais públicas, como Facebook e Twitter, assumiram o papel de canais de informação importantes nas democracias em todo o mundo, muitos dos entrevistados salientaram a popularidade de serviços de mensagens criptografadas como o WhatsApp, especificamente no Brasil e na Índia, países em que o déficit em alfabetização digital acabou por transformá-los em terreno fértil para desinformação. “

Na batalha entre mídias sociais e jornalismo, as marcas tradicionais estão em vantagem, segundo o estudo. As notícias nas platafomas digitais foram vistas pelos entrevistados como menos confiáveis, apesar de eles reconhecerem a conveniência de se informar por meio das redes, dos mecanismos de busca ou dos aplicativos de mensagens. Entender a abundância de informações disponíveis online pode ser desafiador e até opressor, segundo o relatório. 

A vantagem explica-se porque a confiança é associada pelo público à reputação do veículo. Este é um ponto de atenção importante para as empresas de mídia na era da digitalização do jornalismo, como explica o pesquisador Benjamin Toff, autor principal do trabalho: 

“Avaliações sobre confiabilidade, para melhor ou para pior, muitas vezes se resumem ao branding. Os veículos que deixam de comunicar o que torna seu próprio jornalismo distinto correm o risco de serem vistos como substituíveis ​​por outras fontes online.

Uma vez que muitos já veem os espaços digitais como lugares onde informações não confiáveis ​​ou mesmo perigosas circulam livremente, torna-se vital para as organizações jornalísticas moldarem suas identidades de marca independentemente das plataformas onde costumam aparecer.”

O que faz o público ter confiança em um veículo?

Os pesquisadores concluíram que nos quatro países a confiança está geralmente associada a impressões pouco precisas sobre a identidade de marca. E não é influenciada pelas práticas adotadas na produção de conteúdo ou pelos padrões editoriais:

“Os processos editoriais são menos importantes quando as pessoas pensam sobre a confiança. Apenas um pequeno número de entrevistados em cada país demonstrou compreensão sobre como funciona o jornalismo ou sobre os processos de tomada de decisão na produção de notícias.

Muitos se concentraram em qualidades mais estilísticas, relativas à apresentação de notícias, que emergiram como sinais mais tangíveis de qualidade ou confiabilidade.”

O relatório afirma que conversas sobre confiança muitas vezes revelaram impressões mais gerais sobre coisas que as pessoas gostavam ou não gostavam na mídia, o que sugere que as fronteiras entre uma fonte de notícias que é “confiável” e uma fonte de notícias que é simplesmente “agradável” costumam ser confusas.

“O conceito de confiança está muitas vezes associado à familiaridade com a marca, sua reputação e se gostam ou não dela. Assim, a marca pode simbolizar confiança, mas também desconfiança.”

Nesse aspecto, o jornalismo brasileiro está em situação melhor do que os de Reino Unido e Estados Unidos. O Digital News Report 2020 havia identificado um nível de confiança mais elevado no País. O da Índia não foi pesquisado. E a confiança aumenta quando a pergunta é sobre os veículos que a pessoa acompanha e a imprensa de forma geral, corroborando a tese da importância da marca. 

 

Outra constatação do novo trabalho é que as figuras polarizadas da mídia geralmente se destacam aos olhos do público. O trabalho individual de jornalistas é bem menos reconhecido do que o dos apresentadores, sobretudo os que adotam posições mais extremadas.  

“Quando as pessoas falaram de jornalistas individuais, muitas vezes referiam-se a profissionais que costumam expressar opiniões fortes, e aos que escrevem artigos opinativos, embora muitas tenham feito questão de assinalar que preferem notícias imparciais baseadas em fatos.

Várias tiveram mais facilidade para citar jornalistas dos quais discordavam. Mas um número considerável de entrevistados no Brasil, no Reino Unido e nos Estados Unidos não conseguiu citar o nome de nenhum jornalista em particular.”

Agenda oculta

A pesquisa identificou que uma parte dos entrevistados acredita que o noticiário é influenciado por agendas ocultas. No entanto, o que as pessoas queriam dizer com isso geralmente refletia diferenças em suas próprias identidades políticas ou sociais, segundo os pesquisadores.

“Objetividade, imparcialidade e equilíbrio foram frequentemente invocados nos quatro países como valores associados ao jornalismo confiável.

Muitos criticaram empresas jornalísticas específicas por serem, em seu entendimento, impulsionadas por interesses comerciais ou partidários. Outros mostraram-se frustrados por acharem que o veículo retrata determinados grupos sociais de forma distorcida.”

O Instituto Reuters apurou também que o impacto residual da Covid-19 sobre confiança na imprensa parece ter sido mínimo. Poucos entrevistados citaram a pandemia como um fator para avaliar a confiabilidade de suas fontes de informação, a despeito dos aumentos em índices de confiança verificados logo após o início da pandemia. 

“Embora muitos tenham externado preocupações sobre informações incorretas relacionadas à saúde ou tenham se referido às notícias sobre o coronavírus como sendo emocionalmente desgastantes, a pandemia em si não pareceu alterar muito as visões anteriores sobre a mídia.”

