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Retratos de dor e bravura: veja fotos e vídeos premiados documentando 1 ano de guerra na Ucrânia

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Londres – A guerra na Ucrânia completa um ano neste 24 de fevereiro com um saldo assustador: cidades destruídas, mortes, milhões de refugiados e o país em colapso, com o drama documentado em fotos e vídeos produzidos por amadores e profissionais. 

Alguns desses registros ganharam prêmios em concursos de fotografia, imortalizando o sofrimento e a bravura dos ucranianos que resistem à invasão. 

Veja uma seleção das fotos e vídeos premiados que mostram a origem do conflito, os refugiados e a destruição das cidades ucranianas.

Foto lembra a paz na Ucrânia antes da guerra

No verão de 2021, antes do início do conflito, uma imagem de um dia de paz na Ucrânia foi classificada em segundo lugar na categoria Fotografia de Rua do concurso One Shot Color, organizado pela IPA (International Photography Awards).

A autora da imagem, Anna Arabska, vive e trabalha em Kiev. Ela recordou que no momento da foto, não apenas a covid-19 mas a presença das tropas russas na fronteira do país já exerciam pressão sobre os ucranianos. 

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Foto: Anna Arabska – IPA One Shot Color 2022

Ainda assim – ou talvez por isso – “eles aproveitaram ao máximo a oportunidade de passar um tempo com seus filhos, familiares e amigos, talvez percebendo que poderia ser sua última vez juntos”, refletiu a fotógrafa. 

Origem da guerra na Ucrânia é retratada em série fotográfica

O projeto fotográfico de Guillaume Herbaut, da Agência VU, sobre as origens da guerra na Ucrânia, venceu o World Press Photo 2022 na categoria Projetos de Longo Prazo na Europa.

A invasão do país pela Rússia foi o resultado de uma escalada de tensões que já dura quase uma década na região.  

O ensaio fotográfico de Herbaut foi feito entre 2013 e 2021 e analisa o contexto de longo prazo que levou à guerra na Ucrânia em 2022.

World Press Photo Contest 2022

A imagem da estátua decapitada de Lenin no Parque Cheminots, Kotovsk, na Ucrânia, foi capturada em 19 de dezembro de 2013.

Ele explica que as tensões entre o leste e o oeste da Ucrânia foram exacerbadas em 2014, quando as forças apoiadas pelo Kremlin ocuparam a península da Crimeia e os separatistas nas regiões orientais de Donetsk e Luhansk estabeleceram autoproclamadas repúblicas populares, um status não reconhecido oficialmente pela maioria da comunidade internacional.

World Press Photo Contest 2022

Outrora um popular resort no Mar de Azov, Shyrokyne tornou-se um campo de batalha no conflito de 2014-2015 entre separatistas e forças ucranianas.

As tensões continuaram e, em fevereiro de 2021, a Rússia começou a construir forças militares nas fronteiras da Ucrânia.

Em dezembro, o presidente russo, Vladimir Putin, apresentou um conjunto de exigências de segurança, incluindo que a Ucrânia fosse permanentemente impedida de ingressar na OTAN, e a situação já volátil se intensificou.

Em 21 de fevereiro de 2022, Putin reconheceu formalmente a independência da República Popular de Donetsk (DNR) e da República Popular de Luhansk (LNR). No dia 24, a Rússia lançou uma invasão em grande escala à Ucrânia.

 

World Press Photo Contest 2022

A imagem acima, de 22 de janeiro de 2014, é um exemplo do início das tensões na região.

Na foto, forças anti-motim formam uma barreira em uma rua da capital Kiev. Confrontos violentos ocorreram entre unidades policiais e manifestantes pró-União Europeia desde o dia anterior, deixando pelo menos quatro pessoas mortas e centenas feridas.

World Press Photo Contest 2022

Outro momento da escalada do conflito, capturado por Herbaut em setembro de 2019, mostra mulheres confeccionam equipamentos de camuflagem para franco-atiradores, no Centro Novy Mariupol, uma organização que coleta equipamentos para soldados ucranianos, na cidade de Mariupol.

A cidade foi destruída desde a invasão do país pela Rússia. 

