Ao dominar a pauta da imprensa global, a tomada do Afeganistão pelo grupo Taleban fez com que o valor do jornalismo de dados ficasse ainda mais evidente. As técnicas de apuração e apresentação que utilizam dados e recursos visuais ajudam a contar histórias complexas como essa, aumentando a compreensão do leitor, elemento fundamental para a fidelização da audiência e aumento de visitantes ou assinantes. 

Jornais internacionais com sucesso em retenção de leitores e de conquista de assinantes, como o New York Times e o Washington Post, são reconhecidos entre os que usam bem as técnicas de jornalismo de dados. 

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O DataJournalism, um projeto do European Journalism Center destinado a compartilhar recursos para jornalistas e gestores,  publicou um conjunto de recomendações sobre o uso de dados na cobertura de conflitos. E também uma lista de fontes para obtenção de informações consolidadas a respeito de guerras e violência. 

São recursos úteis não apenas para quem cobre grandes casos como o do Afeganistão, mas também para enriquecer matérias sobre conflitos e violência policial que fazem parte do cotidiano da imprensa no Brasil. 

O artigo, de autoria de Sherry Ricchiardi, aponta como exemplo uma reportagem do New York Times sobre masmorras de tortura na Síria, de autoria de Anne Barnard, ex-chefe do escritório do jornal em Beirute.

Ela revelou a violência sádica e os crimes de guerra cometidos pelo regime de Bashar al-Assad nesses corredores de horror. 

Para tornar a reportagem mais impactante e mostrar o real dano humano que esses locais de tortura causaram aos sírios, Barnard usou dados compilados por uma equipe de repórteres, mostrando dezenas de instalações de tortura, milhares de sírios desaparecidos e milhares de execuções de civis oposicionistas.

O DataJournalism destaca que o jornalismo de dados foi essencial para a produção da reportagem, que usou ferramentas de geolocalização e visualização de dados que facilitaram a compreensão.

Riscos do uso indevido de dados 

Ricchiardi observa que o uso indevido de estatísticas de conflito pode gerar consequências “perversas e contraproducentes”.

Erros podem ajudar a prolongar guerras, dar aos governos uma desculpa para não agirem ou induzirem a avaliações confusas de sucessos ou fracassos de políticas em zonas de conflito.

Kelly M. Greenhill, pesquisadora da Universidade de Harvard, recomenda perguntas que os jornalistas devem fazer durante a cobertura de conflitos: 

  1. Quais são as fontes dos números?
  2. Quais definições as fontes estão empregando e o que exatamente está sendo medido?
  3. Quais são os interesses de quem fornece os números?
  4. O que esses atores têm a ganhar ou perder se as estatísticas em questão forem – ou não – adotadas e aceitas?
  5. Quais metodologias foram empregadas na aquisição dos números?
  6. Existem números potencialmente concorrentes e, em caso afirmativo, o que se sabe sobre suas fontes, medições e metodologias?
(Firmbee.com/Unsplash)
Comparando conjuntos de dados

A autora reforça a importância de avaliar semelhanças e diferenças entre conjuntos de dados para definir se são úteis para as matérias sobre conflitos.

E recomenda três pontos de atenção: 

  1. Fornecimento: Priorizar fontes que têm o chamado “fornecimento extensivo”, com as informações mais completas e precisas sobre violência política e manifestações, bem como a apresentação mais precisa dos riscos que os civis enfrentam em suas casas e comunidades.
  2. Transparência: Os conjuntos de dados devem ser utilizáveis em análises regulares, e os usuários devem ser capazes de acessar todos os detalhes sobre como os dados de conflito são codificados e coletados.
  3. Cobertura e classificação: As informações devem ser classificadas de forma clara, coerente e correta. Isso é importante para os usuários, pois os conflitos não são homogêneos: os eventos de transtorno diferem em sua frequência, sequência e intensidade.

Mas o grande desafio para os jornalistas, segundo Sherry Ricchiardi, é identificar quais dados podem ser usados e as melhores fontes. Ela recomenda algumas delas:

Projeto mapeou 30 anos de dados sobre conflitos no Oriente Médio

O Programa de Dados de Conflitos de Uppsala (UCDP, na sigla em inglês), é um projeto de coleta de dados sobre conflitos e manutenção da paz, reunindo dados sobre violência organizada e pacificação. O programa oferece documentos para download gratuito. O conteúdo pode ser acessado aqui

Um estudo que examinou tendências nos conflitos do Oriente Médio entre 1989 e 2019 utilizou os dados do UCPD, comparando as informações com as tendências globais. Os pesquisadores analisaram a recorrência dos conflitos, acordos de cessar-fogo e de paz durante o mesmo período.

