Londres – Embora tenha ido dormir ontem prometendo resistir no cargo, a extensão da crise de imagem e da humilhação sofrida pelo primeiro-ministro britânico Boris Johnson nas últimas 24 horas não deixou outra alternativa a um dos políticos mais populares da história britânica senão a renúncia hoje (7).

Os rumores sobre a renúncia começaram cedo, com as emissoras de TV transmitindo telejornais ao vivo da frente da sede do chefe de governo britânico, sinal de que algo iria acontecer. Por volta de 9h, um assessor confirmou que o líder faria um pronunciamento à nação.   

Às 12h30 (horário local) Jonhson saiu da residência e falou no pódio, com o tom que o caracteriza, anunciando a saída do governo, agradecendo a enorme maioria recebida na eleições de 2019, razão pela qual ele decidiu ficar mesmo em crise, e valorizando suas conquistas. Mas não pediu desculpas, renunciando também a um mandamento de gestão de crises, que é mostrar sensibilidade. 

Renúncia de Boris Jonhson após meses de crise

Ele disse que tentou convencer o partido de que era importante continuar, mas não foi bem-sucedido e por isso saiu. Ao fundo, era possível ouvir as vaias dos manifestantes que se aglomeravam na rua. 

O discurso não foi emocionado como o de sua antecessora, Theresa May. Mas assim como ela, ele se disse agradecido por ter tido “o melhor emprego do mundo”. E adotou tom otimista sobre o futuro do país, enfatizando os riscos da guerra da Ucrânia e a necessidade de avançar no desenvolvimento. 

O fato de não ter pedido desculpas virou um dos comentários recorrentes após o pronunciamento. Como Johnson pediu desculpas várias vezes em tempos recentes sobre várias acusações que inicialmente ele negou mas depois foram comprovadas, a ausência de “contrição” no discurso de renúncia foi criticada por analistas e também nas redes sociais. 

Não foi ainda definido se ele continua no cargo até o novo premiê ser eleito dentro dos quadros do Partido Conservador, como quer Johnson, ou se um substituto temporário assumirá o governo, como defendem grandes nomes da agremiação. 

Mas ele tenta resistir a isso. Antes da renúncia, nomeou diversos novos ministros para cargos vagos, sinalizando a formação de um novo gabinete que o capacitaria a se manter liderando o país até a eleição de um novo líder, que pode acontecer apenas em outubro. 

Diferentemente de outros políticos que enfrentam oposição no cargo por corrupção ou mau desempenho, a crise que levou à renúncia de Boris Jonhson é essencialmente uma crise de imagem, resultado da combinação explosiva de negar fatos que viriam a se confirmar depois, dar explicações frágeis ou consideradas ultrajantes para a população, encobrir más práticas de amigos e mentir na tribuna do Parlamento. 

Embora a permanência dele no cargo fosse classificada como impossível por políticos, jornalistas e opinião pública, até a noite de ontem ele se mantinha agarrado ao cargo, mesmo diante de uma debandada inédita de ministros e auxiliares próximos, jamais enfrentada por qualquer outro líder da nação. 

Alguns jornais de hoje trataram a situação com ironia, fazendo um trocadilho com o slogan usado por ele para o Brexit, “get Brexit done”, e trocando Brexit pela palavra “exit”, saída. Mas em todos, o tom era de reconhecimento da impossibilidade de Johnson continuar no cargo. 

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Depois que o chanceler Rishi Sunak e o ministro da Saúde Sajid Javid deixaram seus cargos disparando contra o líder na terça-feira, uma onda se seguiu. Na noite de ontem, 45 haviam pedido para sair. Antes da renúncia eram quase 60. 

Os que saíram não o fizeram de forma discreta. As cartas de renúncia fazem críticas severas ao comportamento de Boris Jonhson sobretudo no episódio envolvendo o vice-líder do Partido Conservador, Chris Pincher, que na semana passada foi denunciado por apalpar homens em um bar privado. 