O público e os jornalistas pensam a mesma coisa?

Apesar das diferenças consideráveis ​​nos ambientes da mídia em cada país, as discussões e entrevistas qualitativas revelaram pontos comuns entre as pessoas sobre como elas pensam e expressam preocupações sobre a confiança na imprensa em seus respectivos países.

Os pesquisadores combinaram em um só gráfico os principais tópicos levantados pelo público e pelos jornalistas entrevistados agora e para o primeiro relatório do projeto Trust In News. E observaram que embora existam áreas de sobreposição entre os dois grupos, o público é mais influenciado pela aparência do que pelas práticas jornalísticas. 

O risco da falta de confiança para a sociedade 

O relatório do Insituto Reuters admite que uma parcela do ceticismo em relação à imprensa é consequência natural de ambientes de mídia cada vez mais pluralistas. Mas faz um alerta:

“Em um mundo onde, apesar de suas imperfeições, muitos meios de comunicação continuam a ser as fontes independentes mais acessíveis e confiáveis para obter informações relevantes sobre assuntos públicos, o declínio da confiança pode ser uma barreira significativa para os cidadãos que precisam tomar decisões políticas informadas.”

Os pesquisadores destacam que uma parcela significativa de pessoas, sobretudo no Hemisfério Sul, se diz preocupada em separar o que é real do que é falso online. Mas enquanto grande parte do público acusa as plataformas digitais e políticos locais como responsáveis ​​pelo problema da desinformação, alguns também identificam os jornalistas como fontes de informações falsas ou enganosas. 

O Instituto Reuters afirma que iniciativas que endereçam transparência, engajamento e educação midiática têm se mostrado promissoras. Mas ressalta que permanecem obscuras as evidências concretas sobre o que funciona, com quem e sob quais circunstâncias.

Os pesquisadores sustentam que a conquista − ou reconquista − e a retenção da confiança do público não dependem apenas de fazer coisas que parecem boas ou que sejam de fatos boas. Elas precisam funcionar.

“Se não funcionarem, podem não fazer diferença alguma ou até serem contraproducentes.

Nosso objetivo é reunir evidências acionáveis ​​para ajudar jornalistas e meios de comunicação a tomarem decisões informadas sobre a melhor forma de abordar as preocupações em torno da erosão da confiança.”

No primeiro relatório do Trust in News, a visão dos jornalistas sobre a confiança na imprensa 

O estudo do Instituto Reuters é assinado por seis autores: Benjamin Toff, Sumitra Badrinathan, Camila Mont’Alverne, Amy Ross Arguedas, Richard Fletcher e Rasmus Kleis Nielsen, diretor-geral. 

Ele faz parte do projeto Trust In News, que ao longo de três anos vai investigar em profundidade os fatores que impactam a confiança e como reverter a tendência de queda.

O primeiro relatório da série, divulgado em dezembro de 2020, destacou a opinião de jornalistas e executivos de empresas de mídia para entender suas percepções sobre a confiança na imprensa a partir de suas experiências. Muitos jornalistas e executivos brasileiros deram suas contribuições. 

A conclusão é de que a confiança impacta tudo. E que dela depende a imprensa. 

“Se há um cachorro latindo, mas ninguém se importa, de que adianta?”

Margaret Sullivan, colunista de mídia, Washington Post (EUA)

 

Veja a seguir o que eles disseram no relatório de dezembro: 

O que é confiança para os jornalistas?

Muitos dos jornalistas entrevistados consideraram o conceito multifacetado. Vários acreditam que a confiança está enraizada em crenças sobre a integridade, profissionalismo e motivações daqueles que trabalham na mídia.

Mas pode depender também de como o jornalismo corresponde a suas próprias noções anteriores sobre o que se passa na sociedade. 

“Quando eles gostam do fato denunciado, eles gostam de nós. Quando não gostam do fato, não gostam de nós.”

Felipe Harmata, supervisor de notícias da BandNews Curitiba, falando sobre as reações do público à cobertura jornalística.

Essas dinâmicas mostram o tamanho do desafio de medir e elevar a confiança.  

Embora alguns estudos separem a confiança do conceito mais restrito de “credibilidade”, outros enfatizam a importância das dimensões afetivas da confiança, levando em conta como as pessoas se sentem sobre as notícias, não apenas como avaliam sua precisão e confiabilidade.

“As pessoas sentem que você está do lado delas? Eles acham que vocês são boas pessoas, acham que vocês têm boas intenções, que são honestos?”

Joy Mayer, diretora, Trusting News (EUA)

Confiança de quem? E que novidades?
Foto: Sergio Gonzalez/Unsplash

Assim como matérias ou jornalistas específicos ou tipos de mídia (por exemplo, mídia impressa ou social) podem gerar avaliações contraditórias, o público também pode ter expectativas diferentes sobre o que significa  jornalismo confiável. Estudos têm mostrado que parte das pessoas  considera o jornalismo fiscalizador desagradável ou prejudicial para suas comunidades, mesmo que os jornalistas muitas vezes o considerem indispensável.

