O poder das gigantes tecnológicas como Facebook e Google já é visto como uma das quatro maiores ameaças à democracia global, com praticamente o mesmo índice do medo de fraude nas eleições. A conclusão é do Índice de Percepção da Democracia (IPD), resultado de uma pesquisa que ouviu a opinião de mais de 50 mil pessoas de 53 países. Nos Estados Unidos, onde as plataformas digitais foram usadas para incitar a invasão do Capitólio em janeiro, a ameaça das Big Techs foi apontada pelos entrevistados como o principal risco para a democracia do país.

O estudo mostra que após um ano de pandemia, aumentou a parcela global dos que veem um impacto negativo das plataformas digitais sobre a democracia. O Brasil aparece entre os seis primeiros que mais desejam legislação mais rigorosa para as mídias sociais. Os percentuais de brasileiros e de colombianos a favor de maior regulamentação das plataformas foram os que mais cresceram no mundo desde 2019 dentre os países pesquisados.  

O IPD é o maior estudo anual global sobre a percepção sobre a democracia. A edição 2021 do trabalho foi apresentada na quarta Cúpula da Democracia, encerrada nesta nesta terça-feira (11/5) em Copenhagen.

A pesquisa oferece uma comparação sem precedentes das atitudes globais em relação à democracia desde o início da pandemia, numa amostra que representa 75% da população mundial. As entrevistas foram realizadas entre fevereiro e abril de 2021.

“Esta pesquisa mostra que a democracia está viva no coração e na mente das pessoas, que querem mais cooperação para lutar contra os autocratas”

Anders Rasmussen, ex-primeiro ministro dinamarquês e ex-chefe da OTAN que preside a Aliança de Democracias, realizadora da Cúpula que encomendou o estudo à Lotana, empresa de pesquisa e monitoramento.

Poder das Big Tech é ameaça à democracia para metade da população global

De acordo com o estudo, as duas principais ameaças à democracia global são a desigualdade econômica (64%) e os limites à liberdade de expressão (53%). Mas o poder das Big Techs já é visto como um perigo à democracia por metade da população global (48%), muito próximo ao índice dos que temem a fraude nas eleições (49%).

E mais ainda: tomando-se por base os saldos entre os que concordam e não concordam com cada um dos fatores apresentados pelos pesquisadores, o poder das gigantes tecnológicas já é a terceira maior ameaça, aproximando-se da vice-liderança.

Analisando-se os saldos, a ameaça da desigualdade econômica continua com larga vantagem (49%), mas o poder das Big Techs (25%) ultrapassa o medo representado pelas fraudes nas eleições (22%) e aparece próximo ao temor provocado pelas restrições à liberdade de imprensa (28%).

Em 22 países a ameaça das Big Tech à democracia é temida por pelo menos metade da população

Além de representar um perigo à democracia para quase a metade da população global, o poder das gigantes tecnológicas é percebido como ameaça à democracia local por metade da população de quatro em cada dez (41,5%) dos países analisados.

Os países que mais temem o impacto nocivo das Big Techs em suas democracias são os filipinos e os indianos. As gigantes atemorizam não apenas os eleitores de seu país-sede, os Estados Unidos, mas também os dos vizinhos Canadá e México, ambos com mais da metade de suas populações já preocupadas com os efeitos que elas podem causar às suas democracias.

Entre os dez mais preocupados com o tema, destacam-se a Austrália, que recentemente aprovou uma nova regulamentação para as mídias sociais determinando o pagamento por conteúdo jornalístico. E o Reino Unido, cuja nova legislação sobre o tema está em tramitação e promete servir de parâmetro global para disciplinar as gigantes.

A Colômbia é o único país sul-americano em que o impacto das Big Techs na democracia local preocupa pelo menos metade de sua população, segundo o estudo. Essa ameaça ainda atemoriza menos da metade dos brasileiros (42%), que aparecem entre os doze menos preocupados com o tema dentre as peassoas dos 53 países pesquisados.

Em compensação, o Brasil tem o segundo índice mais alto do mundo (81%) dos que veem a desigualdade econômica como perigo para sua democracia e o oitavo maior (62%) dos mais preocupados com os efeitos que violações à liberdade de expressão podem ter sobre seu regime democrático.

