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‘No’ Belém? Capital da Amazônia? Portal Amazônia Vox explica o básico sobre a cidade que vai receber a COP30

Belém, sede da COP30, vista a partir do rio

Foto: Márcio Nagano/Amazônia Vox

Ao chegar em Belém – jamais diga “no” Belém – talvez você encontre placas espalhando a alcunha de “Capital da Amazônia”. Não se engane: a Amazônia não tem capital.

A verdade é que o bioma Amazônia está presente em nove estados brasileiros e é compartilhado por mais oito países: Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

Mas, na capital do Pará, as janelas para o rio que rodeia essa “menina morena”* te levam a saber um pouco mais sobre essa região que, definitivamente, não se resume nem de longe à forma singular de um substantivo. Seja ele qual for.

Nome de Belém é um tributo ao Natal

Fundada enquanto cidade à luz de um modelo europeu, em 1616, teve início com a construção do Forte do Presépio.

O nome foi um tributo ao dia de Natal, data em que Francisco Caldeira Castelo Branco e seus homens saíram de São Luís do Maranhão em direção à região para ocupá-la. A edificação serviu de base para a ocupação portuguesa e o massacre de povos indígenas.

Isso porque, antes de ser invadido, o local onde hoje está o centro de Belém era a Aldeia Mairi, território indígena habitado majoritariamente pelos Tupinambás.

A etnia foi lembrada séculos depois com o empréstimo de seu nome para identificar uma das ruas da cidade, mas, como de costume em Pindorama1, o mesmo crédito foi dado ao capitão e invasor português.

Forte do Castelo

Para conhecer a cidade retratada nos versos do maestro Waldemar Henrique e do poeta Paranatinga2, vale a visita ao prédio que marcou a sua fundação e passou a se chamar Forte do Castelo.

A área deu início ao povoado denominado “Feliz Lusitânia”, que hoje dá nome ao complexo histórico. Lá, murais e peças arqueológicas contam um pouco sobre esse movimento de ocupação do território às margens da Baía do Guajará.

A revolta da Cabanagem: marco na história de Belém

Como não somos feitos de apagamentos, se quiser saber mais sobre o tamanho da resistência do povo que aqui vive, procure saber mais sobre a Revolta da Cabanagem3, ocorrida na província do Grão-Pará, entre os anos de 1835 e 1840, durante o Período Regencial.

Depois da abdicação de Dom Pedro I e enquanto se esperava Dom Pedro II atingir a maioridade, o império brasileiro foi governado por regentes. As causas da revolta foram a grave situação econômica e social da região e a disputa pelo poder na província.

Os principais líderes eram indígenas, negros e pobres, mortos pelas tropas regenciais. Importante pontuar que esse grupo chegou a tomar o poder.

Em Belém, o encontro de Paris com a Amazônia

Dando um salto no tempo, corremos para o fim do século XIX e início do século XX, quando Belém também alçou voos franceses. Ou melhor, foi esmagada por carregamentos culturais marítimos vindos da Europa, a ponto de se transformar num fervedouro cosmopolita, o que lhe rendeu o título de “Paris N’América”.

O período foi chamado de “Belle Époque”, quando a exportação do látex se tornou a principal atividade econômica da cidade.

Nessa “bela época”, ao menos para a reduzida elite local, avanços tecnológicos e culturais da Europa eram absorvidos e ditavam os modos de vida nessa que já chegou a ser uma das três cidades mais importantes do Brasil.

Vale lembrar que as principais heranças arquitetônicas da fase parisiense em Belém incluem edifícios em estilo neoclássico e art nouveau, como o Theatro da Paz e a Casa das Onze Janelas.

O intuito era refletir prosperidade e desenvolvimento urbano – para quem?

Historiadores como o professor Michel Pinho revelam uma cidade que já preconizava a marginalização da maioria da população, formada por indígenas, negros escravizados e os caboclos ribeirinhos.

Também por aqui, a Belle Époque consolidou um modelo de sociedade dita moderna e com luxos que beiravam a extravagância, pautado pela incorporação de elementos da cultura francesa no dia a dia de uma cidade com outro clima, mas que adaptou e deixou marcos arquitetônicos e espaços importantes até hoje para a cultura da cidade.