Alguns exigem notícias que incluam diversas vozes, enquanto outros preferem notícias que apoiem ​​uma visão de mundo ideológica específica. 

“A confiança é uma relação. É mais do que apenas acreditar no que você está falando, mas que compartilhamos valores.”

Sally Lehrman, The Trust Project (EUA)

A organização tem procurado mapear indicadores compartilhados em torno de “fundamentos do jornalismo com integridade” que fazem com que sejam absorvidos pelas infraestruturas de algoritmos digitais em uma escala global. O objetivo é encontrar um terreno comum entre as culturas jornalísticas e os sistemas de mídia. 

Medir a confiança nas notícias por meio de pesquisas também depende fortemente da forma como as perguntas são feitas. Embora seja possível formar opiniões sobre veículos que nunca usamos, perguntar sobre imprensa de forma abstrata tende a gerar avaliações mais baixas do que medir a confiança nos veículos que as pessoas acessam regularmente.

“A confiança e a reputação estão ligadas”.

Louise Hastings, Sky News (Reino Unido)

De fato, estudos têm mostrado que marcas estabelecidas tendem a ser mais confiáveis, embora muitos fatores além da confiança, incluindo hábito e rotina, também determinem a preferência por determinados veículos.  

“Há valor no reconhecimento. As pessoas continuam a confiar em marcas antigas e famosas, mais do que eu esperava.”

Ben Smith, colunista de mídia do New York Times (EUA) e editor-chefe fundador do BuzzFeed News

Mas as reputações são subjetivas. Muitos também apontaram que marcas conhecidas podem gerar críticas em sociedades politicamente divididas.

“Toda vez que há polarização, a Globo está no meio dela. Por quê? Porque é, obviamente, um subproduto de nosso grande alcance, popularidade e trabalho.”

Cristina Piasentini, diretora de Redação da Globo em São Paulo

A compreensão do público sobre as práticas de coleta de notícias e verificação é persistentemente baixa
Foto: This Is Engineering/Unsplash

As entrevistas e a revisão de estudos relevantes mostram lacunas de conhecimento sobre como o jornalismo funciona. Limites obscuros entre conteúdo editorial e patrocinado, a falta de uma rotulagem clara online e o baixo conhecimento sobre práticas jornalísticas limitam os esforços para construir confiança em veículos precisos e confiáveis.

“A pessoa média não tem um grande embasamento em como fazemos nosso trabalho no nível mais básico.”

Craig Silverman, editor de mídia do BuzzFeed News (EUA)

Embora ainda não se tenha certeza sobre como essas lacunas no entendimento afetam a confiança, uma vez que poucos conhecem os mecanismos que os jornalistas profissionais empregam para apurar e produzir notícias, não se pode esperar que o público diferencie os veículos a partir de avaliações sobre suas práticas, que nem sempre obedecem aos mesmos padrões de qualidade.

Limites da educação para a mídia e iniciativas de verificação de fatos

Estudos mostrando a eficácia das intervenções destinadas a ajudar as pessoas a navegarem em ambientes caracterizados por grande variedade de veículos normalmente têm seu escopo limitado. Alguns entrevistados expressaram preocupação com o fato de a educação, em particular, continuar sendo uma barreira.

“Embora existam robôs disseminando desinformação, algumas pessoas acreditam nessas notícias porque não têm educação formal, não sabem distinguir entre as fontes.”

Linda Bezerra, editora-chefe do Correio (Brasil)

No entanto, tais problemas não se limitam àqueles sem educação formal. Como observaram dois jornalistas que atuam na Ásia:

“Há muitas pessoas que não conseguem distinguir entre um artigo que escrevi e um artigo que compartilhei [no Twitter]”. 

Sadanand Dhume, colunista do Wall Street Journal para o Sul da Ásia

“Embaixadores aposentados, médicos e até cientistas propagam desinformação selvagem e maluca. As pessoas que tentam lutar contra isso estão tentando esvaziar o oceano com um dedal”. 

Sadanand Dhume, colunista do Sul da Ásia, Wall Street Journal (EUA / Índia)

Padrões e práticas desiguais

Outros apontaram que culpar a alfabetização midiática pode ser uma desculpa para organizações de mídia cujas próprias falhas contribuíram para a confusão. Muitos falaram sobre sensacionalismo, ‘clickbait’ e outras práticas corrosivas, como a prática documentada e amplamente condenada em algumas publicações de notícias indianas de vender espaço editorial para políticos, conhecido como ‘notícias pagas’.

Foto: Md Mahdi/Unsplash

Embora as plataformas digitais tenham contribuído para esses problemas incentivando o conteúdo que gera cliques, outras são anteriores a eles. Um editor indiano de um jornal nacional disse que a direção de uma redação, mesmo em suas próprias organizações, pode ser especialmente desafiadora.

 “Os editores não têm estrutura para verificar os fatos locais, levando a uma descentalização que determina diferenças consideráveis nas matérias, mesmo dentro do mesmo estado”. 

O problema não se limita a países menos desenvolvidos:

“Há exemplos suficientes de reportagens de péssima qualidade, parcialidade política direta e baixa produção nos principais meios de comunicação que, sem surpresa, corroeram a confiança em muitos aspectos.”

