Washington – Nos últimos anos, observamos com crescente preocupação jornalistas em todo o mundo terem sido cada vez mais vítimas de ataques online.

Como professores de jornalismo especializados em reportagens científicas e violência contra a imprensa na Universidade George Washington, pesquisamos, observamos e escrevemos sobre a tendência crescente de assédio à imprensa por e-mail, mensagens instantâneas, mídias sociais e outros canais digitais.

Infelizmente, ataques e ameaças online tornaram-se o novo normal em muitas redações, levando os jornalistas a uma forma de censura.


Ataques online altera rotina de jornalistas

No final do ano passado, começamos a realizar uma série de entrevistas em profundidade – dez no total – para saber especificamente como os ataques online estão afetando os jornalistas que cobrem ciência.

Conversamos com jornalistas e editores científicos, perguntando sobre os tipos de ataques digitais que receberam, bem como o conteúdo desses ataques. Como essas entrevistas foram feitas como parte de uma pesquisa, mantivemos os nomes confidenciais.

No conjunto, a história que eles contaram foi desanimadora: como jornalistas que cobrem política e outras questões polarizadoras, os jornalistas científicos dizem que estão sendo alvo de provocações digitais e discurso de ódio, e relatam que suas redações estão fazendo pouco ou nada para protegê-los.

Conversamos com repórteres que disseram ter recebido repetidamente telefonemas de assédio de leitores. Em alguns casos, mensagens assustadoras e acusatórias chegavam às centenas no Twitter, Instagram e por e-mail.


As mulheres pareciam enfrentar mais o peso desses ataques.

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O que é especialmente desencorajador é que os jornalistas científicos podem ser submetidos a mensagens que mostram pouca ou nenhuma consideração pelos fatos.

Jornalistas com quem conversamos disseram que foram alvos de pessoas que negam a existência da covid-19 ou das mudanças climáticas, defendem visões anticientíficas ou acreditam em conspirações.

Uma pessoa com quem conversamos descreveu ter recebido mensagens em tom acusatório, “do tipo, eu estou apenas forçando a narrativa liberal. E que sou parte da conspiração sobre as mudanças climáticas.”

Essa enxurrada de assédio digital têm consequências tóxicas. Os profissionais com quem conversamos dizem que isso os deixou inseguros.

Para alguns jornalistas científicos, isso contribuiu para uma sensação de esgotamento que pode levá-los a considerar deixar a profissão completamente – ou mudar para outras áreas. E para quem fica, pode alterar a forma de suas coberturas.

“Para ser honesta, o assédio funciona até certo ponto”, disse uma repórter, acrescentando que se tornou menos inclinada a cobrir temas que ela sente que provavelmente atrairão a ira dos trolls online.

“Na medida em que me silencia no Twitter e limita o número de matérias que quero escrever sobre esses tópicos, a tática deles funciona.”

Empresas estão despreparadas para lidar com ataques a jornalistas

Os jornalistas estão particularmente expostos nas mídias sociais, onde podem não ter o apoio formal da empresa onde trabalham e serem submetidos a assédio contínuo de seguidores.

A mídia social tornou-se uma maneira fundamental de os jornalistas cultivarem sua reputação profissional. Mas essa reputação pode sofrer um golpe se alguém lançar acusações infundadas, tentar transformar o consenso científico em falsas controvérsias ou menosprezar um jornalista por causa de seu gênero, etnia, religião, raça ou outro aspecto da identidade social.

O que está sendo feito sobre esse assédio online perturbador de jornalistas científicos? Não o bastante.

Os repórteres que entrevistamos dizem que a maioria das empresas jornalísticas está lamentavelmente despreparada. Os meios de comunicação podem responder ao assédio com reações instintivas, como desabilitar comentários em matérias ou remover e-mails de repórteres de seu site, mas, no geral, seu apoio permanece limitado, dizem os jornalistas com quem conversamos.

“Acho que muitos meios de comunicação no momento não sabem como lidar com esse tipo de assédio”, disse uma pessoa que entrevistamos.

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Algumas redações oferecem treinamento geral de segurança digital, mas podem abordar tópicos – como evitar golpes e como proteger a identidade pessoal – que não são diretamente voltados para o enfrentamento de abusos e ataques online a jornalistas.

Como resultado, os repórteres podem lutar sozinhos com as consequências do assédio online. Embora existam alguns recursos para ajudar os jornalistas com questões legais e de segurança, eles não são suficientes.

Isso é especialmente verdadeiro para os freelancers, repórteres que trabalham remotamente e jornalistas que colaboram para organizações com recursos limitados.

Freelancers e jornalistas que trabalham remotamente, em particular, carecem de espaços físicos e institucionais, como redações, onde possam discutir e encontrar maneiras de lidar com casos de assédio online. O jornalismo informal, por assim dizer, aprofundou a sensação de desconexão e solidão de muitos repórteres.

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Mesmo quando esses jornalistas têm a sorte de obter aconselhamento e apoio limitados, pode ser que as empresas façam escolhas terrivelmente difíceis sobre como responder aos ataques: diminuir a presença do jornalista nas redes sociais?

Evitar matérias científicas que serão sugadas pelo vórtice das batalhas ideológicas? Abster-se de citar instituições científicas e especialistas no centro das atuais guerras culturais?

Seria equivocado tratar essas questões como escolhas individuais feitas por repórteres científicos. Este é um problema coletivo que requer soluções coletivas, especialmente dado o atual clima de polarização em torno da ciência.

Como os debates acalorados sobre máscaras, vacinas e lockdowns durante a pandemia de covid-19 demonstraram, a ciência não ocupa um espaço intocado acima da política. Ao contrário: muitas vezes é arrastada para os campos de batalha das guerras culturais.

Cabe às organizações de notícias assumir o problema do assédio online no jornalismo científico. Para começar, elas precisam reconhecer o alcance do problema e suas consequências, ouvir as preocupações dos repórteres e documentar os ataques.

Também será importante que as empresas colaborem com plataformas de mídia social para discutir maneiras de proteger jornalistas. desenvolver e financiar redes de apoio que possam ajudar os profissionais que estão lidando com assédio.

Esse problema afeta a todos nós. O direito do público de saber sofre quando os repórteres evitam cobrir temas científicos por medo. E os jornalistas científicos carregam um fardo pesado quando são submetidos a uma enxurrada de insultos e ódio simplesmente por fazerem seu trabalho.


Lisa Palmer é Professora de Pesquisa Geográfica Nacional de Comunicação Científica na Escola de Mídia e Relações Públicas da Universidade George Washington.


Silvio Waisbord é diretor e professor da Escola de Mídia e Relações Públicas da Universidade George Washington. É autor ou editor de 18 livros, além de artigos sobre jornalismo, política, estudos de comunicação, política de mídia e mudança social global.


Este artigo foi originalmente publicado em Undark e está sendo reproduzido sob autorização. A versão em inglês está aqui.

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