Londres – Oleksandr Makhov, um conhecido jornalista que ficou famoso por reportagens sobre os militares para a televisão da Ucrânia, anunciou uma drástica mudança de carreira no Facebook em 24 de fevereiro, o primeiro dia da invasão russa ao país: “Vou para a guerra”, escreveu na legenda de uma foto vestido como soldado.

“É hora de uma guerra de libertação! Vou lutar e matar o máximo que puder. Eu sirvo o povo ucraniano”, continuava a publicação do então jornalista.

No dia 4 de maio, a DOM TV, canal para o qual Makhov trabalhava até pouco antes do conflito, comunicou sua morte durante um bombardeio em Izyum, na região de Kharkiv, na Ucrânia.

Jornalistas viram soldados voluntários em guerra na Ucrânia

Makhov foi o oitavo jornalista morto no conflito, embora sua morte não seja contabilizada pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), pois não foi relacionada à sua profissão.

Assim como ele, ao menos outros 10 profissionais da mídia também morreram em batalha ao trocar microfones e bloco de notas pelas armas no exército da Ucrânia.

Não há estimativa oficial de quantos jornalistas da Ucrânia ingressaram nas forças armadas desde fevereiro, quando começou a guerra com a Rússia.

No entanto, o Sindicato Nacional de Jornalistas da Ucrânia lista os trabalhadores da mídia mortos durante o conflito, identificando 10 deles como tendo se alistado no exército e “morrendo com armas nas mãos”.

Ao contrário do CPJ, o sindicato conta aqueles que morreram como soldados porque “admiramos todos os colegas que contribuem para a defesa do país”, disse o presidente da associação, Serhiy Tomilenko, em entrevista ao comitê. “Cada um de nossos colegas falecidos é um herói para nós.”

A decisão de trocar a reportagem pela luta no conflito contradiz a norma jornalística de imparcialidade, mesmo em tempos de guerra, avalia o CPJ.

Escolha que, para o ex-repórter da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL) Stanyslav Aseyev, não foi difícil de fazer.

“É simples: a escala da invasão [russa] foi tal que a existência de Kiev e do país como um todo estava em risco”, disse ele ao CPJ. “Se a Ucrânia tivesse desaparecido, o jornalismo não teria sentido.”

Aseyev juntou-se às Forças de Defesa Territoriais, uma unidade voluntária do exército da Ucrânia, apenas dois dias após o início da guerra. “Não tínhamos certeza de que poderíamos manter Kiev, mesmo com as forças que tínhamos. Por isso, defender o país tornou-se prioridade”, disse o jornalista.

Assim como Oleksandr Makhov, outros ucranianos que passaram de jornalista a soldado fizeram anúncios públicos sobre a mudança de carreira.

Artur Korniienko, jornalista do veículo Kyiv Independent, escreveu no Twitter em maio sobre a decisão: “Talvez você me conheça como um repórter de cultura para @Kyivindependent. Desde a invasão da Rússia, ingressei nas Forças Armadas da Ucrânia e não posso escrever muito.”

Valentyn Chernyavsky, um jornalista em Cherkasy, no centro da Ucrânia, disse a um site local consultado pelo CPJ que havia trocado sua câmera e microfone por uma metralhadora porque pensou “que agora definitivamente não era o momento para o conteúdo de entretenimento que eu estava filmando”.

Na internet, muitos dos ex-jornalistas continuam cobrindo a guerra com publicações nas redes sociais. Era o que fazia Makhov quando compartilhava imagens da linha de frente do conflito no Instagram.

Aseyev, o ex-repórter da RFE/RL, disse ao CPJ que continua a escrever para a mídia suíça e austríaca, mas acredita que não há conflito com seu serviço militar voluntário “porque estou fazendo jornalismo de opinião”.

Em um editorial para o site suíço NZZ am Sonntag recentemente, ele escreveu que carrega agora uma arma porque “escrever sozinho não é mais suficiente para garantir o futuro da Ucrânia”.

Separatistas apoiados pela Rússia capturaram Aseyev em 2017 no leste da Ucrânia, onde ele fazia reportagens para RFE/RL e sites de notícias ucranianos.

Ele ficou preso por dois anos e meio e depois libertado em uma troca de prisioneiros no final de 2019, quando começou a trabalhar em um livro, “The Torture Camp on Paradise Street”, sobre os constantes espancamentos e abusos que ele e outros ucranianos sofreram nas mãos dos separatistas. 

Desde o início da guerra, as forças russas detiveram de forma arbitrária diversos jornalistas na Ucrânia, com relatos de sequestros em casa, perseguição de parentes e torturas.

Questionado pelo CPJ se não teme ser  capturado novamente, Aseyev admite: “Neste caso, “uma morte lenta e muito dolorosa me espera”.

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Jornalistas também lutaram na 2ª Guerra

Correspondentes e defensores da liberdade de imprensa que monitoram reportagens de conflitos disseram, em entrevista ao CPJ, que não conseguiam se lembrar de outra guerra recente em que jornalistas saíram para se juntar às forças armadas em número significativo, nem onde tantos morreram como combatentes.

Vale lembrar que o conflito no Leste Europeu atraiu soldados voluntários de todo o mundo, inclusive do Brasil e da Rússia, incluindo pelo menos um ex-jornalista russo, segundo o comitê.

Sergei Loiko, de 69 anos, que trabalhou por anos na sucursal de Moscou do Los Angeles Times, disse em março que tinha ido para a Ucrânia “não como jornalista, mas como um lutador nesta luta do Armagedom entre o bem e o mal”.

A descrição de Loiko pode ser usada por outros jornalistas ucranianos que escolheram lutar em vez de escrever na guerra.

“Se você está lutando pela sobrevivência de seu país, como os ucranianos, posso entender por que algumas pessoas sentem que têm o dever patriótico de desistir do jornalismo e ir para a batalha”, disse Ray Moseley ao CPJ.

Ele é o autor do livro “Reportagem de Guerra: Como Correspondentes Estrangeiros Arriscaram Captura, Tortura e Morte para Cobrir a Segunda Guerra Mundial.”

O CPJ destaca que, embora alguns jornalistas da época da Segunda Guerra Mundial tenham deixado a profissão para lutar, trabalhar como assessores de imprensa militares ou para ingressar no Escritório de Serviços Estratégicos (precursor da CIA), centenas foram para a guerra como correspondentes de seus meios de comunicação americanos.

Os credenciados nas Forças Aliadas usavam uniformes militares com um grande “C” de correspondente na manga. Naquela época, assim como agora, o direito internacional humanitário exigia que os jornalistas fossem tratados pelas partes em conflito como civis, desde que não carregassem armas e lutassem.

Mas na Segunda Guerra, alguns ignoraram as regras – e ao fazê-lo “comprometiam suas posições como jornalistas”, disse Moseley em entrevista ao CPJ.

Ernest Hemingway “foi o mais flagrante violador do direito internacional” a esse respeito, segundo Moseley. Outros repórteres apresentaram queixas a oficiais militares de que Hemingway estava armado e às vezes agindo como combatente, mas seu credenciamento militar para cobrir a guerra como jornalista nunca foi revogado, disse o especialista ao comitê.

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