Jim Waterson, editor de mídia, Guardian (Reino Unido)

Defendendo o  jornalismo de qualidade

Alguns pesquisadores argumentam que cabe aos jornalistas defender sua profissão. Um jornalista de televisão brasileiro sugeriu que “mais do que fazer um bom jornalismo, também precisamos explicar às pessoas o valor do que fazemos”:

“Olhe, acredite em mim, minhas notícias são boas. Não confie em tudo que você lê online ”’.

Em um exemplo digno de nota no ano passado, o Yorkshire Evening Post (Reino Unido) usou suas próprias páginas para defender a confiabilidade de suas reportagens após uma enxurrada de acusações nas redes sociais de que uma história que publicara sobre o Serviço Nacional de Saúde era ‘notícia falsa ‘.

“O jornalismo local é importante e nós, como indústria, precisamos bater esse tambor e realmente fazer nossas vozes serem ouvidas daqui para frente.”

Laura Collins, editora, Yorkshire Evening Post (Reino Unido)

Deficiências crônicas na cobertura prejudicaram os laços com alguns públicos

Vários entrevistados também destacaram o que consideraram falhas passadas dos veículos ao não refletirem nas notícias as vozes e as perspectivas das comunidades. Para Richard Prince, jornalista veterano e autor da coluna ‘ Journal-isms’ (EUA), a diversidade é fundamental para essa tarefa de ‘garantir a exatidão e a representação da vida como o leitor a vê’.

Quando os jornalistas estão distantes de seu público, entregar um jornalismo que atenda a essas expectativas torna-se mais difícil. 

“Se você perguntar a um homem pobre na rua se há notícias na mídia que são relevantes para sua vida e sobre questões sociais ou política que o afetam, a resposta provavelmente seria não. Por que ele deveria confiar na mídia?”

Vinod Jose, Editor Executivo, The Caravan  (Índia)

Repensando estratégias para ouvir o leitor 

Vários jornalistas entrevistados enfatizaram estratégias de engajamento que suas próprias empresas jornalísticas adotaram para construir relacionamentos mais profundos com os grupos sociais. Esses esforços também se tornaram um foco crescente da pesquisa em jornalismo. 

Nos Estados Unidos, por exemplo, Kelsey Davis Betz, repórter do site de notícias sem fins lucrativos Mississippi Today, descreveu a implantação de ‘redações públicas’ para cobrir melhor as comunidades do Delta do Mississippi.

Leia também: Scrollytelling, a saída para o jornalismo engajar o público?

Hugo Balta, diretor de notícias da estação de televisão pública WTTW News de Chicago, contou sobre a cobertura da Covid-19 em diferentes bairros da cidade para enfocar os impactos díspares da pandemia em diferentes comunidades, incluindo residentes latinos e negros da cidade. 

No Brasil, Arlen Medina Néri, diretor de Jornalismo do jornal O Povo, falou sobre a iniciativa do  Conselho de Leitores, que se reúne mensalmente para revisar e avaliar a qualidade da cobertura do jornal. 

Falhas do passado

Alguns dos entrevistados, sobretudo nos Estados Unidos e Reino Unido, também falaram sobre a importância de as redações adotarem processos para abordar aspectos de sua cobertura que estigmatizaram, prejudicaram ou ignoraram completamente segmentos importantes do público. Alguns descreveram cartas abertas ou auditorias de fontes – especialmente em torno de raça e gênero. 

Pippa Crerar, editora política do Daily Mirror , apontou para uma certa homogeneidade entre os jornalistas no Reino Unido – normalmente educados, de classe média, brancos, homens, etc. – e ‘se você não é nenhuma dessas coisas, as pessoas não sentem que a mídia está representando-as”. 

Lutando com pontos de vista concorrentes sobre diversidade
Foto: Aaron Blanco/Unsplash

As estratégias de diversificação da cobertura apresentam riscos, já que focar em algumas comunidades pode alienar outras.

Enquanto Kelsey Davis Betz, por exemplo, falou sobre os esforços do Mississippi Today para ser “muito mais aberto sobre o que nos preocupa” e cobrir mais as pessoas “que historicamente foram violentamente prejudicadas pelas notícias”, a gerente sênior Kayleigh Skinner revelou que tais esforços também geraram respostas raivosas dos conservadores, acusando-os de ‘isca racial’.

Outros entrevistados observaram problemas semelhantes. 

“A confiança pode ser construída pela representação, mas também pode ser destruída.”

Jess Austin, editora de comunidades da Metro (Reino Unido)

“O fato de que a grande maioria dos meios de comunicação tem uma visão mais progressista, enquanto parte da sociedade não se alinha com isso, está supersaturada, [e] leva à desconfiança.”

Guilherme Cunha Pereira, CEO do Grupo GRPCOM (Brasil)

Avaliações de confiança e desconfiança estão profundamente ligadas à política

Em última análise, muitas atitudes em relação às notícias podem ter pouco a ver com as redações. À medida que a confiança em outras instituições cívicas caiu, a confiança nas notícias normalmente acompanha a tendência.

