Desde que o site de notícias Politico teve acesso, no início de maio, a um documento sinalizando que a Suprema Corte dos EUA deve derrubar o direito ao aborto no país, a sociedade americana vive na expectativa da decisão oficial dos juízes.

Apesar de a descoberta do parecer não ter efeito imediato no acesso ao aborto, nos últimos anos 13 estados aprovaram as chamadas “leis-gatilho” — proibições contra o direito à interrupção da gravidez que entram em vigor caso seja derrubada a decisão Roe v. Wade, que legalizou o aborto sob algumas circunstâncias no país na década de 70.

Nesse cenário, um novo estudo do Center for Countering Digital Hate (CCDH) descobriu que resultados de pesquisas no Google estão direcionando as americanas que procuram serviços de aborto para “clínicas falsas” associados a organizações pró-vida, locais conhecidos como “centros de gravidez de crise” (CPCs) ou “centros de recursos de gravidez”.

1 em cada 10 mulheres que buscam por aborto nos EUA veem resultados pró-vida

Os pesquisadores do CCDH usaram a extensão do Google Chrome “Location Guard” para realizar buscas com os termos “clínica de aborto perto de mim” e “pílula do aborto” em cada um dos 13 estados com “leis-gatilho”.

Em seguida, eles analisaram a primeira página de resultados de cada termo buscado — abrangendo resultados patrocinados, orgânicos e que apareceram nas primeiras páginas das abas Mapas, Notícias e Vídeos. 

A constatação foi desoladora para as mulheres que buscam informações seguras sobre aborto nos EUA: 51 do total de 445 resultados registrados (11,46%) — ou um em cada 10 — direcionaram as usuárias para falsas clínicas antiaborto, os CPCs.

Esses locais, segundo o CCDH, são frequentemente afiliados a organizações nacionais antiaborto e têm um histórico de disseminar informações erradas sobre os riscos da interrupção da gravidez para a saúde.

Normalmente, os CPCs são organizações sem fins lucrativos estabelecidas para aconselhar grávidas a não fazerem um aborto e já foram criticados por especialistas pró-escolha por práticas enganosas e propagação de falsos conselhos médicos.

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Na prática, quando uma mulher que deseja realizar um aborto entra em contato com esses centros, ela é dissuadida de fazê-lo por ser apresentada a dados exagerados sobre o que significa se submeter ao procedimento.

Os CPCs agora superam as clínicas de aborto reais na proporção de 3 para 1, com aproximadamente 2.600 operando nos EUA, de acordo com um estudo da Alliance, uma coalizão de defensores estaduais dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero.

As descobertas dos pesquisadores foram particularmente preocupantes no Google Maps, com 37% (26 de 70) dos resultados apresentando centros pró-vida como se fossem clínicas de aborto reais.

Google dá visibilidade para conteúdos patrocinado antiaborto nos EUA

O estudo do CCDH também descobriu que quase 28% dos anúncios do Google exibidos no topo das páginas de resultados de pesquisa eram de clínicas falsas antiaborto.

Um desses anúncios era do Cline Centers, que parecia oferecer consultas gratuitas sobre o aborto, mas uma inspeção mais aprofundada feita pelos pesquisadores no site revelou que a clínica não realiza nem fornece encaminhamentos para procedimentos de interrupção da gravidez.

Isso foi corroborado por uma avaliação do próprio Google alegando que a “clínica falsa” não “fornece assistência médica” e “exagera” os riscos do aborto.

Site pró-vida que dissemina informações falsas sobre aborto nos EUA

Segundo os pesquisadores, o buscador rotula os anúncios antiaborto com um aviso de isenção de responsabilidade que diz “[Esse local/serviço] não fornece abortos”.

Mesmo assim, alguns conteúdos patrocinados apareceram como o primeiro resultado de pesquisas sobre serviços de aborto.

A pesquisa constatou que alguns usuários que procuram abortos ignoraram essas isenções de responsabilidade do Google e entraram em contato com clínicas falsas na expectativa de que pudessem obter serviços de aborto.

Imran Ahmed, executivo-chefe do CCDH, afirmou que o Google deve garantir o acesso a informações responsáveis e de qualidade sobre saúde pública:

“Quando as pessoas pesquisam informações ou serviços relacionados à sua saúde sexual e reprodutiva, o Google os envia para sites que os usuários podem esperar que contenham informações de saúde confiáveis, científicas e baseadas em evidências – mas na verdade contêm opiniões e desinformações ideológicas.

“Se o Google se recusar a garantir o direito dos usuários a uma boa informação, caberá aos legisladores intervir para garantir que as pessoas não sejam prejudicadas pela negligência e ganância do Google.”

Para Erin Matson, cofundadora e diretora-executiva da ONG Reproaction, clínicas falsas antiaborto são “a ala de terapia de conversão” do movimento antiaborto nos EUA.

“A publicidade online enganosa direcionada a quem busca sobre o aborto não é uma preocupação nova, embora se torne mais urgente à medida que as proteções constitucionais para o procedimento desaparecem.”

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