Mais um jornalista premiado e dirigente de uma organização de mídia na América Latina é alvo de assédio judicial por parte do governo e acaba preso, desta vez na Guatemala. 

O fundador e presidente do jornal elPeriódico, José Rubén Zamora, foi preso em casa na última sexta-feira (29) e anunciou uma greve de fome para protestar contra o que classifica como “conspiração e perseguição política”.

A redação do jornal também foi alvo de uma operação policial que durou 12 horas, com os funcionários impedidos de entrar ou sair. 

Jornalista preso denuncia corrupção na Guatemala

A razão alegada para a prisão é uma investigação sobre suposta lavagem de dinheiro, chantagem e tráfico de influência, segundo os promotores.

Entretanto, entidades de defesa da liberdade de imprensa denunciam que o motivo real do jornalista ter sido preso é a postura crítica do jornal contra o governo do presidente da Guatemala, Alejandro Gimmattei. 

Em 1995, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas concedeu a Zamora seu Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa, em reconhecimento ao trabalho de combate à censura na Guatemala.

Em 2000, ele foi nomeado um dos 50 heróis da liberdade de imprensa pelo Instituto Internacional de Imprensa.

O elPeriódico foi fundado em 1996, depois de 36 anos de guerra civil do país centro-americano. Como uma das principais publicações independentes do país, é reconhecido por desvendar abusos de direitos humanos pelos militares e corrupção de décadas no governo da Guatemala.

De acordo com a Associação Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol), em outubro o presidente do elPeriódico denunciou que o presidente Giammattei e a procuradora-geral do Ministério Público (MP), Consuelo Porras, estavam “fabricando” um processo contra ele para prendê-lo.

A SIP destaca que Zamora e o jornal têm apontado atos de corrupção por parte do governo e do Ministério Público.

“Vários promotores foram sancionados pelo governo dos EUA, acusado de perseguir juízes anticorrupção e ex-procuradores”, explica a SIP.

A organização emitiu um comunicado sobre a prisão, exigindo do governo de Alejandro Giammattei garantias para a liberdade de imprensa e o devido processo legal.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) também pediu a libertação imediata de Zamora, cuja prisão foi notícia em importantes jornais dos EUA como Washington Post, New York Times e USA Today. 

Guillén Kaiser, diretor do CPJ em Nova York, ressaltou que a perseguição judicial contra jornalistas é um mecanismo de intimidação.

“As autoridades guatemaltecas devem pôr fim à sua campanha de intimidação e ameaças à imprensa”, acrescentou.

Segundo reportagem do elPeriódico, o jornalista Zamora participou no sábado de uma audiência fechada e foi levado de volta para o centro de detenção Mariscal Zavala. 

Na saída, ele foi saudado por apoiadores. Com voz embargada, disse que não sabia por que tinha sido preso. 

O pedido dos advogados para revogar o mandado de prisão não foi aceito.

“Decidi parar de beber água, café e comer como um pequeno sinal de protesto contra minha prisão, que é uma acusação política”, disse Zamora a repórteres de uma cela no tribunal na Cidade da Guatemala. “Eu me considero um prisioneiro político”.

Uma audiência está prevista para a manhã (horário local) desta segunda-feira (1). Uma vigília foi convocada para a frente do Tribunal de Justiça, onde manifestantes protestam desde sábado.

Zamora disse temer por sua segurança, porque ter “inimigos em todos os centros de detenção”.

Além disso, ele comentou que em 2018 um ataque havia sido planejado contra ele por pessoas que permanecem detidas na prisão para onde foi enviado.

Redação invadida 

A intimidação atingiu também a equipe do elPeriódico. No relato sobre o ocorrido, o jornal destacou que embora o chefe da operação, o promotor Rafael Curruchiche, tenha dito que não houve tentativa de atacar o trabalho jornalístico ou bloquear o jornal, a equipe não pode entrar ou sair durante todo o tempo.

Rafael Curruchiche foi incluído na semana passada pelos Estados Unidos em sua lista de pessoas corruptas e antidemocrátiaos na Guatemala. Ele está proibido de ingressar nos EUA.

O país o acusa de obstruir as investigações sobre atos de corrupção “interrompendo processos de alto nível contra funcionários do governo”.

Em uma declaração em vídeo, Rafael Curruchiche, que lidera o escritório anti-impunidade na Guatemala, disse que a prisão de Zamora “ não tem relação com sua atividade de jornalista”.

Ele disse que o presidente do jornal estava sendo investigado em relação a “um possível ato de lavagem de dinheiro na qualidade de empresário”.

Segundo o Washington Post, vários outros altos funcionários guatemaltecos, incluindo a procuradora-geral María Consuelo Porras, que Zamora diz estar envolvida no processo contra ele, foram incluídos na mesma lista que Curruchiche no ano passado.

Em maio, o Departamento de Estado anunciou sanções adicionais contra ela por alegações de “envolvimento em corrupção significativa”.

Parlamentares americanos também se manifestaram contra a prisão de Zamora.

O democrata James Patrick McGovern disse no Twitter. “Profundamente preocupado com a prisão de @ChepeZamora pelas autoridades da Guatemala. […] Jornalismo não é um crime!”

Pelo Twitter, o elPeriódico disse que não seria silenciado, apesar de ” ataques, perseguições e ameaças constantes contra o jornal e seu presidente”.

“Sempre acreditamos na liberdade de expressão e trabalhamos para supervisionar o poder através do jornalismo, contra todas as probabilidades”, disse o jornal .

No domingo, o jornal circulou com uma capa estampando a frase No Nos Callan (Não nos calarão), que também virou hashtag nas redes sociais. 

A América Latina vive uma onda de repressão ao jornalismo independente por meio de assédio judicial, com casos registrados em diversos países. 

Na semana passada, o jornal La Prensa, da Nicarágua, foi obrigado a retirar todos os profissionais que ainda estavam no país devido a riscos cada vez maiores de serem presos, como aconteceu com dois motoristas da publicação em 6 de julho.