O bilionário da tecnologia e chefe do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) do presidente Donald Trump estava correto. Em poucas horas, imagens do gesto se espalharam pelas mídias sociais, gerando inúmeras edições, remixes humorísticos e comentários afiados.
Este momento foi mais do que apenas um espetáculo. Ele exemplificou como, em uma era digital onde a batalha pela atenção é primordial, os memes são uma parte fundamental da conversa política.
Embora os memes possam parecer puramente divertidos, a pesquisa que fiz confirma que sua influência é mais profunda, pois eles podem moldar e intensificar visões e atitudes políticas de maneiras significativas.
O poder dos memes: simplificação e comunicação visual
O poder dos memes está na capacidade de condensar ideias complexas de formas que são fáceis de reconhecer.
Eles contam com modelos visuais estabelecidos, que eliminam a necessidade de longas explicações e comunicam ao espectador como ele deve pensar sobre o assunto do meme.
O do namorado distraído (em que um homem olha por cima do ombro para uma mulher atraente para o aborrecimento de sua namorada) é um exemplo perfeito.
Ele comunica sucintamente a experiência universal de ser atraído por uma opção enquanto negligencia outra – aplicável a tudo, desde preferências do consumidor até lealdades políticas.
No entanto, essa simplificação pode rapidamente se tornar problemática quando os memes retratam visões distorcidas ou enganosas da realidade. Eles têm o poder de transmitir ideias perigosas, disfarçadas de humor, o que as torna mais fáceis de aceitar.
As teorias conspiratórias se demonstram especialmente adaptáveis ao formato de meme. As narrativas costumam se basear em um cenário de “nós contra eles”, com os que buscam a verdade enfrentando conspiradores poderosos e um público inconsciente ou passivo.
Uma análise de centenas de memes de comunidades que acreditam na conspiração da COVID no Reddit, revelou um padrão: os mesmos modelos apareciam repetidamente, reforçando essa divisão, que apesar de simples, é poderosa.
Muitos memes retratavam os que acreditavam em conspirações como buscadores esclarecidos da verdade. Em “A apresentação de Lisa Simpson”, o meme mostrava a personagem de desenho animado confiante diante do público.
A imagem era comumente usada para compartilhar alegações que desafiavam as narrativas tradicionais sobre ciência, medicina e governo. Outros memes retratavam autoridades como manipuladores poderosos.
“Luta diária/dois botões”, mostrava uma personagem suando ao pensar sobre qual dos dois botões contraditórios apertar.
Era comumente usada para sugerir que autoridades de saúde e veículos de mídia alternavam deliberadamente entre narrativas opostas de vacinação quando conveniente.
Mais prevalentes foram as representações de um público inconsciente ou passivo, com “NPC Wojak” – uma figura cinza e sem expressão nomeada em homenagem a “personagens não jogáveis” de videogame – apresentando uma abreviação visual.
Aqueles que seguiram os conselhos e determinações de autoridades de saúde pública foram retratados como autômatos irracionais, incapazes de pensamento crítico ou julgamento independente.
Esses tipos de memes não apenas refletiam crenças existentes – eles as moldavam e intensificavam ativamente.
Memes e teorias conspiratórias no mundo real
Por meio da exposição repetida, essas ideias se tornaram normalizadas e aceitas como verdade. Os memes criaram um ciclo de feedback onde as suspeitas existentes foram validadas, amplificadas e disseminadas para outros – com efeitos no mundo real.
Durante a pandemia, teorias da conspiração que foram amplamente compartilhadas por meio de memes levaram a ações no mundo real, desde a recusa da vacina até protestos globais violentos contra mandatos de saúde pública.
O humor acessível dos memes serviu como um ponto de entrada, atraindo públicos que podem ter se envolvido inicialmente com o conteúdo como “apenas piadas”, mas posteriormente adotaram perspectivas cada vez mais extremas.
Compartilhar memes e o cuidado para não espalhar teorias conspiratórias
Dado o seu poder de influenciar visões e atitudes políticas e de espalhar desinformação, é importante pensar criticamente antes de compartilhar um meme. Algumas dicas importantes:
Pensar na mensagem oculta
Os memes geralmente usam humor ou exagero, mas é necessário considerar a mensagem subjacente. Pensar se está simplificando uma questão complexa ou distorcendo a realidade.
Além disso, é importante lembrar de que eles podem disfarçar pontos de vista extremistas, fazendo com que pareçam mais familiares e aceitáveis.
Identificar quem está por trás disso
Considere a fonte ou origem do meme. Quem pode se beneficiar da disseminação desta mensagem? Ela está associada a comunidades extremistas ou conspiratórias?
Os memes geralmente operam por meio de suposições implícitas sobre a sociedade, a expertise e as evidências que não são declaradas. É necessário questionar quais crenças fundamentais alguém deve aceitar para que esse meme faça sentido.
Por exemplo, um meme zombando de pessoas que “confiam na ciência” pode conter a suposição não declarada de que o consenso científico é apenas uma opinião, em vez de conclusão baseada em evidências.
Antes de clicar em “compartilhar”, é necessário refletir se há uma manipulação emocional para espalhar uma ideia que normalmente você não apoiaria abertamente.
Considerar o dano potencial
Questionar se compartilhar o meme pode contribuir para o dano, seja por reforçar estereótipos prejudiciais, espalhar desinformação ou teorias da conspiração.
O humor pode disfarçar o impacto dessas ideias, fazendo com que pareçam aceitáveis mesmo quando não são.
Lembrar que o contexto importa
Um meme pode parecer engraçado ou perspicaz por si só, mas em conversas mais amplas, pode assumir novos significados. É interessante considerar como ele pode ser interpretado junto com outras mensagens que circulam em espaços semelhantes.
Poderia estar contribuindo para um padrão de desinformação, divisão ou banalização?
No final das contas, tornar-se consciente dos memes compartilhados não significa perder o senso de humor, mas sim ganhar controle sobre as ideias que ajudamos a circular.
Antes de clicar em compartilhar, é preciso pensar um pouco: cada meme espalhado pode afetar a forma como as pessoas veem o mundo.
Este artigo foi originalmente publicado no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.
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