Aumenta percepção do impacto negativo das mídias sociais sobre a democracia

O trabalho mostrou um mundo mais crítico em relação ao impacto das mídias sociais na democracia. Embora o saldo global ainda continue mais positivo do que negativo (saldo de 38%), inclusive no Brasil (saldo de 60%), a percepção de sua contribuição à democracia caiu em nível global (9%) e mais drasticamente na Europa (17%) e nos Estados Unidos (20%). Essa queda foi geral, verificada em 42 dos 53 países, inclusive no Brasil.

Depois do fim do conturbado mandato de Trump, que fez com ele fosse banido das principais plataformas, os Estados Unidos se tornaram a nação com a visão mais negativa do impacto das mídias sociais na democracia. Lá, há um saldo negativo de 6%, com predominância dos que têm visão desfavorável sobre o impacto na democracia (47%) do que favorável (41%). 

Além dos Estados Unidos, essa percepção das mídias sociais como um fator prejudicial à democracia já aparece em outros cinco países: Holanda (-1%), Alemanha (-2%), Dinamarca (-4%), Áustria (-5%) e Hungria (-6%). No Brasil, embora o saldo ainda seja positivo, ele caiu 4 pontos no último ano.

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Índices a favor da regulamentação das mídias sociais de Brasil e Colômbia foram os que mais cresceram desde 2019

Apesar de verem o impacto das mídias sociais na democracia como mais positivo do que negativo, os brasileiros estão entre os seis povos que mais querem uma maior regulamentação das mídias sociais. Esse percentual era de apenas 11% em 2019 e cresceu para englobar a maioria da população (53%) em 2021, com saldo favorável de 41%.

O aumento dos brasileiros só não é o maior do mundo porque é superado pelo da Colômbia, que tinha 5% da população a favor de maior regulamentação em 2019 e aparece em 2021 liderando o ranking global com 63% da população favorável e saldo de 57%.

O saldo dos brasileiros é o dobro e o dos colombianos é quase o triplo da média global, que é de 20% favorável a um aperto na regulamentação. Mais de nove em cada dez dos países pesquisados (92,5%) é a favor de maior rigor com as plataformas. Os únicos quatro países onde há predominância dos que querem menos regulamentação são Argélia, Arábia Saudita, Marrocos e Egito. 

Possível distorção do WhatsApp?

Fred DeVeaux, um dos autores do estudo, esclarece que observando-se os números de cada país não se encontra uma relação entre a avaliação do impacto das mídias sociais na democracia e o desejo de mais regulamentação.

Dos dez países que querem mais regulamentação, todos têm predominância da parcela de sua população que vê impacto positivo das mídias sociais em sua democracia, embora em três esse saldo não seja tão significativo: Reino Unido (com o menor saldo, de 8%), França (9%) e Irlanda (13%).

Uma possível explicação é que em três desses países também é grande o temor do impacto das Big Techs na democracia, como é o caso de Reino Unido, Irlanda e a líder do ranking, Filipinas.

O Brasil tem um comportamento parecido com o da Itália. Apesar de serem francamente favoráveis a uma maior regulamentação, os dois veem um impacto mais positivo do que negativo das mídias sociais à sua democracia. Por outro lado, ambos são países com polarização política, muito presente no WhatsApp, aplicativo em que os dois países aparecem entre os dez principais usuários do mundo.

Entre os dez países que mais temem o poder das Big Techs à sua democracia, quatro estão entre os dez maiores usuários do WhatsApp: Índia, Estados Unidos, Reino Unido e Indonésia.

Dos treze países que mais querem regulamentação das mídias sociais, cinco também estão entre os dez maiores usuários do WhatsApp: Brasil, Itália, Reino Unido, México e Espanha.

Isso poderia explicar o motivo de alguns países como o Brasil verem ao mesmo tempo um impacto positivo das mídias sociais de modo geral, mas quererem maior regulamentação devido à  ameaça de algumas delas de modo mais particular? Por enquanto, o estudo não permite responder a essa pergunta, pois não discrimina o impacto de cada plataforma à democracia de cada país.

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