Uma série de fotos em preto e branco retratando uma comunidade inglesa desfavorecida e segregada valeu ao britânico Craig Easton o título de Fotógrafo do Ano do concurso Sony World Photography Awards 2021. Easton havia ganho o mesmo concurso em 2017.

O fotógrafo recebeu um prêmio de US$ 25 mil. A série ganhou também o 1º lugar na categoria Retrato. E Easton ainda ficou com a segunda colocação na categoria Projetos Documentários com a série “Os filhos de Thatcher”. 

“Bank Top” foi produzida em colaboração com o escritor e acadêmico Abdul Aziz Hafiz e examina a representação e degradação das comunidades na região norte do país, tendo o bairro de Bank Top, em Blackburn, como referência.

A cidade viveu um declínio econômico devido à redução de sua atividade industrial. Segundo o Office for National Statistics do Reino Unido, minorias étnicas compõem mais de 30% da população. Bank Top tornou-se um símbolo de segregação.

O fotógrafo disse que seu objetivo foi confrontar o que ele vê como discursos dominantes na mídia, que não reconhecem o legado histórico e os custos sociais da expansão industrial e do colonialismo.

“Bank Top” por Craig Easton

Os retratos em preto e branco são intimistas e captam as histórias e dificuldades vividas pelos residentes do bairro, afetados por problemas como habitação, desemprego, privação social e questões imigratórias.

Mike Trow, Presidente do concurso profissional 2021, disse:

“O que é tão impressionante sobre este projeto é a intenção, dedicação e compreensão que Craig traz para ele. É a força moral por trás deste trabalho que o torna tão importante e merecedor do prêmio”.

 

Série  “Os filhos de Thatcher”

Easton ficou também em segundo lugar na categoria Projetos Documentários com a série “Os filhos de Thatcher”, que retrata  a natureza intergeracional crônica da pobreza, explorando os efeitos das políticas sociais de governos sucessivos vivenciadas por três gerações de uma família no noroeste da Inglaterra:

“Conheci a família Williams em Blackpool em 1992: os pais e seis filhos morando em um albergue para famílias sem-teto. Eles estavam presos em um ciclo de desemprego e pobreza. Há muito tempo eu me perguntava o que havia acontecido com a família. Eu finalmente os rastreei em 2016 e acompanho sua trajetória desde então.

Os seis filhos agora têm quase 30 filhos entre eles, quase todos vivendo em condições semelhantes às de 1992. Agora, no entanto, eles estão presos por contratos “zero hora”, trabalhando em condições difíceis.

Vejo a experiência deles como ilustrativa do que aconteceu a uma parcela da sociedade que foi deixada de lado pelas políticas sociais implementadas nas décadas de 1980 e 1990″.

                                             

O fotógrafo
Craig Easton/Foto perfil Twitter

Craig Easton é conhecido por seu dramático trabalho de paisagens e retratos intimistas de vidas reais. Iniciou sua carreira com um trabalho para o jornal Independent de Londres e, desde então, ganhou vários prêmios. 

Em 2013 e 2015 foi listado entre 200 os melhores fotógrafos de publicidade no mundo pelo Luerzers Archive. Seu trabalho documental e de fotografia de arte utiliza as imagens para contar histórias, em forma de reportagens visuais. 

 

O concurso

O Sony World Photography Awards é um dos principais concursos de fotografia do mundo, resultado de uma parceria de 14 anos da fabricante de equipamentos com a World Photography Organisation.

A edição 2021 foi dividida nas seguintes competições: Competição profissional, Aberta, de estudantes,  juvenil, Nacional e Regional, prêmio Profissional da América Latina e Prêmio Feminino Alpha, além do prêmio Contribuição Excepcional para a Fotografia.

Conheça os vencedores em cada categoria. 

Competição profissional

Arquitetura e Design

1º. Lugar: Tomás Vocelka, República Tcheca – Eternel Hunting Grounds (Pet Crematorium do arquiteto Petr Hajek)

O antigo complexo militar Drnov ficou abandonado por 17 anos, até que dois amigos, Martin Chlum e Michal Seba, compraram as instalações dilapidadas para realizar seu sonho de construir um local de descanso final para animais de estimação. (…).

Com a ajuda do arquiteto minimalista tcheco Petr Hajek, eles estabeleceram o que agora é conhecido como Eternal Hunting Grounds, um espaço que compreende uma sala de luto, um crematório e aproximadamente 40 hectares de terreno circundante onde a vida selvagem pode prosperar.

Criativo

1º. Lugar: Mark Hamilton Gruchy, Reino Unido – A lua revisitada

“Esse trabalho é composto por imagens não processadas da NASA e do Laboratório de Propulsão a Jato. Fiz minhas próprias imagens para expressar não apenas questões contemporâneas, mas também algumas que eram relevantes na época das missões Apollo.

As imagens são provenientes de materiais livres de direitos autorais que eu processei e compus para criar uma conversa sobre o aspecto imutável da Lua em contraste com a Terra, que continua a ser um lugar dinâmico onde a mudança não pode ser evitada. Com agradecimentos à NASA e ao JPL”.

Projetos de Documentários

1º. Lugar: Vito Fusco, Itália – The Killing Daisy

O piretro é conhecido como a ‘flor da morte’ – um apelido que descreve com perfeição esta delicada margarida impregnada de poder assassino. O piretro é cultivado principalmente nas colinas de Nakuru, no Quênia, e é o arquiinimigo do mundo dos insetos. Quando os insetos encontram a substância, ficam paralisados ​​e depois morrem.