Os efeitos da guerra da Ucrânia mostrados em fotos dramáticas

Dois ensaios retratando o drama os ucranianos após a invasão da Rússia foram premiados no concurso ND Awards 2022, promovido pela revista americana de fotografia ND. 

O espanhol Alejandro Martinez Velez, fotojornalista freelancer da Agência Anadolu e da Agência de Imprensa Europa, foi eleito Fotógrafo do Ano do concurso.

Seu trabalho se concentra especialmente em conflitos sociais, direitos humanos ou questões políticas. Ele vem se dedicando a documentar o êxodo de centenas de milhares de pessoas para a Europa.

Ele registrou vários momentos do sofrimento do povo ucraniano e também conquistou a medalha de ouro na categoria Editorial. 

As fotos da série ‘Desolação’ retratam o sofrimento das pessoas comuns atingidas pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia. 

Foto: Alejandro Martinez Velez / ND Awards 2022

A tensão crescente entre os dois países explodiu na manhã de 24 de fevereiro de 2022, após quase oito anos de guerra na região de Donbas, com a entrada do Exército russo no território ucraniano.

Foto: Alejandro Martinez Velez / ND Awards 2022

Esta nova fase do conflito fez com que milhões de vidas fossem abreviadas e causou a devastação de várias partes do país.

Foto: Alejandro Martinez Velez / ND Awards 2022

Os bombardeios e o avanço de tropas terrestres causaram mais de 5,5 mil mortos e quase 8 mil feridos, segundo dados das Nações Unidas de agosto de 2022.

Foto: Alejandro Martinez Velez / ND Awards 2022

O número de baixas militares que participam de ambos os lados não pode ser estimado com precisão.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), pelo menos 6,5 milhões de pessoas fugiram da Ucrânia e o número de deslocados internos sobe para 8 milhões.

Foto: Alejandro Martinez Velez / ND Awards 2022

A fuga dos ucranianos para a Polônia

O português Omar Marques ficou com o segundo lugar na mesma categoria, com uma série sobre os refugiados que tiveram que escapar para a Polônia. 

O trabalho selecionado pelos jurados como o segundo colocado, “Invasão russa da Ucrânia traz milhões para a Polônia”, mostra a saga dos refugiados durante o conflito.

Omar Marques é um fotojornalista freelancer português que mora na cidade polonesa de Cracóvia.

Ele trabalha como freelancer para as agências Getty Images e Anadolu, e colabora com publicações diversas em coberturas jornalísticas na Europa Central e nos Bálcãs.

Conhecendo a vida na Polônia, ele capturou em suas fotos as dificuldades enfrentadas pelos que buscam refúgio no país vizinho por causa da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. 

Foto: Omar Marques / ND Awards 2022

A invasão resultou em ataques nas principais cidades e nas regiões orientais mantidas por rebeldes apoiados pelos russos.

Foto: Omar Marques / ND Awards 2022

Nos meses seguintes, milhões de refugiados chegaram à Polônia. Até julho de 2022, mais de 3,5 milhões já tinham se alojado no país.

Foto: Omar Marques / ND Awards 2022

Eles sobrevivem como podem ao frio e à falta de recursos, impedidos de voltar para suas cidades e para as vidas que deixaram para trás. 

Foto: Omar Marques / ND Awards 2022
Foto: Omar Marques / ND Awards 2022

Vídeo com drone é tributo às cidades da Ucrânia que impediram queda de Kiev 

Um vídeo de cinco minutos mostrando a destruição na cidade de Bucha, na Ucrânia, foi o vencedor na categoria fotojornalismo do concurso Drone Photo Awards 2022.

O mini-documentário “City Silence”, do ucraniano Yurii Bobyr, reuniu cenas captadas por um drone sobrevoando o resultado da ofensiva russa nas cidades que impediram o avanço das tropas inimigas em direção à capital Kiev, na Ucrânia.

São apenas quatro minutos de vídeo que mostram as cenas de devastação seguidas por um minuto de imagens de esperança, terminando com a bandeira da Ucrânia tremulando altaneira.

