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Marketing capilar: candidato a presidente da Coreia do Sul vira sensação prometendo tratamento grátis para calvície

Na outra Coreia, o problema são os cortes ocidentais, proibidos pelo governo

Londres – A história do marketing político está cheio de promessas de campanha mirabolantes, algumas destinadas a chamar a atenção dos eleitores mesmo que de difícil cumprimento. Mas o candidato à presidência da Coreia do Sul pelo partido do governo tem chances de ganhar o prêmio mundial da promessa eleitoral. 

Lee Jae-myung propôs que o seguro-saúde público do país passe a cobrir o tratamento contra queda de cabelo, em uma tentativa de agradar aos calvos e a quem se solidariza com eles. O argumento é de que muitos sofrem calados sem conseguir pagar o preço alto das terapias.

O candidato do Partido Democrata, apoiado pelo presidente Moon Jae-in, recebeu críticas de adversários pelo que foi considerado populismo, mas não pode ser acusado de defender interesses pessoais nem de favorecimento ao político que deixará o cargo. Tanto ele quanto o atual presidente exibem vastas cabeleiras bem penteadas. 

Marketing eleitoral capilar 

Para fundamentar seu marketing eleitoral ousado, o candidato do Partido Democrata afirmou que quase 10 milhões de pessoas no país perderam os cabelos. Muitas delas recorrem a remédios no exterior ou medicamentos para a próstata como alternativa devido aos altos custos do tratamento, disse ele.

No melhor estilo de políticos do passado, que prometiam dentaduras aos eleitores, o coreano prometeu, se eleito for, incluir tratamentos de crescimento do cabelo no programa nacional de seguro saúde.

Lee Jae-myung disse que o apoio aos calvos é necessário do ponto de vista de “integridade corporal”. E garantiu que a promessa de campanha é séria, com os assessores estudando o potencial impacto financeiro.

A boa notícia, pelo menos para os calvos coreanos, é que ele tem boas chances de levar a presidência – e cumprir a promessa. 

A mais recente pesquisa eleitoral no país indica que os que concorrem com Lee Joe-myung têm motivos para arrancar os cabelos de preocupação. Ele continua à frente do candidato do Partido do Poder do Povo, Yoon Suk-yeol, e tudo indica que ganhará o cargo. 

O atual presidente da Coréia do Sul, Moon Joe-in, não vai ser beneficiado pela promessa de seu sucessor

Os calvos entusiasmados com a ideia de recuperarem suas cabeleiras de graça não precisam esperar muito. As eleições na Coreia do Sul estão marcadas para março. 

Promessa de campanha virou bandeira do marketing

O candidato foi ao Facebook para interagir com os eleitores a respeito da ideia, sugerindo que a ideia faz parte de uma estratégia de marketing eleitoral bem estruturada – e criativa. 

“Por favor, conte-nos o que tem sido inconveniente para você em relação aos tratamentos para queda de cabelo e o que deve ser refletido nas políticas. Apresentarei uma política perfeita para o tratamento da queda de cabelo ”, escreveu ele no Facebook.   

O retorno online  foi positivo, com várias mensagens de apoio à promessa de campanha.

“Vamos implantar Lee Jae-myung para nós”, escreveu um usuário, respondendo a uma postagem com os slogans de Lee sobre queda de cabelo enviados para uma comunidade online de quem sofre com o problema. 

Enxergando o potencial da promessa de campanha, a equipe de marketing eleitoral tirou partido da visibilidade e chegou a organizar uma reunião na noite de quarta-feira com eleitores calvos, devidamente promovida nas redes sociais do candidato e reproduzida em veículos de imprensa. 

Segundo relato de agências internacionais,  uma das presentes, Jeong Da-eun, mãe de dois filhos, disse na reunião que desistiu do tratamento médico, pois exigia um gasto de 4 milhões de won (R$ 19 mil) ao longo de seis meses.

Os opositores, calvos ou cabeludos, não gostaram da promessa de campanha que chamou ainda mais atenção para o candidato do governo. 

Ahn Cheol-soo, candidato da oposição que foi médico e magnata do software, descreveu a proposta de Lee como irresponsável.

Ele apelou para uma política mais séria, prometendo cortar os preços dos medicamentos genéricos e financiar o desenvolvimento de um novo tratamento. 

“[A ideia de Lee] pode parecer um passo necessário para muitas pessoas que se preocupam com a perda de cabelo, mas não passa de populismo, visto que pioraria a estabilidade financeira do programa de seguro estatal”, disse o jornal conservador Munhwa Ilbo em um editorial.

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O político que tenta a presidência do país já foi governador da província de Gyeonggi, e é versado em polêmicas.

Ele se compara ao candidato americano de esquerda Bernie Sanders, e defende a ideia de uma renda básica universal. Suas políticas de gestão da pandemia causaram polêmica, mas garantiram visibilidade que o credenciou a disputar a presidência. 

Cabelos na política coreana 

Na outra Coreia, a do Norte, o problema é outro: o estilo dos que têm bastante cabelos para cortar.

O pai do atual líder coreano, Kim Jong Il, liderou na época em que comandava o país uma campanha contra o cabelo longo.  A campanha convocava todos a cortarem seus cabelos de acordo com o modo de vida socialista e afirmava que os cabelos longos seriam prejudiciais ao cérebro. 

Em 2013, o regime limitou o número de cortes masculinos a dez, e o número de penteados femininos a 18. No ano seguinte, Kim Jong Un, ordenou que os homens do país adotem o seu corte de cabelo. 

Em maio do ano passado, o regime voltou a legislar sobre cabelos, baixando um decreto proibindo 15 cortes de cabelo “não-socialistas”. Os habitantes do país só podem agora adotar looks “adequados”, conforme a mídia estatal local. 

No mesmo pacote foram proibidos certos piercings e jeans skinny, em uma tentativa de manter o país livre das tendências da moda ocidental “decadente”.

O Rodong Sinmun, jornal oficial do governo norte-coreano, publicou um artigo expressando preocupação com os jovens cada vez mais adotando as tendências da moda ocidental. “Devemos ser cautelosos até mesmo com o menor sinal do estilo de vida capitalista e lutar para nos livrar deles”, disse o artigo.

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Luciana Gurgel
Jornalista baseada em Londres, é co-fundadora e Editora-chefe do MediaTalks. É também colunista de mídia e comunicação no J&Cia/Portal dos Jornalistas. Faz parte da FPA London (Foreign Press Association).

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