Londres – Não bastou ao jornalista Dmitry Muratov ganhar o Nobel da Paz para se proteger da censura do governo de Vladimir Putin sobre a imprensa independente, que resultou na aprovação de uma rigorosa lei de censura na Rússia com penas de até 15 anos de cadeia para quem divulgar “fake news” a respeito do conflito com a Ucrânia. 

Nesta segunda-feira (28) o Novaya Gazeta publicou um comunicado no site informando que estava suspendendo a edição impressa e também o noticiário online e nas redes sociais depois de receber outra notificação do Roskomnadzor, órgão regulador de telecomunicações russo. 

O informe diz que as operações serão retomadas após o final da “operação especial no território da Ucrânia”. Pelas regras da nova legislação russa contra fake news, a guerra não pode ser chamada de guerra. 

Censura do governo da Rússia contra entrevista com Zelensky 

Dois avisos do Roskomnadzor por ano podem valer uma suspensão da licença de mídia. Uma outra notificação tinha sido recebida no dia 22 de março. 

O Novaya Gazeta não informou o teor da notificação ou qual reportagem teria motivado a abordagem do órgão oficial. Limitou-se a avisar sobre a suspensão.

Mas no mesmo dia em que a decisão foi anunciada o jornal tinha publicado uma reportagem sobre a entrevista concedida pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky a jornalistas russos de veículos de oposição ao governo, alguns fechados depois da guerra com a Ucrânia. 

A matéria citava o secretário de imprensa do Presidente Putin, Dmitry Peskov, dizendo que o Kremlin não tem medo da entrevista, mas que o Roskomnadzor (RKN) deveria verificar o material “para o cumprimento de nossa legislação”.

“O Roskomnadzor avaliará o conteúdo desta entrevista para assegurar o cumprimento de nossa legislação”, disse Peskov, segundo a agência de notícias russa Tass. 

A reportagem do Novaya Gazeta registrou a posição de um porta-voz do Kremlin, dizendo que a Rússia “não tem medo” das declarações de Zelensky, mas “há leis em vigor e é muito importante não publicar nenhuma informação que constitua uma violação dessas leis”. O próprio Peskov disse ao jornal que ainda não havia lido o conteúdo da entrevista.

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Zelensky foi entrevistado em 27 de março pelo editor-chefe do Dozhd, Tikhon Dzyadko, pelo editor-chefe do site Meduza, Ivan Kolpakov, pelo jornalista Mikhail Zygar e pelo correspondente especial do Kommersant, Vladimir Solovyov, com a participação e apoio do editor-chefe da Novaya Gazeta, Dmitry Muratov.

Mesmo antes da divulgação do material, o Roskomnadzor  proibiu a mídia russa de publicar a entrevista com Zelensky e ameaçou jornalistas, segundo o Novaya Gazeta, em um ato de censura prévia. 

Lei de censura levou mídia internacional a deixar Rússia 

Desde a promulgação da lei de censura que estabelece penas de até 15 anos para quem divulgar informações consideradas pelo governo da Rússia como fake news, a maioria dos veículos de imprensa globais deixou de realizar reportagens no país, para não expor seus funcionários a risco de prisão. 

Alguns jornalistas que trabalham na mídia estatal tomaram coragem e deixaram o emprego, como Zhanna Agalakova, que abriu mão do posto de correspondente em Paris e fez um relato sobre como o governo da Rússia manipula a opinião pública por meio dos canais oficiais. 

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