Uma seleção anual das melhores fotos da Via Láctea, objeto de desejo de amadores e profissionais que se dedicam à astrofotografia, foi apresentada esta semana pelo Capture The Atlas, site internacional especializado em fotografia do céu.

A coletânea é publicada sempre no final de maio, durante o pico da temporada da Via Láctea, e tem como objetivo compartilhar a beleza da galáxia em imagens capturadas por câmeras potentes, mostrando cores e luzes invisíveis a olho nu. 

Para conseguir os registros, os astrofotógrafos precisam de equipamentos sofisticados, técnica e muita disposição para passar horas em locais distantes da poluição e das luzes urbanas, muitas vezes sob frio intenso. Mas o resultado compensa. 

Dan Zafra, astrofotógrafo que faz a curadoria das imagens, disse que mais de 5 mil fotos foram inscritas este ano. A escolha das melhores é feita com base na qualidade da fotografia, na história por trás dela e na inspiração que pode proporcionar a quem vê. 

Confira as mais impressionantes e e o que os fotógrafos contaram sobre cada uma delas – histórias de aventuras com toques de poesia. 

Astrofotografias da Via Láctea no Hemisfério Sul

Relâmpago no lago, por Tom Rae
Tom Rae / MWPOTY 2024

A imagem mostra a Via Láctea emergindo sobre a montanha mais alta da Nova Zelândia, no Parque Nacional Aoraki/Monte Cook, numa noite de inverno – uma fotografia que Rae sonhava captar, enquadrando perfeitamente as montanhas e os elementos do céu. 

“Ao chegar ao lago, a cena me fez sentir como se tivesse pousado em outro planeta.  A imagem mostra icebergs no lago glacial azul, o brilho vermelho do ar pintando o céu e o brilho de bilhões de estrelas na Via Láctea – um vislumbre da vastidão do univers”.


Terapia à luz das estrelas, por Kavan Chay
Kavan Chay / MWPOTY 2024

A escalada no Parque Nacional Aoraki/Monte Cook, na Nova Zelândia, transportando quase 25 kg de equipamentos, foi feita quando o fotógrafo recuperava-se de momentos difíceis. 

“A noite sob as estrelas foi de tirar o fôlego. Noites perfeitas assim nos fazem apreciar a oportunidade de testemunhar tudo isso. ”.


Refúgio Bluff, por Rachel Roberts
Rachel Roberts / MWPOTY 2024

Às vezes, as melhores imagens surgem completamente não planejadas, e foi o que aconteceu nesta viagem a Bluff Hut, situada nos Alpes do Sul, na Ilha Sul, em Mungo, Costa Oeste da Nova Zelândia, em um local acessível apenas por uma caminhada difícil ou por helicóptero

“Eu não tinha intenção de chegar até ali, pois tinha planejado um cenário diferente. No entanto, confiei no piloto do helicóptero para escolher o melhor local para um céu limpo naquela noite, e consegui capturar a Via Láctea curvando-se majestosamente em um dos lugares mais escuros do planeta”.


O covil dos leões, por Lorenzo Ranieri Tenti
Lorenço Ranieri Tenti / MWPOTY 2024

A fotografia foi feita no planalto do Deserto do Atacama, no Chile, em uma área perigosa por ser umo reserva de leões da montanha. 

Depois de uma tarde inteira em busca de composições,  Tenti disse que encontrou a notável massa de rochas adornadas com tufos de grama, rodeada de ossos de pequenos animais e pegadas de tamanho significativo que indicaram a presença de espécies “que não pareciam ser ovelhas pacíficas”.

“Passar a noite lá foi um pouco estressante, mas a oportunidade de fotografar tamanha beleza valeu a pena. O arco da Via Láctea, em todo o seu esplendor, eleva-se acima da paisagem imaculada, criando uma cena verdadeiramente fascinante”.


A sinfonia celestial acima de uma lagoa no deserto, por Kerry-Ann Lecky Hepburn
Kerry-Ann Lecky Hepburn / MWPOTY 2024

Hepburn também fotografou a Via Láctea no Deserto de Atacama, conhecido pelo céu limpo e verdadeiro paraíso para os que praticam a astrofotografia.  Para alcancar a lagoa, foi necessário caminhar 40 minutos no escuro,  ao longo de uma trilha de sal acidentada, e ainda carregando o equipamento fotográfico.

“Durante o dia as lagoas normalmente aparecem em um azul brilhante, iluminadas pelo sol. Para replicar este efeito à noite, utilizamos uma lanterna para lançar um feixe de luz sobre as águas tranquilas durante uma longa exposição, resultando numa cena surreal e hipnotizante”.


Lagoa azul sob as estrelas, por Yuri Beletsky
Yuri Beletsky / MWPOTY 2024

Yui Beletsky foi outro a registrar a Via Láctea sobre um lago Atacama com a luz Zodiacal complementando-a à direita.

“A cor azul era tão real quanto as estrelas no céu, acrescentando um toque de magia à cena. Foi uma experiência incrível! Serviu como um lembrete das paisagens maravilhosas que existem no mundo e da beleza infinita que pode ser encontrada quando simplesmente olhamos para o céu noturno.”