O autor do documentário premiado no concurso de produções com drone, Yurii Bobyr, que também se apresenta em seus canais de mídia social como Smakadron, realizou o vídeo como um tributo às cidades da Ucrânia arrasadas pela guerra:

“Cidades heróicas de Irpin, Bucha e Gostomel, obrigado por salvar minha nativa Kiev!”

Para transmitir sua mensagem, o vídeo não usa palavras e nem legendas. Apenas a força das imagens, realçadas pela música instrumental, começando com carros destruídos, vários crivados de balas. Alguns estão abandonados em estradas, como estavam no momento em que foram atingidos.

Em seguida o drone transita entre os prédios, exibindo telhados estraçalhados, paredes desmoronadas e janelas quebradas e retorcidas. 

Nos quatro minutos iniciais, só uma pessoa aparece, além de gatos abandonados. É o silêncio do que sobrou que grita alto contra a insanidade.

As manchas escuras deixadas pelos incêndios e os buracos das bombas e das balas falam por si. No alto de um prédio, um gato é flagrado pelo drone entre os escombros da janela de um apartamento destruído. O vento abre a porta de um prédio abandonado.

Dentro de um dos apartamentos, uma boneca deixada para trás, sentada numa cadeira, tem um buraco na cabeça. Mas não há vestígios de pessoas.

Centenas foram mortas e várias permanecem sob os escombros. Outros foram enterrados às pressas em quintais e parques porque era impossível dar-lhes um funeral adequado.

A maioria dos sobreviventes fugiu, e alguns foram alvos diretos da artilharia russa enquanto tentavam escapar.

Yurii expressa bem o que se sente ao se assistir as imagens do que sobrou:

Como é a alma de uma cidade sem pessoas? O que os fantasmas das pessoas sentem em sua própria casa, vagando sem parar por ela? Como você se sentiria quando fechasse sua casa pela última vez?

O vídeo mostra também tanques de guerra e veículos militares russos destruídos pela resistência ucraniana.

Outros vídeos retratam Ucrânia antes e depois da guerra 

“City Silence” é mais um dos vídeos realizados por Yurii sobre seu país natal. Num outro trabalho realizado três dias depois do início da invasão russa, ele apresenta uma Ucrânia repleta de imagens bonitas:

A Ucrânia é a minha casa. Nasci aqui e tenho orgulho deste país de pessoas livres e de força de vontade.

Estaremos sempre com você, porque você é nossa Mãe e não temos nada mais querido do que você. Para você somos uma montanha. Sempre a protegeremos e agradecemos por nos receber. Glória à Ucrânia!

O tema de outro vídeo é uma casa destruída pelos russos: “é terrível pensar nas pessoas que se encontravam nessa casa, quando foram baleadas, em que momento as paredes se desfizeram pela ação das chamas que devoraram tudo em seu caminho para destruir a casa”, diz ele.

Ele confessa que não pode deixar de imaginar o que as vítimas da guerra devem ter passado em casas destruídas como a que filmou:

Sentados em um porão frio e úmido, e orando a Deus para viver até de manhã. Compartilhando uma lata de ensopado com os demais. Entretendo as crianças.

Como é se controlar e não entrar em pânico? Bebendo água de esgoto, poças e baterias. Vendo o inimigo perto de você e tentando não fazer o menor som, se escondendo no armário.

Em seu canal do YouTube, ele procura incentivar outros a obter as melhores imagens aéreas com o uso de drones, como o vídeo feito para documentar a guerra na Ucrânia premiado no concurso.

Yurii tem realmente muito a ensinar sobre a técnica de manejo de drones – a premiação do vídeo “City Silence” registrando os efeitos da guerra na Ucrânia é a prova.

Ele se diz feliz por “trazer beleza a este mundo”. Mas as imagens dos primeiros minutos de “City Silence” não são belas.

Talvez por isso o minuto final é repleto delas. Imagens do céu, campos, crianças no parque e o interior de uma igreja se sucedem. Uma muda de planta cresce em primeiro plano, seguido pela bandeira da Ucrânia de pé, tremulando livre ao vento.

Se os primeiros minutos mostram como os russos conseguiram arrasar prédios, pontes e estradas, o minuto final demonstra a bravura do país.


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