Uma nova pesquisa do Instituto Reuters para Estudos de Jornalismo apontou que os brasileiros consideram até os desconhecidos fontes mais confiáveis de informações sobre a Covid-19 do que os políticos.  As entrevistas que deram origem à pesquisa foram realizadas em oito países em abril de 2021.

O índice de confiança nos políticos é menor do que a quarta parte do índice das fontes consideradas pelos brasileiros como as mais confiáveis para esse tipo de informação: os cientistas, médicos e especialistas.

Além deles, contam com a confiança da maioria da população brasileira como fontes confiáveis sobre a doença as organizações globais de saúde, as organizações nacionais de saúde e a imprensa. O índice de confiança dos brasileiros nas organizações globais de saúde é o maior dentre os oito países e o na imprensa é o segundo maior, atrás da Coreia do Sul. 

No Brasil, o governo é visto como fonte confiável sobre a Covid por menos da metade da população, ficando à frente apenas das pessoas conhecidas e desconhecidas, e dos políticos.

O estudo do Instituto Reuters mostra que o percentual de brasileiros que confiam nos políticos como fonte de informações sobre a Covid é o menor dentre as oito fontes analisadas. O único dos países pesquisados onde isso acontece é a Argentina. Nos demais países, o menor índice de confiança é sempre o das pessoas desconhecidas.

 O índice de confiança dos brasileiros nos políticos como fonte de informações sobre o coronavírus é o menor de todos os países analisados, empatado com Coreia do Sul e Estados Unidos.

Os alemães e os britânicos são os que mais confiam nos políticos como fontes de informações da Covid, mas a diferença entre as duas fontes é maior entre os britânicos, porque eles confiam menos do que os alemães nos desconhecidos para lhes dar esse tipo de informação.

Embora os Estados Unidos e a Coreia do Sul compartilhem com o Brasil o menor índice de confiança nos políticos como fontes de informações da Covid, como eles confiam menos do que os brasileiros nas informações recebidas de desconhecidos sobre a doença, a balança no caso deles ainda é favorável aos políticos.

O índice de confiança dos argentinos em seus políticos como informadores sobre a doença é apenas um ponto mais alto do que os dos brasileiros, o que coloca os dois países entre os de menores índices de confiança no que a classe política tem a informar sobre Covid.

Como os dois vizinhos sul-americanos têm os maiores percentuais de confiança em informações sobre a doença recebidas de desconhecidos dentre os oito países pesquisados, são os dois únicos do estudo a confiar mais em desconhecidos do que em políticos na hora de se informar sobre a pandemia.

Políticos também são vistos como fonte de desinformação 

Nos oito países pesquisados, os políticos só não foram considerados os maiores responsáveis pela desinformação relacionada à Covid em dois deles, nos quais ficaram em penúltimo. No Reino Unido, perdem para as pessoas desconhecidas, e no Japão ficam um ponto abaixo da imprensa.

Isso pode explicar a posição dos políticos em último lugar tanto no ranking de confiança como no de uso como fonte. É sintomático que em sete dos oito países pesquisados eles sejam apontados como mais responsáveis pela desinformação do que as pessoas desconhecidas.

Os países com as maiores parcelas da população culpando os políticos pela desinformação são a Coreia do Sul, Argentina e Brasil.

Mesmo nos países com índices menores, pelo menos um em cada cinco dos entrevistados aponta os políticos como a principal fonte de desinformação sobre a Covid.

Desconhecidos são mais usados que políticos como fontes de informação em metade dos países analisados

Apesar de apenas os entrevistados do Brasil e da Argentina terem assumido confiar mais nos desconhecidos do que nos políticos como fontes de informações da Covid, o número de países que preferem as pessoas desconhecidas à classe política dobra quando a pergunta é qual das duas opções que eles efetivamente usam, independentemente do grau de confiança que depositam em cada uma.

O Brasil se mantém firme no grupo dos que preferem se informar sobre a doença por desconhecidos do que dar ouvidos a políticos. Nessa preferência, ele ganha a companhia de Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão, mas perde a da Argentina.  A margem entre os percentuais de brasileiros que preferem dar atenção aos desconhecidos em vez dos políticos é a maior de todos os países a favor de qualquer das duas fontes analisadas.

Apesar da grande diferença de confiança em favor dos políticos em países como Reino Unido, Alemanha, Japão e Espanha, isso não se reflete no momento em que as populações desses países se informam sobre a doença, dando praticamente a mesma receptividade para as duas fontes.

Desse grupo que confia mais nos políticos, a surpresa é o Japão, cujos entrevistados dizem que na hora de se informar dão mais ouvidos às pessoas desconhecidas do que aos políticos.

No sentido inverso, os argentinos, que dizem confiar mais nos desconhecidos como fontes de informação da Covid do que nos políticos, acabam se informando mais por estes sobre a doença.

Estados Unidos e Coreia do Sul, que revelaram ter um saldo pequeno de confiança a favor dos políticos como fontes de informação da Covid, mudam de lado na hora de receber a informação.

Brasileiros que se informam sobre a Covid com desconhecidos são o dobro dos que se informam pelos políticos

Somente um em cada dezessete brasileiros se informa sobre a Covid ouvindo os políticos. O número é tão baixo que representa a metade dos que preferem se informar por pessoas desconhecidas e menos do que a sexta parte da parcela que prefere escutar os cientistas e especialistas.

A utilização das fontes pesquisadas segue o ranking das fontes que os brasileiros mais confiam. O índice de brasileiros que usam os cientistas como fonte de informação é o maior de todos os países pesquisados, cinco pontos percentuais acima do segundo colocado, os Estados Unidos, com 33%.

Da mesma forma, os índices dos brasileiros são os maiores entre os que se informam pelas organizações globais de saúde (os segundos colocados são os alemães, com 22%), por pessoas conhecidas (alemães de novo na segunda colocação com 22%) e por pessoas não conhecidas (seguidos pelos japoneses, com 10%).

O índice de brasileiros que se informam por organizações nacionais de saúde é o segundo dos oito países pesquisados (um ponto abaixo da Coreia do Sul, com 35%). O percentual dos que se informam pelo Governo é o terceiro (atrás de Coreia do Sul com 33% e Japão com 30%) e os que se informam pelos políticos é o terceiro menor da pesquisa (à frente apenas Coreia do Sul com 5% e Reino Unido com 4%).

Chama a atenção o índice dos brasileiros que se informam pela imprensa, que é o mais baixo dos oito países analisados. A explicação pode ser o fato de o país ser um dos quatro da pesquisa que tem como principal fonte de informação as plataformas digitais combinadas (incluindo mídias sociais como Facebook e Instagram, os sites de vídeo como Youtube, os aplicativos de mensagens como o Instagram e os mecanismos de busca como o Google).

Nos quatro países que as plataformas digitais lideram a informação sobre Covid, três têm os índices mais baixos de informação pela imprensa, incluindo o Brasil com 33%, Estados Unidos com 36% e Alemanha com 39%. A exceção é a Coreia do Sul, que apresenta o maior percentual dentre os oito países dos que se informam pela imprensa: 77%.

 

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