Boas-vindas, por Francesco Dall’Olmo
Francesco Dall’Olmo / MWPOTY 2024

Esta foi a primeira foto que Dall’Ommo tirou na Patagônia Argentina, onde teve a sorte de contar com quase três dias de céu limpo.

“Logo no primeiro dia fui presenteado com uma visão rara do monte Fitz Roy emoldurado pelo arco da Via Láctea”.


Vale do Arco-Íris, por Baillie Farley
Baillie Farrley / MWPOTY 2024

O interior da Austrália  (conhecido como outback) tem um dos céus noturnos mais escuros do hemisfério Sul. 

 A imagem mostra a Reserva de Conservação Rainbow Valley, com a Via Láctea se estendendo-se graciosamente sobre uma impressionante formação de rochas de arenito coloridas. Esta área é encandadora, com os seus tons vibrantes e formações geológicas criando uma paisagem fascinante”.

A Galáxia no Hemisfério Norte

Fogos de artifício atmosféricos, por Julien Looten
Julien Looten / MWPOTY 2024

Looten escolheu a área de um castelo medieval em Dordogne, na França para captar o arco “invernal” da Via Láctea. Ao lado da abóbada celeste, um brilho aéreo excepcional iluminava o céu, lembrando nuvens multicoloridas. Este fenômeno  ocorre devido a uma reação química na alta atmosfera, emitindo uma luz fraca conhecida como quimioluminescência.

“A vista panorâmica abrange 180°, mostrando todo o arco da Via Láctea. Da esquerda para a direita se vê Sirius e a constelação de Órion, Marte, as Plêiades, a Nebulosa da Califórnia, Cassiopeia, o aglomerado duplo de Perseu e a galáxia de Andrômeda”.


Caradhras: Arco da Via Láctea acima da passagem Vršič, por Matej Mlakar
Matej Mlaka / MWPOTY 2024

Vršič Pass é uma passagem no alto da montanha que atravessa os Alpes Julianos, no noroeste da Eslovênia. É a passagem mais alta dos Alpes Julianos Orientais. Um de seus picos é o Prednje robičje a 1.941 metros de altitude.  

“Eu queria capturar o que provavelmente seria último arco da Via Láctea da temporada de inverno visível acima dos picos cobertos de neve, e ir a esse local foi uma decisão de última hora. Às vezes vale a pena não seguir tanto os planos”.


Campos Lupinos, por Brandt Ryder
Brandt Ryder / MWPOTY 2024

Um rio atmosférico (onda de vapor d’água) no inverno de 2023 causou uma quantidade recorde de umidade nas montanhas da Serra Oriental, Califórnia, e no sopé das montanhas. O resultado foi uma vasta área coberta pelas chamadas “super-flores”. 

Em maio de 2023, o fotógrafo passou alguns dias na cidade de Lone Pine, Califórnia, onde os lupinos (ou pés de tremoços)  estavam começando a florescer e o céu estava bem escuro.

“Eu queria registrar uma imagem que transportasse o espectador para um mar de flores roxas emolduradas pela montanha coberta de neve e pela Via Láctea que se elevava acima dela.

Cada vez que olho para esta imagem ainda posso sentir o cheiro das flores e sou imediatamente transportado para este lugar especial e para um tempo passado com pessoas especiais”.


País das maravilhas estrelado e ‘Hoodoos’,  por Stephanie Thi
Stephanie Thi / MWPOTY 2024

Durante a Conferência de Fotografia Noturna em Kanab, Utah (EUA), Stephanie Thi viu pela primeira vez os hoodoos (formações rochosas incomuns). Na primeira visita, ela aproveitou o convívio com os companheiros de astrofotografia em vez de se concentrar na busca da foto perfeita. 

Mas na noite seguinte, voltou ao local e conseguiu registrar a Via Láctea na hora azul ( entre o fim da noite e início do dia), tentando replicar o que tinha visto na visita anterior.


 O Tajinaste, por Maximilian Höfling
Maximilian Höfling / MWPOTY 2024

As Ilhas Canárias, especialmente Tenerife, oferecem condições ideais para a astrofotografia. No Parque Nacional do Teide, situado a cerca de 2 mil metros de altitude, o céu limpo é quase garantido, graças às nuvens baixas ocultando as luzes da cidade. 

“Meu objetivo na astrofotografia é revelar a beleza oculta do céu noturno além das estrelas visíveis. Acredito que esta imagem atinge esse objetivo. capturando o brilho hipnotizante da Via Láctea contra o pano de fundo imaculado do céu noturno de Tenerife, no Mirador El Tabonal Negro”.


Mãe zimbro, por Benjamin Barakat
Benjamin Barakat / MWPOTY 2024

“A sabedoria do zimbro revela-se nas suas raízes envelhecidas, retorcidas e esculpidas ao longo de milênios, suportando a devastação do tempo e inúmeros obstáculos”, diz o fotógrafo, que registrou a cena em Jebel Shams, Omã. 

Seus caminhos se entrelaçam e convergem, culminando em um alinhamento perfeito. Fiquei sob os galhos do zimbro, olhando para a dança cósmica acima, capturando a sua essência na quietude da noite.”


As imagens foram cedidas pelo blog de viagens Capture The  Atlas, organizador do Fotógrafo do Ano da Via Láctea, e não podem ser reproduzidas sem autorização.