Londres – Saiu caro, mas o príncipe Andrew conseguiu evitar o desastre de imagem de um processo judicial por abuso sexual nos Estados Unidos, com exposição de detalhes sobre sua vida íntima e depoimento de seus familiares. 

Nesta terça-feira (15), um comunicado conjunto assinado por advogados do duque de York e da americana Virginia Giuffre confirmou um acordo financeiro, com valores não revelados, para ela desistir da causa contra ele. 

Os jornais britânicos especulam que a indenização seria de £ 10 milhões (R$ 70 milhões)  a £ 12 milhões (R$ 83 milhões), e muitos questionam sobre quem vai pagar a conta, com críticas à possibilidade de ele ser ajudado por fundos da coroa britânica, como afirmou o jornal Daily Telegraph. 

Príncipe Andrew arrependido 

Na nota, Andrew lamentou sua amizade com o falecido pedófilo Jeffrey Epstein e elogiou a “bravura” da jovem com quem ele teria mantido relações sexuais quando ela era menor de idade sob a lei americana – e também das outras que vieram a público depor contra Epstein e sua companheira, Ghislaine Maxwell, condenada a 70 anos de prisão em dezembro. 

“O príncipe Andrew nunca teve a intenção de difamar o caráter da Sra. Giuffre, e ele concorda que ela sofreu tanto como vítima de abuso quanto como alvo de ataques públicos injustos”, afirma a nota.

Curiosamente, alguns desses ataques partiram do próprio Andrew, durante entrevistas em que desqualificou as alegações da americana afirmando que nunca tinha estado com ela.

Os advogados também passaram meses sugerindo que Giuffre mentia e que poderia ter forjado a foto em que os dois aparecem juntos. 

Outra contradição é que em entrevistas anteriores ele disse não se arrepender de sua amizade com Epstein, que cometeu suicídio na prisão antes de ser julgado em 2019. 

Ele não admite culpa no comunicado, mas vários memes nas redes sociais fazem piada com o príncipe Andrew ter aceitado pagar tão caro por algo que garante não ter feito. 

Neste, o usuário diz que há uma fila diante do Palácio de Buckingham depois da notícia de que o príncipe Andrew está distribuindo dinheiro para pessoas com que nunca se encontrou. 

Andrew preferiu não se defender 

Ao aceitar pagar uma soma tão alta em vez de encarar o processo, o duque de York transmite a impressão de que a derrota seria inevitável.

Pode também ter sido uma forma de proteger a família real, talvez por imposição. Um dos rumores é de que no acordo Virginia Giuffre teria aceitado não falar sobre o caso até o fim das comemorações do Jubileu da rainha Elizabeth.

No entanto, ao não levar o julgamento até o fim como parecia ser sua intenção, ele perdeu a chance de limpar sua biografia, comprovando inocência. 

De qualquer forma, o acordo é um presente para a rainha Elizabeth II e para a instituição monarquia, abalada com o escândalo. 

Andrew deveria depor em juízo no dia 10 de março, turvando as comemorações do Jubileu. Há uma semana, a monarca de 95 completou 70 anos no trono, dando início a uma série de comemorações que se estenderão até junho. 

A exposição negativa de seu filho disputando atenção da mídia e dos súditos era um fantasma que agora parece afastado. E se Giuffre realmente sair de cena, melhor ainda para a realeza.

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Príncipe Andrew ‘cancelado’

Em janeiro a rainha já tinha feito um movimento para isolar Andrew, removendo todos os seus títulos honoríficos e cargos militares, bem como afastando-o totalmente de atividades oficiais. 

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No entanto, isso não serviria para atenuar as notícias negativas em torno dele e da própria família real caso a ação judicial seguisse adiante. 

No processo contra a socialite Ghislaine Maxwell, que teria sido namorada de Andrew e foi condenada por aliciar menores para Epstein e supostamente seus amigos, apareceram fotos do milionário com ela em propriedades da realeza, uma proximidade incômoda. 

A declaração que revelou o acordo bate em cachorro morto, culpando o milionário Epstein, que cometeu suicídio na cadeia antes de ser julgado, por todos os males causados às jovens. 

E pode ter sido precipitada por uma aparente fragilidade na defesa de Giuffre.

Os advogados de Andrew pediram o original da fotografia em que os dois aparecem juntos, e a defesa não foi capaz de fornecer, o que daria combustível para alimentar a tese de que poderia ter sido forjada. 

Entenda o caso do príncipe Andrew e Virginia Giuffre

Andrew é um conhecido bon vivant, que sempre frequentou boates e as festas do jet set internacional – antes, durante e depois do casamento com Sarah Ferguson. Muitos afirmam que é o preferido dos quatro filhos de Elizabeth II. 

Nesse mundo de celebridades, ele se tornou amigo da socialite Ghislaine Maxwell, filha de um magnata da mídia britânica que cometeu suicídio a bordo de seu próprio iate.

Ela virou o elo de ligação entre famosos internacionais e o milionário americano Jeffrey Epstein, dono de propriedades em vários países e de um jatinho para levar seus amigos confortavelmente para festas e temporadas de férias, sugestivamente chamado de “Lolita Express”, em alusão ao transporte frequente de meninas jovens. 

Andrew era um dos amigos, tendo passado a frequentar as residências de Epstein em lugares como Caribe e Nova York. Donald Trump também era um dos convidados regulares, como mostram fotos em revistas de celebridades. 

A hospitalidade foi retribuída com pompa e circustância. Epstein e Ghislaine (que em determinado momento apresentavam-se como tendo um relacionamento) foram convidados para eventos reais e para um fim de semana no castelo de Balmoral, uma das residências preferidas da rainha.

