Dois jornalistas russos assumiram a autoria de um protesto antiguerra publicado no site do jornal pró-Kremlin Lenta.ru, na segunda-feira (9), o Dia da Vitória.

A data simboliza a vitória da Europa sobre a Alemanha nazista em 1945. Todos os anos, a Rússia realiza um grande desfile militar na Praça Vermelha para celebrar a ocasião. Neste ano, o presidente Vladimir Putin citou a invasão à Ucrânia durante o discurso para militares.

O Meduza, veículo independente russo baseado na Letônia, confirmou que as dezenas de reportagens críticas à guerra publicadas no Lenta.ru foram feitas pelos jornalistas Egor Polyakov e Alexandra Miroshnikova. “Ditador patético e paranoico”, dizia um dos artigos deles, banido do site assim como todos os demais.


Protesto contra a guerra na Rússia foi arquivado na web

Desde o início da guerra com a Ucrânia, o regime de Putin intensificou a censura, decretando uma lei que pune com até 15 anos de cadeia quem veicular fake news, que no entendimento do governo são todas as que discordam da invasão. 

Na manhã de 9 de maio, data simbólica usada pelo governo russo para desfilar tanques de guerra pelas ruas de Moscou, a página inicial do Lenta.ru estava repleta de reportagens com títulos polêmicos condenando a guerra na Ucrânia, desafiando a lei. 

Segundo o Meduza, ao menos 20 artigos críticos a Putin foram publicados por Polyakov e Miroshnikova. O protesto foi identificado pela primeira vez pelo repórter Ilya Shepelin, que postou capturas de telas das reportagens em seu canal no Telegram.

Todos os artigos foram removidos do site, mas ainda estão disponíveis no Internet Archive, site que arquiva conteúdos da web.


De acordo com esses arquivos, cerca de 20 matérias publicadas pelo conselho editorial do Lenta.ru nos dias 8 e 9 de maio foram substituídas por artigos com títulos diferentes. Alguns deles são:

  • “Vladimir Putin se transformou em um ditador patético e paranoico” (manchete visível na versão arquivada da página inicial do site)
  • “A Rússia está abandonando os cadáveres de seus soldados na Ucrânia”
  • “O Ministério da Defesa mentiu para os parentes das pessoas que morreram no cruzador Moskva”
  • “O associado mais próximo de Putin quer levar a Rússia de volta 100 anos”
  • “Zelensky acabou sendo mais legal que Putin”
  • “Putin desencadeou uma das guerras mais sangrentas do século 21”
  • “A elite russa acabou sendo pateticamente fraca”
  • “As autoridades russas proibiram os jornalistas de dizer qualquer coisa negativa”
  • “A Rússia destruiu completamente Mariupol”
  • “A Rússia está ameaçando destruir o mundo inteiro”
  • “’É mais fácil esconder o fracasso econômico com uma guerra.’ Putin precisa ir. Ele desencadeou uma guerra sem sentido e está levando a Rússia ao esquecimento”

O Meduza informou que todas essas reportagens foram acompanhadas de uma mensagem:

“Aviso: Este material não foi aprovado pelo governo, e a administração presidencial vai substitui-lo por um novo. Em outras palavras: FAÇA UMA CAPTURA DE TELA AGORA antes que eles a excluam.”

Ao veículo russo, Egor Polyakov confirmou que a publicação das reportagens que condenavam a guerra na Ucrânia foi feita de forma deliberada, e não fruto de hackeamento, como chegou a cogitar-se.

“Esta foi uma decisão que Alexandra e eu tomamos há relativamente muito tempo, mas não fomos capazes de executar o plano imediatamente”, disse o jornalista, acrescentando que ele e Alexandra Miroshnikova estão atualmente fora da Rússia.

Polyakov também disse ao Meduza disse que seu acesso ao sistema de publicação do Lenta.ru já havia sido revogado.

Em entrevista ao The Guardian, Polyakov afirmou que era necessário fazer o protesto antiguerra no Dia da Vitória.

“Queríamos lembrar a todos pelo que nossos avós realmente lutaram neste lindo Dia da Vitória – pela paz.”