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Os resultados indicaram que, nos últimos 10 anos, a maioria dos conflitos mais mortais do mundo ocorreu no Oriente Médio, com a Síria sendo o país mais letal.

Plataforma de dados serve para monitoramento de protestos e agitação popular

O Conjunto de Dados de Local e Evento de Conflito Armado (ACLED) é uma plataforma que coleta informações em tempo real sobre locais, datas, nomes envolvidos, fatalidades e tipos de eventos de protesto e violência política relatados em todo o mundo. O slogan do projeto é “Trazendo clareza à crise ”. 

Os dados mostram tendências, mapas, padrões que servem para mostrar se a violência aumentou ou diminuiu em determinada região.

O jornal turco Daily Sabah, por exemplo, usou dados do ACLED para mostrar como o conflito no norte de Moçambique deslocou mais de meio milhão de pessoas.

Protestos em Cuba no mês de julho foram considerados os maiores em décadas no país. (Reprodução)

Já o Washington Post usou informações do programa de coleta de dados para estudar a relação entre a pandemia de Covid-19 e o aumento de conflitos violentos ao redor do globo. 

Arquivo de dados ajudou a revelar ameaça crescente contra crianças

O Peace Research Institute de Oslo (PRIO) explora como os conflitos surgem e podem ser resolvidos, investigando como diferentes tipos de violência afetam as pessoas e como as sociedades enfrentam as crises geradas por elas.

O projeto inclui datas de início e término de conflitos, para ajudar no estudo da duração da violência. As informações são listadas em ordem alfabética e incluem dezenas de tópicos. 

Os dados do PRIO foram usados ​​em combinação com outras fontes em um relatório recente da organização Save the Children sobre violência sexual contra crianças em zonas de conflito. Os dados indicaram que as crianças correm dez vezes mais riscos de serem submetidas à este tipo de violência do que há três décadas.

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Tollefsen do PRIO, diz também que os dados muitas vezes “desafiam as narrativas ou geram indagações nos jornalistas que não seriam evidentes sem tais informações”.

Outros recursos recomendados 

Dez conflitos do ACLED para se preocupar em 2021 : Inclui Mianmar, Bielorrússia , Iêmen, Etiópia, Índia e Paquistão. O ACLED aconselha o acesso aos dados diretamente por meio da “ferramenta de exportação” e a localização de informações sobre a metodologia em “Biblioteca de recursos”. Um vídeo conduz os usuários pelo processo de coleta de dados.

The UCDP’s Conflict Encyclopedia : Descreve-se como um “principal fornecedor de dados sobre violência organizada e o mais antigo projeto de coleta de dados em andamento para a guerra civil, com uma história de quase 40 anos”. Oferece um sistema baseado na web para visualização, tratamento e download de dados, incluindo conjuntos de dados prontos sobre violência organizada e pacificação gratuita.

Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo : fornece dados sobre operações de paz conduzidas desde 2000, despesas militares, transferências de armas e embargos.

Bibliotecas da George Mason University InfoGuides : Recursos para pesquisa em resolução de conflitos, operações de paz, conflito armado e segurança humana. Inclui link para conjuntos de dados de construção da paz, segurança humana e terrorismo.

Anistia Internacional : oferece dois cursos gratuitos sobre investigações de código aberto em árabe, persa, inglês e espanhol. Os cursos funcionam como guia para o uso de métodos de pesquisa de código aberto na prática, com foco na investigação e defesa dos direitos humanos. Há instruções sobre ferramentas e técnicas de ponta ministradas por especialistas e exercícios práticos.

Global Terrorism Database, University of Maryland : Apresenta-se como o “banco de dados não classificado mais abrangente de ataques terroristas do mundo.” Inclui mais de 200.000 ataques terroristas desde 1970.

WomanStats : uma “compilação abrangente de informações sobre a situação das mulheres no mundo”. Vasculha a literatura existente e conduz entrevistas para encontrar informações qualitativas e quantitativas sobre mais de 310 indicadores da situação das mulheres em 174 países.

Comissão para Justiça e Responsabilidade Internacional : Tem como objetivo “alcançar justiça para crimes que afetam populações vulneráveis ​​em todo o mundo, incluindo crimes de guerra, crimes contra a humanidade, genocídio, terrorismo, tráfico humano e contrabando de migrantes.” Trabalha para apoiar processos em 13 países e auxilia 37 organizações de cumprimento da lei e contra-terrorismo em todo o mundo.

Observatório Sírio de Direitos Humanos : Monitora os desenvolvimentos políticos, militares e humanitários na Síria, com uma rede de fontes dentro e fora do país. Os conteúdo aparece no site do SOHR, no Facebook e no Twitter, e é frequentemente citado pelos principais veículos de notícias e organizações de direitos humanos.

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