Coluna originalmente publicada no J&Cia em 21.04.2021

A edição 2021 do Ranking Mundial Liberdade de Imprensa da organização Repórteres sem Fronteirasapresentado em Paris nesse 20 de abril, trouxe resultados preocupantes. Apenas 12 dos 180 países avaliados oferecem um ambiente seguro para a prática do jornalismo.

Não foi exatamente novidade, já que notícias sobre obstáculos ao trabalho da imprensa, agressões e mortes de jornalistas viraram quase rotina.Duas culpadas foram apontadas: a pandemia, por ter servido como pretexto para bloqueios e censura, e as redes sociais.

Não se discute o valor das plataformas para a própria imprensa e para a sociedade. Mas o efeito colateral tem sido o uso que se faz delas para alimentar ódio contra o jornalismo como instituição, contra profissionais e contra veículos.

A RSF afirma em seu relatório que a desinformação, associada à intensificação da violência política na internet direcionada contra jornalistas, é um dos maiores desafios da atualidade para a garantia do direito à liberdade de imprensa.

A entidade aponta que nos últimos anos governos de diversos países e matizes ideológicas incorporaram ao seu discurso público uma estratégia de minar a legitimidade do papel da imprensa como mediadora social e fiscalizadora do poder.

E critica o uso das plataformas por chefes de estado, parlamentares e autoridades para incentivar ataques contra profissionais e empresas de mídia “como forma de desviar a atenção sobre revelações comprometedoras, manter sua base política mobilizada e ter controle sobre o debate público”.

O Brasil caiu quatro posições no ranking deste ano e entrou para a zona vermelha, que sinaliza países em situação crítica. O presidente Bolsonaro figura no documento como governante que tem se destacado nos ataques à mídia e na desinformação, com referências à promoção do medicamento hidrocloroquina sem comprovação de sua eficácia.

Embora o presidente tenha se notabilizado pelos embates com a mídia, o problema não está só nele e nem no Brasil polarizado politicamente. Mesmo em países cujos líderes respeitam a imprensa (casos da Alemanha, do Reino Unido), as redes sociais estão contaminadas por discurso de ódio contra jornalistas.

Os motivos são diferentes. Em alguns países o problema é o governante. Em outros, grupos radicais e teóricos da conspiração. Mas o resultado é um só: um desgaste do jornalismo que diminui a confiança da sociedade e limita seu acesso a informações confiáveis e a diferentes opiniões.

A Europa tem sido particularmente afetada pelo extremismo de direita, que a pandemia só fez piorar. Negacionistas da Covid-19 e grupos inconformados com as medidas de isolamento social por seu impacto na economia deram-se as mãos em uma perigosa aliança, que levou a cenas inacreditáveis de repórteres perseguidos durante manifestações, fugindo ao som de cânticos pedindo a sua morte.

Facebook, novamente na berlinda

Mas imprensa não é a única vítima. Discurso de ódio e abuso online afetam minorias raciais, crianças, celebridades e anônimos. Por isso, está no radar de muitos que se preocupam com a ausência de limites e a fragilidade dos atuais sistemas de moderação de conteúdo.

Em março, o jornal britânicoThe Guardian teve acesso às regras do Facebook para os  moderadores. A orientação é de que ataques e até pedidos de morte não sejam removidos, à luz da liberdade de opinião.

No início desta semana, o Reino Unido elevou o tom contra a plataforma para que reveja os planos de implantação da criptografia de ponta a ponta no Instagram e no Messenger. O argumento é o risco de dificultar a investigação de abusos online contra crianças, terrorismo e extremismo.

As plataformas resistem, e talvez isso se deva à própria dificuldade de estabelecer os parâmetros entre o que é opinião e o que é violência − ainda que os mais críticos apontem o interesse comercial.

O agravamento de situações como a queda de confiança na imprensa, no entanto, não deixa muita alternativa senão encontrar fórmulas para que os danos das redes sociais não superem seus benefícios.

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