Aos 95 anos, a Rainha Elizabeth tornou-se o mais novo alvo da “cultura do cancelamento”. Nesta terça-feira (8/6), uma associação de alunos do Magdalen College, uma das mais importantes faculdades da Universidade de Oxford, decidiram em uma votação que o retrato da monarca deveria ser removido de um espaço de convivência “por representar a história recente do colonialismo”.

O desconforto com a herança colonialista inglesa cresceu depois do movimento por igualdade racial desencadeado pela morte de George Floyd, nos Estados Unidos. Estátuas e imagens de pessoas associadas ao comércio de escravos no período do Império Britânico têm sido atacadas ou criticadas.

O caso mais famoso foi o da estátua de Edward Colston, um comerciante de escravos, derrubada e depois jogada no rio na cidade de Bristol durante um protesto em julho de 2020. 

Mas até agora as ações vinham sendo direcionadas a figuras históricas e não a uma personalidade contemporânea que desfruta de alta popularidade no país e é a Chefe do Estado.  O retrato que adornava a sala é uma fotografia tirada em 1952 e colorizada. 

Matthew Katzman, presidente do Midde Common Room, que administra o espaço usado pelos estudantes da graduação, disse que a decisão foi tomada com o objetivo de “deixar a sala comum neutra”:

“A faculdade tem várias imagens de várias coisas, mas a sala comum deve ser um espaço onde todos se sintam bem-vindos independentemente de sua história pessoal, perfil social ou visão de mundo”.

Ele disse que o retrato será guardado de forma segura. E que os alunos escolherão uma obra de arte “de ou sobre alguma outra pessoa influente e inspiradora”. 

Em um tweet postado na terça-feira, o ministro da Educação britânico, Gavin Williamson, um dos muitos britânicos que criticaram a remoção da imagem de Elizabeth, classificou a remoção da imagem como “simplesmente absurdo”:

“Ela é a chefe de Estado e um símbolo do melhor que o Reino Unido tem. Durante o seu longo reinado, ela trabalhou incansavelmente para promover pelo mundo os valores britânicos da tolerância, inclusão e respeito”.

A faculdade ficou no meio do fogo cruzado, pois a decisão não foi tomada pela direção, e sim pela associação de alunos. A diretora do Magdalen College, Dinah Rose, usou o Twitter para descrever o que houve e salientar que a responsabilidade tinha sido dos estudantes. 

No entanto, frisou que a faculdade “apoia fortemente a liberdade de expressão e o debate político e o direito do MCR à autonomia”. “Ser estudante é muito mais do que estudar”, disse a responsável. “É explorar e debater ideias. Às vezes é provocar a geração mais velha. Algo que parece não ser difícil de fazer nos dias de hoje.”

 

Dinah Rose revelou ainda que membros da equipe da faculdade têm recebido “mensagens ameaçadoras e obscenas” e apelou a que os responsáveis por essas mensagens parassem para pensar sobre qual é a melhor maneira de mostrar o seu respeito pela rainha “ou se ela provavelmente apoiaria as tradições de debate livre e de tomada de posições democráticas que tentamos manter vivas no Magdalen”.

Passado colonial 

O Império Britânico foi uma potência que dominou a indústria, o comércio e as finanças globais. Chegou a controlar 25% das terras do mundo, dando origem à expressão “o império onde o sol nunca se põe”. Entre as antigas colônias estão grandes países como Estados Unidos, Austrália, África do Sul, Canadá e Índia.

Depois da independência de vários deles, foi fundada em 1931 a Comunidade Britânica das Nações (Commonwealth), uma associação entre o Reino Unido  e parte de suas antigas colônias, que reúne atualmente 54 países.

Das ex-colônias britânicas, somente os Estados Unidos da América nunca participou da Comunidade Britânica. O Zimbábue foi expulso  por não realizar reformas democráticas no país. Dos atuais integrantes, apenas duas nações não foram colônias britânicas: Moçambique (ex-colônia portuguesa) e Ruanda (antiga colônia da Bélgica).

A coroa britânica não tem ingerência sobre os governos locais, mas é uma figura simbólica importante para a manutenção do soft power britânico e para as relações internacionais. Anualmente é celebrado o Dia da Commonwealth, em março, com um discurso oficial valorizando os laços de amizade. 

No entanto, nos últimos anos o desconforto com o passado colonial só aumenta. Além do cancelamento de figuras históricas, há um movimento (que também acontece em outros países europeus) pressionando museus a devolverem peças antigas que foram compradas ou levadas ilegalmente para o Reino Unido durante o Império Britânico. 

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