 “As pessoas em sociedades democráticas deixaram de ter níveis talvez exagerados de confiança ou fé em suas instituições para irem em outra direção.”

Craig Silverman, BuzzFeed

A importância do partidarismo

Estudos apontaram o partidarismo como uma das mais fortes influências para a confiança na imprensa, mas pesquisas sobre o assunto se concentram em poucos países.  Mesmo assim, muitos jornalistas entrevistados no Brasil e na Índia também apontaram o partidarismo como um importante fator de desconfiança em seus próprios países.

“A política indiana sempre foi extrema, sempre polarizada. Um país de amargas contestações e rivalidades.”

Swagato Ganguly, editor de Opinião, Times of India

A influência da retórica da elite

Como muitas atitudes políticas, impressões sobre a imprensa muitas vezes são influenciadas por líderes políticos – alguns dos quais orquestraram “um esforço muito deliberado e concentrado para semear dúvidas e confusão”, como apontou o chefe do escritório do New York Times no Brasil, Ernesto Londoño. 

O papel da imprensa estrangeira

Jornalistas entrevistados que trabalharam como correspondentes estrangeiros muitas vezes disseram que não sentiam as mesmas percepções dos jornalistas locais em relação ao seu trabalho. 

Embora algumas reportagens, por exemplo sobre o meio ambiente, tenham gerado críticas de que “somos uma ferramenta de uma conspiração global”, Londoño disse achar que tais casos eram mais a exceção do que a regra.

BBC News – Siora Photography/Unsplash

Jamie Angus, diretor do BBC World Service Group (Reino Unido), observou que em lugares onde falar com jornalistas locais poderia fazer as pessoas ‘temerem as consequências para seu próprio bem-estar e segurança’, agências estrangeiras como a BBC, em sua opinião, têm um papel vital a desempenhar – embora possam ser vistas por alguns como “resíduos de um projeto imperial”.

Em alguns desses mercados conflituosos, onde há um déficit real de informações confiáveis, o público ainda acha que a BBC não tem motivos para apresentar uma imagem parcial de uma forma ou de outra.”

Jamie Angus, Diretor, BBC World Service Group (Reino Unido)

Expandindo as opções de mídia

Muitos entrevistados manifestaram preocupação com a tendência de o ambiente de mídia digital se tornar cada vez mais propício para reforçar crenças, especialmente em países divididos por questões políticas e sociais e onde a desinformação flui livremente em aplicativos de mensagens. 

Enquanto alguns, como Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha de S. Paulo (Brasil), acreditam que eventos como a pandemia da Covid-19 ajudarão a convencer o público de que ‘não existe um grupo no Facebook para resolver seus problemas; você precisa ir a fontes profissionais de jornalismo para verificar as informações ‘, a maioria foi mais pessimista.

“[A internet] facilitou amplamente a polarização. As notícias se tornam uma arma de guerra.” 

Luis Nassif, editor do Jornal GGN (Brasil)

“O melhor que podemos fazer é desenvolver e manter os padrões que desejamos manter e esperar que prosperem no mercado. 

David Lauter, correspondente sênior do Los Angeles Times(EUA) em Washington 

Até que ponto as plataformas são prejudiciais às identidades de marca das organizações de notícias ?

A experiência de consumir notícias online é cada vez mais mediada por plataformas que alguns sugerem que constantemente ‘destroem  a integridade do conteúdo ao minar sua procedência’, nas palavras do presidente-executivo da News Corp, Robert Thomson. 

Mantido “cativo” para plataformas

Muitos dos entrevistados ficaram incomodados com essa mudança. Sally Lehrman, do The Trust Project, ao descrever suas próprias conversas com executivos de mídia, disse que muitos se sentiam “presos às mídias sociais e aos mecanismos de busca e  ao ambiente digital em geral”. 

Foto: Brett Jordan/Unsplash

Rafael Cores, vice-presidente de conteúdo digital da Impremedia, dona de vários veículos de mídia hispânica nos EUA, falou com frustração sobre os esforços para se conectar com o público no Facebook e Twitter e ver as plataformas mudarem as regras do jogo de forma completamente aleatória. 

Embora alguns tenham demonstrado aprovação sobre como as mudanças nos algoritmos impulsionaram os editores que postam conteúdo original, se não houver  rótulos claros “o público médio não teria ideia”, disse Yara Silva, chefe do grupo de mídia social das publicações nacionais da Reach Plc no Reino Unido (incluindo Daily MirrorDaily Express e Daily Star).

Estudos têm mostrado que muitos usuários não se lembram da fonte das matérias em que clicam. 

Oportunidades para construir confiança?

Alguns entrevistados foram mais otimistas sobre as maneiras pelas quais as plataformas podem ser aproveitadas para aprofundar os relacionamentos com o público. Ou acreditam que a qualidade variável das informações que oferecem ao público pode, na verdade, ser uma oportunidade para os editores se destacarem.

“O caótico ambiente online reforça a necessidade de fontes confiáveis ​​que possam atuar como ‘vigilantes da informação de qualidade.”