A crise de imagem do primeiro-ministro já vinha se agravando há vários meses, com escândalos como o de uso de doações para reforma da residência oficial e o Partygate, as festas realizadas dentro da sede do governo durante o lockdown da Covid. 

E em tese, ele nada teria a ver com o mau comportamento de um de seus companheiros de partido. No entanto, o que feriu Jonhson de morte foi a comprovação de que ele sabia do histórico de predador sexual de Pincher e mesmo assim o manteve em cargos importantes. 

Ele se desculpou na terça-feira por nomear Pincher para o cargo, admitindo que havia sido informado sobre uma queixa em 2019 e dizendo que cometeu um “erro grave”.

Os eleitores também acham o mesmo. O Instituto YouGov divulgou os resultados de uma pesquisa rápida com 3 mil adultos britânicos feita na noite em que Javid e Sunak renunciaram, mostrando que quase 70% achavam que Johnson deveria renunciar ao cargo de primeiro-ministro – e apenas 18% achavam que ele deveria ficar.

Mesmo os que o elegeram em 2019 se demonstraram contrários à permanência. A maioria dos eleitores conservadores de 2019 (54%) também acha que ele deveria renunciar, e apenas 33% que ele deveria ficar.

Crise que levou à renúncia de Boris Johnson é moral 

Assim como outros episódios que foram construindo a crise, este com Chris Pincher também é de ordem moral. Embora tenha conseguido realizar o Brexit, para satisfação de boa parte do país, e tenha implantado um dos mais reconhecidos programas de vacinação contra a covid do mundo, Johnson se desgastou mais por atitudes pessoais do que pelos feitos do seu governo. 

O país vive uma crise de custo de vida, mas nem isso foi tão forte como a falta de confiança no homem Boris Jonhson. 

Ele joga fora um capital de imagem imenso, que começou a ser conquistado quando foi prefeito de Londres e brilhou nas Olimpíadas de 2012. Era tão popular e associado a causas positivas que as ecológicas bicicletas de aluguel oferecidas na cidade ganharam o apelido de Boris Bikes. 

Não é uma surpresa para um homem que antes de entrar para a política trabalhou como jornalista de grandes veículos de imprensa britânicos, como o The Spectator e o Daily Telegraph, para o qual escrevia uma coluna semanal até se tornar premiê. 

Boris assumiu ao cargo em maio de 2019, tirando partido das dificuldades da então primeira-ministra Theresa May de negociar um acordo satisfatório para a saída do Reino Unido da União Europeia.

Ele era o Secretário de Relações Exteriores e deixou a posição atirando na chefe, o que precipitou a renúncia de May. 

Johnson concorreu ao cargo de líder do Partido Conservador e venceu, tornando-se primeiro ministro. Em um lance político ousado destinado a consolidar sua posição junto ao povo, convocou eleições gerais para dezembro do mesmo ano, e teve uma das mais retumbantes vitórias eleitorais da história recente, com 14 milhões de votos, abrindo uma maioria de quase 150 cadeiras no parlamento. g

Depois disso veio a covid-19, e como tantos outros políticos ele foi criticado pela demora em adotar medidas mais rigorosas no início de 2020. 

Mas contornou isso com o programa de vacinação, que embora não tenha evitado uma quantidade de mortes que bateu a de muitos outros países com populações semelhantes, serviu para aumentar sua popularidade entre os britânicos por dar uma luz no fim do túnel. 

Jonhson e o Partygate 

Mas a mesma covid que o ajudou também foi o princípio de seu fim, o escândalo apelidado de Partygate, em alusão ao caso Watergate, que custou a cabeça do presidente americano Richard Nixon em 1972.

Só que em vez de segredos sobre espionagem, o Partygate que disparou a crise que levou à renúncia de Boris Johnson revelou que a melhor balada de Londres durante o lockdown da covid-19 era em Downing Street 10, sede do governo e residência oficial, onde aconteceram festas seguidas regadas a muito álcool.