Nas redes sociais e na mídia, a associação com a rainha quando as fotos apareceram, reveladas pela promotoria de Nova York durante o processo que condenou Maxwell, é direta.

Depois das denúncias de jovens contando terem sido atraídas por Maxwell e recebido favores como viagens ou ajuda de custo para se aproximarem de Epstein e de seus amigos, o americano foi preso e cometeu suicídio antes de ser julgado. 

Com esse histórico, as fotos que emergiram do casal sendo recebido na intimidade da família real são constrangedoras e explicam a tentativa dos assessores de isolarem Elizabeth II de um enredo de crimes sexuais. 

Príncipe piorou a crise com entrevista desastrada 

Até porque Andrew não demonstrou a menor habilidade de gerenciar a crise de imagem envolvendo a família real sem torná-la ainda pior. 

Em novembro de 2019, ele usou as próprias instalações do Palácio de Buckingham para dar uma entrevista à BBC que entrou para a história dos maiores desastres de relações públicas em tempos recentes. 

Era uma resposta a outra entrevista, dada pela acusadora ao mesmo programa, o Panorama. 

Andrew teve dificuldades de explicar suas relações com Epstein e Ghislaine Maxwell. E enredou-se ainda mais em uma teia de mentiras que depois viriam a ser expostas. 

O estrago era previsto. O assessor de imprensa do príncipe havia condenado a ideia da entrevista. Consta que os assessores do Palácio não sabiam de nada.

Talvez acostumado ao tratamento simpático da mídia britânica, o príncipe pode não ter mensurado a extensão da ameaça à imagem da família real que a conversa poderia representar. 

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Amiga do príncipe Andrew condenada a 70 anos 

Mais grave, no entanto, é o peso de uma decisão judicial. No dia 29 de dezembro, Ghislaine Maxwell foi condenada a 70 anos de prisão sob diversas acusações, entre elas a de ter aliciado meninas para o magnata. 

Andrew não era parte no processo de Maxwell, e sim no outro, movido diretamente contra ele pela americana Virginia Giuffre, que agora foi encerrado.

A mulher de 38 anos diz ter mantido relações sexuais com o príncipe em propriedades de Epstein e na casa da própria Maxwell em Londres, em 2001, quando tinha 17 anos.

Uma foto dos dois é a prova mais eloquente de que se conheciam e estiveram juntos na residência daquela que viria a ser condenada por tráfico de menores – ela aparece sorridente ao fundo. 

Estranhamente, Andrew disse na entrevista de 2019 à BBC que não lembrava de a foto ter sido tirada, o que não quer dizer muito diante da imagem impressa. O fato de a defesa não ter conseguido apresentar a foto pode ter contribuído para o acordo.

Sem provas para defender o príncipe

No início de dezembro Andrew sofreu um golpe. Seus advogados tentavam “melar” o processo alegando que Giuffre não mora mais nos Estados Unidos (e sim na Austrália), e que por isso a causa não teria efeito, por um erro de jurisdição.

Mas não deu certo. O juiz federal responsável pelo caso negou o pedido e o processo continuou. 

Os advogados ainda tentaram derrubar a causa sustentando que a acusadora havia firmado um acordo com Jeffrey Epstein e recebido uma indenização para não tonar os fatos públicos, mas novamente tiveram o pedido negado. 

Em seguida, a defesa informou à Corte que não atenderia a uma solicitação do juiz para apresentar provas de algumas de alegações que comprovariam que Andrew não estava com a jovem na noite em que ela diz ter feito sexo com ele. 

Uma delas virou piada nas redes sociais.

Na entrevista para a BBC para rebater as acusações, em 2019, o duque de York disse que não era verdade que ele suava, como disse Giuffre ao contar que haviam dançado juntos em uma boate, porque tinha uma condição médica adquirida na Guerra das Malvinas que o impedia de transpirar. 

Fotos do príncipe suado pipocaram na imprensa de celebridades e nas redes sociais, tornando-se motivo de chacota. 

 

O outro álibi era de que na noite em que a mulher diz ter feito sexo com o duque de York na residência de Ghislaine Maxwell ele teria levado a filha a uma festinha na Pizza Express.

Só que a defesa não conseguiu nenhum funcionário, pai ou mãe de amiguinhas ou ainda registros da segurança comprovando que ele estava lá. 

Monarquia arrastada para o escândalo de Andrew

A briga jurídica em torno do caso, que poderia se estender durante todo este ano até uma decisão final, prevista para o segundo semestre, deixaria o príncipe Andrew na mira da imprensa e do público por mais tempo, o que agora foi evitado com o acordo. 

Os eventos do Jubileu de Platina vêm sendo anunciados há meses, em uma espetacular ação de comunicação destinada a fortalecer a imagem da monarquia diante dos súditos e ajudar em sua continuidade. 

Em 2019, quando o escândalo estourou, Andrew se desligou de várias atividades de representação da monarquia, incluindo uma organização destinada a fomentar negócios para o Reino Unido usando o charme da realeza. 

Mas manteve algumas, incluindo os cargos militares. Em janeiro acabou perdendo todos eles, e foi o único filho a não se manifestar publicamente no dia do Jubileu de Platina da rainha, em 6 de fevereiro. 

Os rumores são de que o afastamento foi decidido por uma “trinca” que toma as decisões mais importantes da monarquia britânica: a rainha Elizabeth, seu filho Charles e seu neto Willian, respectivamente primeiro e segundo na linha de sucessão. 

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