Thiago Contreira, diretor de Conteúdo de Record TV / R7 (Brasil)

Em termos de aprofundar as relações com o público, Caroline Bauman, estrategista de engajamento da comunidade para a organização de notícias sem fins lucrativos Chalkbeat (EUA), disse que as páginas de mídia social têm sido “um ótimo lugar para aumentarmos nosso público e aumentarmos a confiança”, mas apenas porque o próprio Chalkbeat trabalhou “super, super duro” em cultivar seguidores “realmente engajados e leais”, fazendo como que os leitores sintam-se envolvidos na cobertura. 

Influenciadores externos

Estabelecer confiança online também requer lutar contra forças com grande influência nas plataformas, como celebridades, políticos, e pessoas que procuram espalhar mentiras deliberadamente.

“As pessoas não seguem mais as organizações de mídia; eles seguem outras pessoas. Então, um cara qualquer que vê o mundo da janela do seu quarto e escreve sobre tudo ganha a mesma importância que uma organização como o Estadão, que tem 400 jornalistas trabalhando o tempo todo.”

David Friedlander, editor-Chefe, O Estado de S. Paulo (Brasil)

Quais estratégias de engajamento do público geram confiança? O que pode miná-lo?

Um pequeno, mas crescente número de redações tem procurado colaborar com pesquisadores para testar várias iniciativas de engajamento. Mas como Joy Mayer, que lidera o Trusting News, apontou, “testar o que funciona é incrivelmente complicado”. 

Abordagens baseadas na intuição

Na maioria das vezes, as redações tomam decisões guiadas pela intuição sobre o que funciona. Muitos entrevistados disseram acreditar que os jornalistas podem ganhar a confiança do público investindo no próprio produto: jornalismo de qualidade, que ‘você não consegue em nenhum outro lugar’, como disse Seth Kaplan, um produtor de televisão local dos Estados Unidos:

“Se pudermos fazer isso e colocarmos no Facebook e receber toda essa tração, as pessoas vão perceber: ‘Isso é bom. Talvez eu dê uma olhada em um de seus noticiários.”

Seth Kaplan, produtor executivo, Fox 9, Minneapolis, Minnesota (EUA)

Mas em ambientes onde a desconfiança é profunda, não está claro se o dispendioso jornalismo empresarial ou o jornalismo de serviço público serão recompensados. Fábio Gusmão, editor de projetos especiais do Extra e O Globo (Brasil),  falou sobre essas incertezas:

“Estamos até entregando checagem de fatos para a sociedade e, mesmo assim, as pessoas falam: ‘Não, são notícias falsas’.”

Fábio Gusmão, editor de projetos especiais de Extra e O Globo (Brasil),  falando sobre essas incertezas.

Esforços de engajamento direto e escalabilidade

Em 2019, a Society of Professional Journalists conduziu o The Casper Project, uma série de painéis e workshops ao longo de seis meses em Casper, Wyoming, um lugar com alguns dos níveis mais baixos de confiança em notícias nos Estados Unidos. Jornalistas nacionais e locais se conectaram com membros da comunidade e discutiram práticas de coleta de notícias e reportagem. 

Mas, no final, nenhuma mudança significativa foi encontrada nos hábitos de notícias dos participantes ou nas opiniões sobre a imprensa.

“Achei que poderíamos persuadir um casal, duas ou três pessoas, mas sabia que não seria a maioria das pessoas. É muito difícil mudar a opinião das pessoas sobre as coisas e também é difícil quebrar os hábitos das pessoas.”

Rod Hicks, da Society of Professional Journalists (EUA)

Replicar até mesmo iniciativas bem-sucedidas em diferentes ambientes de mídia requer recursos em um momento em que eles são escassos. Irineu Machado, do UOL, falou sobre os esforços intensivos da empresa para usar grupos de mídia social para discutir temas com leitores e disseminar conteúdo verificado.

Linda Bezerra, do Correio, da Bahia, chega a escrever cartas para novos assinantes dando a eles seu número do WhatsApp para entender melhor suas perspectivas. Ela reconheceu, no entanto, que à medida que o número de leitores aumenta, essa atenção personalizada se tornará impossível.

Fazendo escolhas em torno da defesa de direitos

Vários entrevistados levantaram questões sobre se os formatos convencionais de notícias imparciais permanecerão comercialmente viáveis. Embora a maioria dos usuários de notícias em todo o mundo diga que prefere notícias que não têm um ponto de vista específico, em sociedades polarizadas, segmentos grandes e frequentemente ativos do público buscam notícias de fontes que compartilham sua visão de mundo. 

Hicks observou que os participantes mais céticos de Casper eram os ávidos telespectadores da Fox News, que viam o escrutínio do presidente Donald Trump como evidência de parcialidade. Outros falaram sobre o apelo de formas de jornalismo orientadas para a advocacia. 

Como argumentou Guilherme Cunha Pereira do Grupo GRPCOM, “Ser transparente sobre o que se acredita é premissa para gerar uma forte relação de confiança”.

