MediaTalks em UOL

Alemanha | A controvérsia da linguagem de gênero no jornalismo e na sociedade

Christine Olderdissen autora livro jornalismo de gênero Alemanha

A jornalista Christine Olderdissen é autora de um livro sobre asterisco de gênero (Foto: divulgação Jornalistinnenbund)

Marina Azaredo

Berlim – Há alguns anos os alemães vêm encontrando um “asterisco de gênero” na grafia de determinadas palavras em textos da imprensa,  das correspondências governamentais e até de mensagens entre amigos.

Este asterisco é uma das formas de  “neutralizar” a linguagem, tornando-a menos masculina e mais inclusiva para mulheres e pessoas não binárias.

A mudança não é oficial. Muitos veículos de imprensa deixam a critério de seus jornalistas  o uso do asterisco e de outros símbolos e práticas visando a neutralização da linguagem. Uma delas é a adotada por jornalistas de TV e rádio, de fazer uma pausa antes do sufixo ao pronunciar algumas palavras. É a chamada “pausa de gênero”. 

‘Guerra do asterisco de gênero’

Grande parte dos vocábulos alemães tem flexões feminina e masculina. Na escola, por exemplo,  há o Schüler (aluno) e a Schülerin (aluna), que têm aulas com um Lehrer (professor) ou uma Lehrerin (professora). 

Na referência a grupos mistos, a gramática manda utilizar o plural masculino, como no português. Os críticos alegam que a norma está associada sobretudo aos indivíduos masculinos, excluindo pessoas femininas e não binárias. 

Uma das formas não oficiais para contornar o problema é acrescentar a terminação feminina no plural (innen) antecedida por um asterisco: Lehrer*innen – o que seria equivalente à expressão “professorxs” em português. 

Há alternativas, como LehrerInnen, Lehrer_innen ou Lehrer:innen. Porém, o “asterisco de gênero” tem sido a opção dominante. 

Controvérsia no jornalismo 

Mas é claro que mudanças assim não acontecem sem polêmica. A “guerra do asterisco” é um dos temas mais controversos no jornalismo alemão atual.

“Hoje sabemos que o mundo não é masculino e todas as pessoas têm de ser respeitadas”, afirma Christine Olderdissen, gerente de projetos do Genderleicht, uma iniciativa da Associação de Jornalistas Mulheres para trabalhos de mídia com perspectiva de gênero. 

Ela é autora do livro Genderleicht – Wie Sprache für alle elegant gelingt (“Gênero-fácil – Como a linguagem é elegante para todos”, em tradução livre).

Foi com essa preocupação em mente que em 2016 a jornalista Marieke Reimann, então editora da revista para jovens ze.tt, implantou na publicação a linguagem sensível ao gênero. 

A revista, que pertence ao grupo editorial do jornal Die Zeit, foi o primeiro veículo de imprensa comercial do país a fazê-lo. 

Em entrevista ao MediaTalks, ela falou sobre a experiência. 

“Minha motivação foi contribuir para que o maior número possível de pessoas se sentisse incluído, tornando visíveis outras realidades da vida  e quebrando estereótipos.”

O debate tomou mais corpo em 2018, depois que o governo alemão aprovou um projeto de lei autorizando pessoas intersexuais a optarem por um terceiro gênero em seus documentos. 

Indivíduos que não se identificam como masculinos ou femininos podem se registrar com o gênero “diverso”. Essas pessoas também precisam ser representadas, afirmam os defensores da linguagem sensível ao gênero.

Asterisco de gênero divide opiniões 

No entanto, a questão está longe de um consenso na população. Uma pesquisa do Instituto Infratest Dimap constatou que dois terços dos alemães são contra a linguagem voltada à diversidade de gênero. 

Argumentam que o asterisco e outros símbolos tornam os textos mais difíceis de entender, sobretudo para leitores que não são nativos. “O idioma alemão já é difícil o suficiente, não deveríamos complicá-lo mais”, dizem.

“Se a pesquisa tivesse perguntado às pessoas se elas eram favoráveis a uma linguagem mais justa, tenho certeza que o resultado teria sido diferente”, afirma a linguista Gabriele Diewald, professora da Universidade de Hannover e autora de livros sobre linguagem sensível ao gênero. 

Diewald acredita que o debate se tornou político, com os defensores desse tipo de linguagem associados à esquerda, e seus oponentes identificados com a direita. 

Em meio a tanta polêmica, a mídia do país tomou a dianteira e está fazendo a sua parte.

Na emissora pública Deutschlandradio, não há diretrizes obrigatórias sobre o uso de linguagem inclusiva, mas desde 2018 existe um guia com recomendações, mostrando formulações sensíveis ao gênero. 

“Muitos de nossos funcionários utilizam o guia. Alguns vão além, adotando nos áudios a pausa de gênero”, informa a assessoria de imprensa da emissora. 

No guia da Deutschlandradio há sugestões como a de substituir a palavra “espectador” por “público” ou “audiência”, o que dispensa asteriscos ou pausas de gênero no meio das palavras. 

“Há opções para evitar o asterisco”, defende Gabriele Diewald. “Se o jornalista fizer um bom trabalho,  será difícil perceber que um texto utiliza a linguagem sensível ao gênero, porque ele será perfeito”, acrescenta a jornalista Christine Olderdissen.


Este artigo faz parte do Especial MediaTalks sobre representação de gênero na mídia 

Sair da versão mobile