Slogan que virou movimento, a campanha “Stop the Steal” iniciada por Donald Trump alega que a eleição americana de 2020 foi “roubada” e levou a atos extremos como a  invasão do Capitólio em 2021, dando trabalho ao jornalismo para desmontar as fake news em torno do pleito. 

O comportamento instigado por Trump não é isolado, e se repete em vários países. A extensão do problema e seu impacto no jornalismo foi examinada pelo PEN America em uma pesquisa com mais de 1 mil jornalistas nos EUA.

Eleitores e pessoas idosas foram apontados como os alvos principais dos que disseminam fake news, a maioria deles teóricos da conspiração e pessoas que fazem parte do governo. 

Fake news colocam eleitores contra o jornalismo

O PEN é uma organização internacional presente em vários países, inclusive no Brasil, criada defender a liberdade de imprensa e de expressão e reunindo escritores e jornalistas. 

Praticamente todos participantes da pesquisa consideram a desinformação um problema sério para o jornalismo: 81% dizem que é um problema muito sério e 16% dizem que é um sério.

Outra conclusão é que os jornalistas estão muito mais preocupados com os danos à sociedade causados pela desinformação (62%) do que com as fake news minarem a confiança do público na mídia (35%) ou distraírem a atenção das pessoas para mportantes (3%). 

A maioria também caracteriza a detecção e o esclarecimento de fake news como uma prioridade em seu meio de comunicação, com 40% dizendo que isso é tratado como “urgente” e 47% afirmando que é considerado “importante, mas não urgente.”

Fake news e confiança no jornalismo 

E é fato que a explosão da disseminação de fake news prejudicou a confiança na imprensa — algo que não passa despercebido por atores políticos que se aproveitam desse vácuo para distribuir narrativas próprias mentirosas.

Profissionais de imprensa identificaram as fontes de notícias falsas que mais encontram em seu trabalho como, em primeiro lugar, teóricos da conspiração de direita (76%), seguido por funcionários do governo, candidatos ou organizações políticas (70%).

Eles responderem que também encontram desinformação de várias outras fontes com relativa frequência, incluindo celebridades/influenciadores (40%) e organizações dedicadas a criar desinformação via bots e imagens adulteradas (54%).

Questionados sobre quem os fornecedores de desinformação provavelmente queriam atingir, os jornalistas classificaram os eleitores como o alvo mais frequente das fake news encontradas online.

Para o PEN America, políticos e seus seguidores usam acusações de “notícias falsas” em uma tentativa explícita de minar as reportagens de que não gostam, manipulando assim o eleitorado:

“A desinformação e as falsas acusações sobre a veracidade dos fatos podem deixar os indivíduos confusos e as comunidades divididas, sem saber em quais fontes confiar.

Isso potencialmente pode levá-los a colocar veículos de notícias com códigos de ética e padrões ao lado de fornecedores de fake news.”

Um dos entrevistados para a pesquisa apontou a desinformação sobre as eleições de 2020 nos EUA como “uma preocupação importante e contínua”.

“Não apenas porque a alegação de que a eleição foi roubada é falsa, mas porque as pessoas que acreditam nisso não confiarão em nenhuma outra reportagem que fizermos sobre política e figuras públicas porque não acreditam em nós nesse ponto fundamental.”

Depois dos eleitores, idosos (50%) e grupos minoritários (50%) foram identificados pelos jornalistas como os principais “destinatários” da desinformação dissimulada.

Alvos de desinformação

Os resultados da pesquisa também mostram que lidar com a desinformação é um desafio desgastante para repórteres e editores, pois impõe novos encargos profissionais, exige mais habilidades, processos e tempo, além de ter um custo pessoal.

Apenas 21% dos jornalistas disseram que quase nunca ou nunca enfrentam o que classificariam como desinformação em seu trabalho.

Por outro lado, 76% disseram que precisam lidar com desinformação regularmente – escrevendo sobre isso, desmentindo ou explicando – com 61% dizendo que essa necessidade surge alguns dias e 15% dizendo que ocorreu todos ou na maioria dos dias de trabalho.

Sobre as redes sociais onde os jornalistas veem a maior proliferação de fake news, o Facebook lidera com 88%; seguido pelo Twitter (63%) e YouTube (24%). A íntegra da pesquisa pode ser vista aqui.

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Ao combater fake news, jornalistas sofrem hostilidades

Trabalhar em um ambiente tão inundado de desinformação tem grandes implicações para os jornalistas que participaram da pesquisa. Mais de 90% disseram que as fake news impactaram em suas experiências profissionais nos últimos anos.

Por causa delas, 65% já enfrentaram hostilidade do público de alguma forma e 53% disseram que é necessário estar vigilante sobre a limitação de seus dados pessoais na internet, como forma de se proteger de ataques deliberados.

Muitos também refletiram sobre o relacionamento com os leitores: 42% disseram sentir que parte de seu público havia perdido a confiança neles.

Já 30% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que “é mais difícil fazer meu trabalho porque as fontes são menos propensas a responder às minhas solicitações”. E 27% disseram que levam muito mais tempo para terminar uma reportagem.

A PEN America ainda sinaliza que jornalistas especialistas em combater a desinformação viram crescer a demanda de trabalho quando já estavam sobrecarregados “pelos recursos reduzidos de uma indústria de notícias economicamente ameaçada e operando em meio à onda de hostilidade alimentada por políticos e extremistas de direita.”

Quase metade (48%) disse se sentir frustrada ou sobrecarregada e 27% disseram que consideraram seriamente deixar a profissão.

experiência pessoal

 

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Melhorando o combate à desinformação

As preocupações e os evidentes impactos que as fake news causam aos jornalistas não estão sendo respondidos à altura pelas empresas de jornalismo e redações, constatou a PEN America.

Para a organização, os resultados da pesquisa indicaram uma falta de respostas compatíveis com a urgência, prevalência e impacto da desinformação sobre os profissionais e a profissão.

“Isso foi atribuído a vários fatores inter-relacionados, incluindo a complexidade do problema e as variadas estratégias possíveis para combatê-lo, recursos organizacionais limitados e tamanho da redação, falta de experiência em ferramentas e técnicas e várias prioridades concorrentes.”

Diante disso, 40% dos repórteres e editores disseram que o veículo para qual trabalhavam não tinha definido como abordar as implicações da desinformação no dia a dia, e os jornalistas foram deixados sozinhos para lidar com isso.

Outros 21% disseram que havia processos em vigor, mas “ainda precisam de muito trabalho”. Apenas 30% achavam que sua empresa tinha uma abordagem geralmente eficaz — com os editores mais propensos do que os repórteres a pensar que o veículo responde efetivamente à desinformação.

A pesquisa ainda descobriu que, das oito etapas apontadas como práticas disponíveis para as organizações de notícias combaterem a desinformação e seu impacto, 32% disseram que seu veículo não adotou nenhuma delas.

Para reverter esse cenário, o PEN America apontou iniciativas que empresas podem adotar para diminuir o impacto das fake news na profissão, incluindo a formulação de estratégias e recursos para apoiar jornalistas ao se depararem com desinformação, o desenvolvimento de um guia que oriente diversas faces do problema (assédio e ataques online, por exemplo), entre outras.

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