 

 

“O modelo antigo e imparcial, do qual todos temos muito orgulho e pelo qual sentimos muita paixão, não é universalmente amado pelo público mais jovem”, reconheceu Jamie Angus, da BBC. Mas, ao experimentar estilos de reportagem que elevam “histórias pessoais com sub-representadas lideradas por personalidades ou perspectivas individuais”, ele cria novos desafios em torno da preservação de uma postura editorial neutra geral: “Centrar a reportagem do ponto de vista de uma pessoa só traz inevitavelmente um problema de imparcialidade, certo?”.

Agradar a todos os públicos é impossível

“Devemos pelo menos a nossos leitores e a nós mesmos defender o jornalismo mainstream”, disse Sewell Chan, editor da página editorial do Los Angeles Times (EUA), referindo-se à defesa pública de Tom Rosenstiel do que Chan chamou de jornalismo enraizado em um “método de objetividade”.

Ben de Pear,  editor de notícias do Channel 4 (Reino Unido), disse da mesma forma: “Nós meio que dobramos tudo que costumávamos fazer”. Ambos reconheceram, no entanto, que o público tem expectativas crescentes sobre quantas notícias devem reafirmar em vez de desafiar a maneira como veem o mundo.

“O fato de a emissora fazer jornalismo imparcial em um mundo polarizado não diminui a confiança, mas afasta um público que às vezes acha que somos chatos. Porém, nunca desistirei da minha imparcialidade em troca disso.”

Pedro Dias Leite, diretor executivo, Rádio CBN (Brasil)

Quanto é transparência demais? Que tipo de transparência é mais importante?

Como observou o filósofo Onora O’Neill, nunca houve informações sobre muitos dos indivíduos e instituições que julgamos serem mais abundantes, “mas este grande entusiasmo por uma abertura e transparência cada vez mais completas fez pouco para construir ou restaurar a confiança pública”. Enquanto isso, as próprias plataformas que facilitam o acesso a essas informações costumam operar de forma tão opaca que são quase ininteligíveis para seus usuários.

Apesar desta perspectiva mista de transparência, os tipos de iniciativas que ouvimos referenciadas em entrevistas com mais frequência foram aquelas destinadas a puxar a cortina e tornar os processos de relatório e tomada de decisão mais visíveis .

Esses esforços incluem a divulgação de políticas sobre conflitos de interesse, publicidade e correções, mas também as identidades das pessoas que selecionam as histórias e determinam o que é interessante.

“A primeira relação do público é com o comunicador. Mas diferentes formas de abertura podem influenciar a confiança de maneira diferente, e ainda faltam evidências sobre quando e como ela pode ser implementada de forma eficaz.”

Marcelo Rech, presidente da Associação Brasileira de Jornais (ANJ)

Jornalistas como humanos tridimensionais

Muitos falaram sobre a necessidade de colocar repórteres e apresentadores em primeiro plano como pessoas reais e relacionáveis ​​- muitas vezes com conhecimento especializado – em vez de figuras distantes e sem rosto da mídia. Isso pode significar links para biografias de jornalistas online para que os leitores ‘vejam um pouco mais sobre quem é a pessoa que está escrevendo essa história, o que eles sabem sobre isso’, nas palavras de Nick Sutton, chefe de produção digital da Sky News (Reino Unido) .

Também pode significar que jornalistas participem de transmissões ao vivo em mídias sociais ou outra divulgação personalizada on-line, apesar das preocupações sobre o papel das plataformas na erosão da confiança.

Amanda Gilbert, a repórter de televisão local de Tulsa (EUA), disse que ela e seus colegas eram obrigados a postar em suas páginas profissionais do Facebook três vezes por dia, “para que as pessoas conheçam você”.

Pouco se sabe se esses esforços podem gerar confiança com o tempo. Como o colunista do New York Times Ben Smith observou, “se você pensar em outros produtos que exigem confiança real, são principalmente marcas, não indivíduos”, acrescentando: “As pessoas são mais propensas a confiar em um humano, mas também mais propensas a desconfiar de um humano”.

Ainda assim, organizações como New York Times investiram pesadamente em podcasts como parte de uma estratégia para se conectar com os leitores no que eles esperam ser um nível mais pessoal.

O áudio mostra a humanidade das notícias de uma forma que muitos impressos lutam para mostrar – mostra a humanidade das pessoas de quem estamos falando, mostra a humanidade das pessoas coletando as notícias, mostra a humanidade do mundo que nós viver de uma maneira diferente do que as histórias impressas.

Hans Buetow, produtor sênior, New York Times (EUA)

Como lidar com a mídia social

Muitos veículos têm tratado publicamente sobre como os jornalistas devem utilizar as redes. Organizações como a BBC impuseram diretrizes editoriais rígidas em atividades profissionais e privadas, incluindo online, que dizem ter o objetivo de evitar comprometer compromissos com a imparcialidade.

Em outros lugares, no entanto, as políticas variam amplamente e alguns até defendem mais, em vez de menos, divulgação sobre pontos de vista políticos pessoais. Por exemplo, Medina Néri (Brasil), do jornal O Povo, explicou que encorajam os jornalistas a ‘ter opiniões e a publicá-las no local certo’, de forma a demonstrar uma divisão clara e explícita entre notícia e opinião.

