Um dos alvos dos que cobram ação mais efetiva das plataformas digitais para combater discurso de ódio e racismo online é o fim do anonimato nas redes sociais.  O pedido faz parte da pauta de reivindicações das entidades do futebol inglês que se uniram para um protesto de três dias às redes a partir desta sexta-feira (30/4). 

Mas pelo menos o Facebook não se mostrou inclinado a adotar voluntariamente a ideia.

Steve Hatch (Foto: Perfil LinkedIn)

Em um artigo de opinião publicado nesta sexta-feira (30/4) no jornal britânico Daily Telegraph, um dos que mais tem apoiado a campanha pelo fim do discurso de ódio online, o vice-presidente do Facebook da região Norte da Europa, Steve Hatch, utilizou pessoas que não possuem documentos como argumento para se posicionar contra o fim do anonimato nas redes sociais:

“Pedir que exijamos identificação para todos que criam uma conta traz riscos reais. As estimativas sugerem que há 3,5 milhões de pessoas no Reino Unido, principalmente de grupos desfavorecidos, que não têm acesso aos formulários oficiais de identificação com foto.”

Várias personalidades que aderiram à campanha pensam diferente. O astro do futebol francês Thierry Henry, que em março fechou todas as suas contas como forma de protesto, é um dos que vêm atacando duramente as empresas por permitirem que usuários criem perfis falsos e assim possam praticar abusos sem risco de serem identificados e punidos. Ele defende o fim do anonimato nas redes sociais, que considera inaceitável. 

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Recurso inédito no Instagram

No artigo, Hatch informou que será lançada a partir da próxima semana uma nova ferramenta que, quando ativada, filtrará automaticamente as solicitações de mensagens diretas do Instagram contendo palavras, frases e emojis ofensivos. 

“Este é o primeiro recurso desse tipo na mídia social. Nós o moldamos depois de consultar jogadores de futebol e especialistas em antidiscriminação. Se as pessoas o usam, não devem ver esse tipo de mensagem abusiva de estranhos. Ele coloca o controle de volta nas mãos dos alvos de abuso e encorajamos todos a ativá-lo quando estiver disponível.”

O recurso ampliará a capacidade que já existe atualmente de desligar as mensagens diretas de não seguidores do Instagram. O executivo disse que a empresa também possibilitará o bloqueio preventivo de novas contas criadas pelos abusadores:

“Vamos dificultar ainda mais que alguém que você bloqueou possa entrar em contato com você novamente, permitindo que você bloqueie preventivamente novas contas que eles venham a criar.”

Mensagens diretas são a principal arma dos abusadores

O executivo explicou que as mensagens diretas são o principal canal pelo qual as figuras públicas são alvo de abusos, pois é o mais difícil de ser detectado:

“Isso significa que dependemos de denúncias no aplicativo e não procuramos proativamente por incitação ao ódio ou intimidação em mensagens diretas da mesma forma que fazemos em comentários ou postagens. Nos últimos meses temos tomado medidas mais duras, removendo as contas daqueles que repetidamente enviam mensagens violadoras.”

Tolerância zero não significa incidência zero

Hatch ressaltou que o Facebook compartilha o objetivo de quem está pausando suas contas neste fim de semana, entendendo que as pessoas desejam impulsionar a mudança para que ninguém tenha que sofrer abusos racistas ou sexistas.

Ele enfatizou que o Facebook tem regras claras contra o discurso de ódio, mas que o problema é maior do que uma empresa e que algumas pessoas continuarão a tentar abusar de outras nas redes sociais, assim como fazem offline:

“Infelizmente, tolerância zero não significa incidência zero. Não podemos impedir as pessoas de serem preconceituosas ou de digitarem abusos em seus telefones, mas podemos tomar medidas para fortalecer nossas regras e melhorar nossa detecção e aplicação.”

Mais prioridade para os direitos autorais do que para o racismo online?

O executivo rebateu as críticas feitas por Thierry Henry de que o Facebook estaria dando mais prioridade ao combate às violações de direitos autorais do que à luta contra o discurso de ódio e racismo online.

Ele explicou que a empresa combate os dois na mesma medida, mas que os sistemas automatizados, por serem mais eficazes para detectar e remover as violações de direitos autorais, podem passar a impressão errada:

“O discurso do ódio quase sempre precisa de um revisor humano para entender o contexto. Por exemplo, se estiver sendo usado para atacar, nós o removeremos, mas se alguém o estiver condenando, nós permitiremos.

Não dá para comparar os dois casos e daí concluir qual levamos mais a sério.”

Mudança também deve acontecer offline

No artigo, Hatch enfatiza que o problema não é apenas online nas plataformas. Ele chama a atenção para o fato de que o trabalho para gerar mudanças reais de longo prazo também deve acontecer offline. E enumera algumas organizações com as quais o Facebook tem trabalhado no Reino Unido para desenvolver programas educacionais e para conscientizar as pessoas a denunciar a discriminação e o racismo onde quer que o vejam.

“Continuaremos nosso trabalho com a indústria do futebol, governo e outros parceiros para efetuar mudanças por meio da educação e da passagem da conscientização para a ação. 

Nada resolverá esse desafio da noite para o dia, mas estamos empenhados em fazer o que pudermos para manter nossa comunidade protegida de abusos.”

 

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