Usado por séculos como inseticida natural, foi apenas em meados do século 20 que o piretro teve impacto no mercado global de pesticidas, conquistando uma posição de destaque entre os inseticidas naturais. Durante a década de 1980, começou a crise do piretro, instigada pela síntese química dos piretróides que levou à fabricação de produtos mais baratos, mas não orgânicos.

Hoje, no entanto, esta margarida especial está sendo cultivada mais uma vez nas colinas de argila de Nakuru, a uma altitude de mais de 1,5 mil metros.O governo queniano decidiu liberalizar a produção de piretro, abrindo-a para empresas privadas em uma tentativa ambiciosa de reviver o setor e ajudar os agricultores locais a atender à crescente demanda global por produtos orgânicos. Depois de semeada, a planta fornece uma produção a cada 15 dias aproximadamente, durante todo o ano.

Meio Ambiente

1º. Lugar: Simone Tramonte, Itália – Transição Net-zero

A pandemia de coronavírus levou à crise econômica mais severa que o mundo já viu nos últimos anos. No entanto, esta crise também apresentou aos países uma oportunidade sem precedentes de mudar para uma vida mais sustentável.

A Islândia está isolada e desafiada por um clima hostil e, após a crise financeira de 2008, transformou com sucesso sua economia por meio do uso de energia renovável. Em poucas décadas, o país deixou de usar os combustíveis fósseis para produzir 100% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis.

Essa transição alimentou um ecossistema de inovação e empreendedorismo que fez crescer negócios lucrativos com o objetivo de causar o mínimo impacto no meio ambiente. Assim, a Islândia se tornou líder global em tecnologias que promovem energia limpa e redução de emissões.Esta pequena nação apresenta muitas maneiras pelas quais a crise climática global pode ser enfrentada.

Panorama

1º. Lugar: Majid Hojjati, Irã – Bairros silenciosos

Tudo na vida é feito de impressões do passado e do que nos acontece hoje. O tecido que assumiu uma forma ontem assume uma nova forma agora. Todas as criaturas ainda lutam por sua sobrevivência. A natureza é o campo de batalha.

Achamos que vamos durar para sempre, então caçamos, construímos, usamos roupas e consumimos, mudando nossas ideias e nossas ferramentas ao longo dos anos, mas nunca mudando nossos hábitos.

Perseguimos cada vez mais e sempre algo ficava para trás. Casas foram abandonadas, cadeiras vazias e roupas sem usar, até os botões de uma camisa foram perdidos. Corremos para a eternidade, sabendo que a vida é passageira, deixando as luzes acesas atrás de nós como se dissessem que era uma vez que estávamos vivos.

Aqui estão os bairros silenciosos: aqueles lugares livres da presença da humanidade. O barulho de seu silêncio pode ser ouvido em todos os lugares – mas aqui, nestes lugares, estamos condenados a não ouvir nada.

Portfólio

1º. Lugar: Laura Pannack, Reino Unido – Visão geral do portfólio

“Essas imagens são de uma variedade de projetos pessoais. Todo o meu trabalho é impulsionado pela pesquisa e pela construção de uma conexão com as pessoas que fotografo. Essas colaborações permitem que minhas imagens sejam divertidas e ultrapassem os limites do retrato. 

Acredito que as imagens precisam cativar e evocar emoção. A cada quadro que fotografo, considero os elementos dentro e fora do quadro. O simbolismo é uma referência importante para minhas escolhas de composição e conteúdo”.

Esportes

1º. Lugar: Anas Alkharboutli, Síria – Síria: esporte e diversão em vez de guerra e medo

“Na aldeia síria de Aljiina, perto da cidade de Aleppo, Wasim Satot abriu uma escola de caratê para crianças. O que o torna especial é que meninas e meninos com e sem deficiência sejam ensinados juntos. Eles têm entre seis e 15 anos. Com sua escola, Satot quer criar um senso de comunidade e superar quaisquer traumas de guerra nas mentes das crianças.”

Natureza morta

1º.lugar: Peter Eleveld, Holanda – Composição de natureza morta, filmada em placa molhada

“Para este projeto usei objetos comuns, como vidros, frutas e flores e apliquei a técnica do colódio em placa úmida para transformá-los em algo diferente. 

Este processo particular requer muita paciência e planejamento cuidadoso de composição, iluminação e tempo de exposição. O trabalho árduo compensa quando, finalmente, tudo se reúne em um momento único e mágico, enquanto você observa a fotografia se desenvolver lentamente diante de seus olhos.

Este momento não acontece o tempo todo, mas quando isso acontece, você ganha com uma imagem única”.

Vida selvagem e Natureza

1º. Lugar: Luis Tato, Espanha – Invasão de gafanhotos na África Oriental

“Os gafanhotos do deserto são as pragas migratórias mais destrutivas do mundo. Prosperando em condições úmidas em ambientes semi-áridos a áridos, bilhões de gafanhotos têm se alimentado em toda a África Oriental, devorando tudo em seu caminho e representando uma grande ameaça ao suprimento de alimentos e ao sustento de milhões de pessoas.

Algumas áreas da África Oriental, como o Quênia, não tinham visto esses surtos graves de gafanhotos do deserto em mais de 70 anos. As restrições da Covid-19 reduziram significativamente os esforços para combater a infestação, uma vez que cruzar as fronteiras se tornou mais difícil, criando atrasos e interrompendo as cadeias de abastecimento de pesticidas e produtos necessários para evitar que essas pragas destruam a vegetação da região e exponham milhões de pessoas ao altos níveis de insegurança alimentar.”

 

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