Além de Johnson, outras 82 foram multadas pela Scotland Yard, incluindo Carrie, a mulher dele. Ao todo foram emitidas 126 multas.

Antes de os rumores sobre festas, que circulavam de forma discreta, começarem a virar notícia com base em fontes confiáveis da mídia e evidências como fotos ou vídeos, a  imagem de Boris Johnson já vinha comprometida por notícias sobre doações mal explicadas para obras em sua residência oficial. 

Mas a questão das festas pegou em dois ponto sensíveis para a população: a confiança no líder da nação e o sofrimento de quem perdeu entes queridos, empregos ou deixou de encontrar parentes e amigos durante meses por causa do lockdown severo. 

Quando as notícias começaram a surgir, a equipe de comunicação de Boris Jonhson e ele próprio as justificavam  como encontros de trabalho, sem que o primeiro-ministro tivesse participado de nada que não fosse profissional. 

Até que veio uma novidade expressa em uma sigla de quatro letras: BOYB, de Bring Your Own Booze (traga sua própria bebida). Foi a cereja do bolo do “Partygate” de Boris Johnson, que viria a ser confirmada no relatório de 60 páginas da funcionária pública Sue Gray. 

A sigla comprometedora estava em um e-mail revelado pela emissora ITV. Ele foi enviado a mais de 100 destinatários por Martin Reynolds, secretário pessoal de Johnson. 

Era um convite para um encontro aproveitando o “lovely weather” que fazia em 20 de maio de 2020. Justamente no auge da crise, quando o Reino Unido chorava por mortos, internados e pelos prejuízos de uma Covid descontrolada. 

Em uma sessão do Parlamento no dia 12 de janeiro, o primeiro-ministro pediu desculpas desajeitadas à nação. Um dos pontos mais criticados da fala de Johnson foi a afirmação de que o encontro teria acontecido para reconhecer o trabalho dos funcionários.

O padrão de Johnson virou este: primeiro negar, depois admitir e pedir desculpas quando os fatos se tornavam públicos. 

Jonhson resistiu a pressões para renuncia

Depois que ele recebeu a multa, a pressão por renúncia aumentou. Foi o primeiro-ministro multado no cargo. Não era uma obrigação, mas é habitual que um político de alta envergadura renuncie quando uma falha dessa natureza é comprovada, pelo menos no Reino Unido. 

Mas isso não aconteceu, assim como também não aconteceu depois de outros episódios que vieram desgastando ainda mais a imagem do líder.

Nem a denúncia envolvendo Pincher na semana passada e o reconhecimento de que ele sabia das histórias sobre assédio sexual foi suficiente para que o premiê aceitasse a ideia de que suas condições para permanecer no cargo haviam se deteriorado até a manhã de hoje. 

Minutos antes de o chanceler Sunak e o secretário Javid divulgarem suas cartas de renúncia, Boris Johnson deu uma entrevista em tom humilde, pedindo desculpas. Mas a deterioração já tinha ido longe demais, e a saída de nomes importantes do Partido Conservador foi um golpe impossível de reagir. 

O desgaste diante da opinião pública é severo, tornando difícil prever o futuro político de Boris Johnson.   Os parlamentares britânicos são eleitos por suas comunidades, que acompanham diretamente seus atos e tendem a ser mais atentos ao que fazem os políticos em quem votaram. 

Mas em todo o país o desgaste na imagem depois do que a apresentadora Kay Burley, da Sky News, classificou de “tragédia grega” em sua transmissão desta manhã é imenso.

Isso significa que mesmo na hipótese de ele ser reeleito em  Uxbridge and South Ruislip, nos arredores de Londres,  ele se tornou um nome tóxico para o partido, que provavelmente resistirá a colocá-lo em posições de destaque.

Políticos em geral já não desfrutam de alta popularidade entre a população. Mesmo assim, Boris Johnson é visto neste momento como menos confiável do que seus pares por quase 6 em cada 10 britânicos. Outros 32% acham que todos são iguais, e apenas 3% o consideram mais confiável do que a média. 

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