O governo indiano está intensificando as pressões sobre a mídia independente, que tem criticado a gestão da pandemia da Covid-19 no país. Nesta quinta-feira (22/7), autoridades fiscais fizeram buscas nas sedes de um grupo de jornais, de uma emissora de TV e em casas de alguns funcionários, sob a alegação de evasão fiscal.

Os agentes interrogaram funcionários e jornalistas e levaram celulares e laptops, afetando o noticiário digital por várias horas. Os veículos são a emissora de TV Bharat Samachar e o Dainik Bhaskar, maior conglomerado de mídia da Índia, com 65 títulos no idioma hindi e forte presença em rádio e jornalismo digital. A operação foi feita em 32 escritórios e residências em seis cidades.

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Segundo a mídia local, os grupos estariam sendo acusados de terem criado empresas de fachada usando funcionários e acionistas como diretores, a fim de desviar recursos para investimentos pessoais.

Em entrevista à rede, Om Gaur, editor do jornal diário que leva o nome do grupo Dainik Bhaskar, disse que não cederia a pressões e se “manteria fiel ao jornalismo”.

Grupo tem histórico de críticas ao governo Modi

Coincidência ou não, a operação aconteceu dias depois de o Dainik Bhaskar ter revelado que jornalistas indianos estavam entre os 180 profissionais de imprensa espionados com o software israelense Pegasus. O jornal integra o consórcio global que participou da cobertura do caso, denunciado pela organização Forbidden Stories com apoio da Anistia Internacional, mostrando que governos adquiriram o sistema para vigiar os passos de jornalistas, ativistas e oposicionistas.

Mas as críticas ao governo são anteriores ao Pegasus. Tanto o jornal quanto a emissora de TV do grupo têm noticiado as falhas durante o surto de coronavírus que atingiu severamente a Índia nos últimos meses, mostrando cenas de hospital sem oxigênio e corpos boiando nos rios.

O jornalista Alok Pandey, do canal NDTV, publicou no Twitter imagens da operação em um dos escritórios da Barhat Samachar.

Apesar das evidências, o governo procurou se distanciar da ação fiscal. Anurag Thakur, ministro da Informação e Radiodifusão da Índia, disse que “as agências fazem o seu próprio trabalho” e o governo não interferimos no seu funcionamento.

No entanto, o uso desse instrumento para coagir a mídia não é novo no país. Vários meios de comunicação foram investigados por irregularidades financeiras desde que o primeiro-ministro Narendra Modi assumiu o poder, em 2014.

A organização Repórteres Sem Fronteiras colocou a Índia em 142º lugar em seu ranking de liberdade de imprensa deste ano.

Ofensiva contra o Twitter

No começo deste mês, o governo indiano conseguiu responsabilizar o Twitter pelo conteúdo gerado por usuários, amparado por uma sentença favorável da Suprema Corte.

Em fevereiro, o governo Modi baixou uma legislação dura para o setor de comunicação, possibilitando responsabilizar redes sociais pelas postagens nas plataformas, e concedeu três meses de prazo para que as empresas se adequassem – a primeira acusada de não cumpri-la foi o Twitter.

Além do novo patamar jurídico estabelecido, a empresa ainda lida com uma ordem de prisão contra seu principal executivo na Índia. A determinação, amparada na mesma lei que fiscaliza o conteúdo publicado na rede social, foi sustada na primeira instância, mas pode ser cumprida, se cassada no tribunal máximo do país.

A acusação seria de incitação ao ódio, por um post envolvendo o espancamento de um muçulmano, publicado em um tweet, porém o governo não confirma a informação.

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