Na segunda-feira, Putin fez o discurso anual pra soldados no Kremlin. O presidente russo fez um paralelo entre os atuais combates na invasão à Ucrânia com a vitória soviética soviética na Segunda Guerra Mundial.

“Não é disso que se trata o Dia da Vitória”, disse Polyakov ao The Guardian.

“Pessoas comuns estão morrendo, mulheres e crianças pacíficas estão morrendo na Ucrânia. Dada a retórica que vimos, isso não vai parar. Não podíamos mais aceitar isso. Essa era a única coisa certa que podíamos fazer.”

Leia também

Livro que teria inspirado Putin previu Parada da Vitória com políticos dos EUA algemados

Protesto contra a guerra denuncia propaganda e censura estatal

O protesto contra a guerra na Rússia feito no site Lenta.ru denunciou a propaganda e censura russa às matérias sobre a guerra na Ucrânia.

Em exemplo citado pelo Meduza, na matéria intitulada “As autoridades russas proibiram os jornalistas de dizer qualquer coisa negativa”, os autores afirmam que a administração presidencial russa “fez jornalistas que trabalham para a mídia controlada pelo governo pararem de usar palavras e frases que poderiam causar ‘agitação social’ ou ‘criar uma ambiente negativo”.

Por causa disso, diversas palavras e termos foram censurados e substituídos pelos meios de comunicação estatais: por exemplo, a palavra “bang” é usada em vez de “explosão”; e “crescimento negativo” é usado em vez de “declínio do PIB”.

Desde o início da guerra, diz o artigo citado pelo Meduza, o termo “demitido” foi substituído pela frase “liberado do trabalho” na mídia russa. “Guerra” foi substituída por “operação militar especial”, conforme já comunicado pelo Kremlin desde o início da invasão, em fevereiro.

No texto, não são usadas meias palavras para descrever a interferência do governo russo no trabalho da mídia controlada por ele:

“A mídia russa é incapaz de chamar a guerra, que tirou a vida de dezenas de milhares de russos e ucranianos, de guerra.

Cidades destruídas, civis e seus filhos mortos, prédios residenciais bombardeados, o genocídio do povo ucraniano – de acordo com a mídia russa pressionada pelo Kremlin, tudo isso equivale a uma ‘operação militar especial’ e uma ‘libertação’.”

Em outra matéria, intitulado “É mais fácil esconder o fracasso econômico com uma guerra”, os autores assumem o protesto e se identificam como funcionários do Lenta.ru: Egor Polyakov, chefe das seções de Economia e Meio Ambiente, e Alexandra Miroshnikova, editora dessas seções:

“Estamos procurando trabalho, advogados e, muito provavelmente, asilo político! Não tenha medo! Não fique calado! Lute de volta! Você não está sozinho – há muitos de nós! O futuro é nosso! Foda-se a guerra. Paz para a Ucrânia!”.

Ainda não há informações sobre retaliação do governo russo contra ambos jornalistas. Todos os artigos alterados por eles foram tirados do ar.

Leia também

Fake news: Kremlin cria ‘vídeo da BBC’ para culpar Ucrânia por ataque à estação de trem; assista

TV também exibe mensagens antiguerra

Além do protesto no site Lenta.ru, outra manifestação antiguerra conseguiu burlar a censura do Kremlin e ser exibida para os russos no domingo (8), antes das comemorações do Dia da Vitória.

A grade de programação dos maiores provedores de televisão a cabo e satélite da Rússia exibiram uma mensagem contrária à invasão da Ucrânia.

“Em suas mãos está o sangue de milhares de ucranianos e suas centenas de crianças assassinadas. A TV e as autoridades estão mentindo. Não à guerra”, dizia o texto que aparecia na descrição de canais e programação.

Um vídeo feito pela BBC capturou o protesto, que ainda tem sua origem incerta. Veículos ocidentais, como a própria BBC e o Guardian, levantaram a hipótese da mensagem ser fruto de hackers pró-Ucrânia que invadiram o sistema de televisão a cabo do país.

O Rostelecom, um dos provedores de TV a cabo nos quais as mensagens apareceram, disse à agência de notícias russa TASS que estava investigando o problema e tentará evitar que isso aconteça novamente.

Leia também

Prisões, processos, lei do ‘agente estrangeiro’: as armas do regime de Putin para silenciar a mídia