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Liberdade de imprensa é tema de concurso de jornalismo na América Latina, com prêmios de R$ 11,4 mil

Foto: Engin Akyurt/Pixabay

A liberdade de imprensa foi o tema escolhido pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) para a edição 2022 de seu prêmio de jornalismo anual, que reconhecerá trabalhos em rádio, TV, veículos impressos digitais de qualquer tamanho.

Podem concorrer ao prêmio Excelência Jornalística profissionais de mídia das América do Norte e Latina, Caribe e Espanha. O primeiro prêmio em cada uma das 12 categorias é de US$ 2 mil (R$ 11,4 mil). Os trabalhos devem ser inscritos até 30 de janeiro. 

Não é necessário ser associado da SIP para participar. A SIP também concederá o Grande Prêmio de Liberdade de Imprensa a uma pessoa ou organização com conquistas significativas em favor da causa.

Prêmio de jornalismo reconhece contribuição para a democracia 

Leonor Mulero, presidente da comissão da premiação da SIP, ressalta a essência do concurso Excelência Jornalística:

O objetivo é destacar o jornalismo de qualidade, em todas as suas manifestações, como contribuição fundamental para a vida democrática e a pluralidade de ideias

O prêmio de jornalismo da SIP vai selecionar os melhores trabalhos nas categorias caricatura, cobertura noticiosa na internet, cobertura noticiosa, cobertura noticiosa em celulares, crônica de direitos humanos e serviço à comunidade, crônica, fotografia, infografia, opinião, jornalismo de dados, jornalismo em profundidade, jornalismo ambiental, jornalismo universitário e jornalismo em saúde.

As inscrições podem ser feitas de maneira coletiva (equipes de reportagem) ou individual. O júri será formado por membros da Comissão de Premiação da SIP, que escolherá o vencedor de cada uma das categorias.

As inscrições podem ser feitas no site da SIP

A entrega dos prêmios acontecerá em outubro de 2022, durante a 78ª Assembleia Geral da SIP.

Em 2021 o concurso recebeu mais de 1 mil trabalhos e premiou profissionais da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, El Salvador, Estados Unidos, México, Nicarágua, Panamá, Peru e Venezuela. 

Saulo Araújo, do Metrópole, foi o vencedor na categoria cobertura de notícias na internet. Um equipe do Estado de S.Paulo – Augusto Fernandes Conconi, Vinicius Sueiro, Mariana Cunha, Bruno Ponceano e Júlia Marques – conquistou o SIP em jornalismo de dados com uma representação mostrando a situação de adoção de crianças no Brasil. 

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Jornalistas presos e perseguidos

Na Assembleia da SIP deste ano, realizada em Madrid, Jorge Canahuati, presidente da entidade, lamentou a prisão de dois membros de sua Comissão de Liberdade, e atribuiu o semestre como “desastroso” para liberdade de imprensa, responsabilizando as interferências do poder político sobre o aparato judiciário. 

“É a primeira vez que dois vice-presidentes de nossa Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação são presos.

Henry Constantín, de La Hora de Cuba, por reportar sobre o protesto social pela liberdade em 11 de julho. E Juan Lorenzo Holmann, do La Prensa de Nicaragua, preso sem o devido processo legal acusado injustamente de lavagem de dinheiro”.

A Nicarágua tornou-se em 2021 um dos países mais restritivos para a prática do jornalismo, com perseguições e prisões em série levando alguns proeminentes jornalistas do país, como Carlos Chamorro, a se exilarem

Um dos que documentou esse ambiente de ameaças foi o ilustrador nicaraguense Pedro Xavier Molina Blandón (conhecido como PxMolina), vencedor do Prêmio Gabo de Excelência 2021, com uma obra que trata de corrupção, autoritarismo crescente, retrocesso das liberdades civis e abusos dos direitos humanos.

(Reprodução/Twitter/PxMolina)

Ditaduras Somoza e Ortega: a história se repete

O orador principal da cerimônia de abertura da Assembleia da SIP em Madri foi o romancista nicaraguense Sergio Ramírez Mercado, vencedor do Prêmio Cervantes em 2017.

Seu último romance, “Tongolele Não Pode Dançar”, ambientado em meio à repressão de abril de 2018 na Nicarágua, foi censurado e parcialmente confiscado pelo regime de Daniel Ortega.

Mercado foi um opositor à ditadura de Anastasio Somoza, e chegou a ser vice-presidente do país após sua queda. 

Falando de Madrid, onde fixou residência temporária depois de se exilar devido à perseguição e assédio policial, lamentou que o ciclo da história se repita em seu país: 

“Uma ditadura provoca uma revolução para derrubar um ditador, e essa revolução cria um novo ditador que por sua vez inicia um novo ciclo de opressão. Somoza é o pai de Ortega.

E o ditador, ofendido com a liberdade de expressão, fecha e ocupa a mídia, prende jornalistas ou os força ao exílio.”

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Riscos para o jornalismo na região

As ameaças à liberdade de imprensa vem determinado  mudanças na dinâmica de trabalho de jornalistas na América Latina. 

O ambiente de risco acaba tendo impactos na saúde mental e física e na vida pessoal dos jornalistas, assim como em sua vida profissional.

O estudo “Risk, Victimization, and Coping Strategies of Journalists in Mexico and Brazil” (“Risco, vitimização e estratégias de enfrentamento de jornalistas no México e no Brasil”, em tradução livre) fez uma análise da situação a partir de opiniões captadas por pesquisadoras dos Estados Unidos e do Brasil.

O trabalho revela como jornalistas nos dois países lidam com o estresse resultante de experiências de risco na profissão, e como estas vivências estão conectadas a questões estruturais que afetam o trabalho do jornalismo.

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O tipo de ameaça varia conforme o país. Em julho, a organização Repórteres Sem Fronteiras publicou um levantamento das agressões verbais à imprensa feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e seus familiares. 

O estudo mostrou que durante os primeiros seis meses do ano, o número de ataques do chefe de Estado brasileiro contra a imprensa aumentou 74% em relação ao segundo semestre de 2020.

Entre janeiro e junho, Bolsonaro atacou a imprensa verbalmente 87 vezes — uma média de mais de três ofensivas semanais, segundo a RSF. 

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No México os riscos parte do crime organizado, que transformaram o país em um dos mais letais para jornalistas, ao lado do Afeganistão. Segundo a Repórteres Sem Fronteiras, 47 profissionais de imprensa foram assassinados em cada um dos dois países nos últimos cinco anos. 

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