Lados negativos da transparência

A transparência em torno da prática jornalística também contém riscos inerentes. O editor de mídia do The Guardian, Jim Waterson, disse que alterna às vezes sentir que “abertura e honestidade” são “uma boa ideia” e se perguntar se “mostrar como a salsicha é feita no jornalismo é uma péssima ideia para a confiança, porque não quer ver como são feitas as salsichas”.

“Se você acreditasse no que o público diz que quer, estaríamos todos lendo nossas notícias na forma de uma revista mensal com artigos de 4.000 palavras. Isso é besteira.”

Jim Waterson, editor de mídia, Guardian (Reino Unido)

Sabemos ainda menos sobre como o público pensa sobre esses assuntos em lugares como Índia e Brasil. Assim como a segurança dos jornalistas e de suas fontes pode levar as organizações de notícias a reter informações às vezes, os benefícios de algumas formas de transparência podem ser superados por seus custos – fortalecendo a confiança para alguns, mas servindo como munição para outros.

De onde vêm os preconceitos sobre as notícias e como podem ser mudados?

Finalmente, a desconfiança nas notícias para muitos públicos pode estar enraizada em preconceitos profundamente arraigados sobre  motivações e sobre como o jornalismo funciona. Chamadas em alguns estudos de ‘teorias folclóricas’, essas ideias podem ser mais ou menos verdadeiras (e, é claro, às vezes comprovadamente falsas). 

Hostis ou não, esses preconceitos provavelmente baseiam-se em uma combinação de fatores que vão desde experiências pessoais e identidades partidárias ou outras até representações culturais populares de notícias, sejam salutares (por exemplo, Spotlight ) ou não (por exemplo, House of Cards).

Narrativas sobre notícias são generalizadas

Muitos jornalistas que participaram do estudo têm suas próprias opiniões arraigadas sobre como a mídia funciona nos países que cobrem. Um jornalista que cobre a Índia disse: “Vemos uma grande perda de fé na integridade dos jornalistas”, com muitas pessoas acreditando que todos no mundo das notícias são ‘comprados’, o que pode tornar a defesa da profissão problemática.

Também para o público, os preconceitos sobre a imprensa podem ser tão arraigados que tudo sobre as notícias é interpretado por essas lentes. Rebecca Walters, produtora executiva da afiliada de televisão local KJRH em Oklahoma (EUA), relatou críticas frequentes que ouviu de telespectadores que alimentam suspeitas sobre os motivos da mídia. “Sou sensível a isso”, disse ela, porque tem parentes próximos que sentem o mesmo. 

Ela luta para convencer até mesmo seu próprio pai, ‘aquela pessoa que me criou’, de que sua posição não tem uma agenda partidária oculta:

“Eu realmente não estou aqui para tentar empurrar qualquer coisa para você.”

Rebecca Walters, produtora executiva, KJRH, Tulsa, Oklahoma (EUA)

A necessidade de soluções coletivas

Com os meios de comunicação individuais competindo simultaneamente para convencer o público de que são mais confiáveis ​​do que os concorrentes, qual poderia ser o efeito coletivo de tal enxurrada de mensagens?

Alguns sentem que há solidariedade entre as empresas jornalísticas. Steve Graves, editor executivo de digital do Liverpool Echo (Reino Unido), falou sobre a mídia regional, mas observou que “títulos nacionais e regionais têm questões de confiança bastante diferentes”. Outros não tinham tanta certeza.

“Eu não vou te enganar. Cada um está olhando para seus próprios problemas e procurando meios de sobreviver.”

Maurício Lima, editor-chefe, Veja (Brasil)

O relatório cita vários esforços cooperativos, desde o projeto Trust mencionado anteriormente até a Journalism Trust Initiative. E destaca o que chama de exemplo sem precedentes do  consórcio de veículos de imprensa no Brasil reunidos para examinar dados dados da Covid-19 de forma independente. 

Mas observa que maioria das vezes, as empresas resolvem esses problemas sozinhas, tentando estabelecer relacionamentos únicos e duradouros com públicos repletos de escolhas e narrativas sobre o que significa ser um consumidor experiente na era digital.

“Quando você está trabalhando nas trincheiras das notícias, seu maior medo não é o ceticismo dos leitores. Seu maior medo é a inexistência de leitores… o medo da irrelevância. “

Sewell Chan, editor de página editorial, Los Angeles Times (EUA)

Olhando para o futuro

Os pesquisadores enfatizam em vários pontos do relatório a ausência de soluções prontas ou de fórmulas únicas para um problema multifacetado. E as opiniões dos jornalistas entrevistados (e do público) mostram claramente isso.

Há um longo caminho a percorrer, e o trabalho do Instituto Reuters é um documento fundamental para quem estuda e trabalha para reverter a tendência de queda da confiança na imprensa, que nem o trabalho espetacular da mídia global durante a pandemia foi capaz de impactar positivamente. 

 

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https://mediatalks.com.br/2021/01/29/estudo-global-mostra-indices-de-confianca-na-imprensa/

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