Religiosidade herdada de Portugal

Mas chegou o momento de falar sobre o que resistiu e resiste nessa que passou de Santa Maria de Belém do Grão-Pará para, simplesmente, Belém – em tempo, vale lembrar que sempre acompanhada do complemento: do Pará.

Um povo resiliente e aguerrido se manteve forte e diverso, enquanto bebia das fortes influências religiosas de Portugal. ]

Isso nos leva à uma manifestação importantíssima que ocorre há 232 anos: o Círio de Nazaré – há quem diga o contrário, afinal, parece ser difícil aceitar o tamanho do Norte, mas é a maior concentração religiosa de pessoas por metro quadrado do mundo.

Círio: fé e cultura  

Em um único dia, o segundo domingo de outubro, 2,5 milhões de pessoas vão às ruas em procissão, em homenagem à Nossa Senhora de Nazaré, no Círio de Nazaré. Sem mencionar os participantes das outras 13 romarias existentes da chamada quadra nazarena, atualmente.

É uma relação tão próxima que, para muitos, Nossa Senhora de Nazaré desceu faz tempo do altar do Glória4 da Basílica, construída em homenagem a ela, para ser simplesmente “Nazinha” ou “Nazica”.

Essa intimidade e aconchego exemplifica muito bem do que é feito o belenense: um calorzinho úmido, típico desse clima tropical. Aliás, o mês 10 do ano, aqui em Belém, é uma mostra considerável dessa verve cultural, social e comportamental.

Se perguntar para moradores de Belém, mesmo os não devotos, a maioria sabe contar a mesma história do início do Círio. Tudo começou com o caboclo Plácido, que por volta de 1.700, encontrou a imagem de Nossa Senhora às margens do rio Murucutu, onde hoje é a avenida Nazaré.

Ele teria levado a imagem para a sua casa, mas, no dia seguinte, ela reaparecia no local onde fora encontrada. Mais uma coisa que parte dos belenenses ama: encantarias – “há de ser mistério, agora e sempre”*.

Pois bem, só se falava nisso na cidade e o local começou a reunir fiéis, comerciantes, tocadores de instrumentos e curiosos. Esse Arraial transformou a manifestação na Festa de Nazaré – sem arranhar a parte religiosa, por favor, mas a fé desse povo reflete exatamente o que Maria, representada naquela imagem, queria, estar nas ruas a receber as gotas de orvalho desse calor humano.

O ‘Natal do Pará’

A romaria do Círio ocorreu pela primeira vez, de maneira oficial, no ano de 1793, e se transformou no que por aqui parte dos católicos chamam, para explicar a importância da data para quem não conhece esse costume, de “o Natal dos paraenses”.

O que acompanha essa grande festividade? Aqui vão algumas referências, porque não, esse texto não vai dar conta de tudo que essa terra é capaz de oferecer, estamos pincelando.

  • Círio Musical, que traz diversos artistas católicos;
  • Festa da Chiquita, evento profano que ocorre após o cortejo da Transladação passar; Arrastão do Círio, uma edição para lá de especial de um dos cortejos de boi mais potentes da região;
  • Auto do Círio, um projeto de extensão que reúne números de teatro, canto, dança e música, criado na maior do Norte, para quem não sabe, a Universidade Federal do Pará (UFPA).

Paixões e cartões postais

Ufa! Depois de outubro, para o belenense, o ano acabou. O Círio anuncia a chegada da época dela, da chuva, já em dezembro – aqui, esse fenômeno é uma personalidade.

Isso abre espaço para falarmos sobre o clima dessa cidade. Se “teu corpo faz calor, é sinal que vai chover”*.

Espirituoso como a gente que vive aqui, o tempo é tão especial que existe o que se chama de inverno amazônico, que ocorre durante o verão no resto do Brasil. Mas Belém é tão surpreendente que, mesmo em julho, pode fazer chover todos ou quase todos os dias.

Com as mudanças climáticas, só uma coisa arrisca deixar de ser poesia: o horário oficial da chuva era sempre duas da tarde.

Agora, não tem mais hora, não. Por isso, uma dica é ter sempre consigo uma sombrinha, que aqui usamos tanto para proteger do sol quanto da chuva. E a gente garante: “depois que a chuva passar vão cantar carimbó pra você”*.

(Foto: Lorena Fadul)

Futebol em Belém: time perdedor é ‘enterrado’

A temperatura elevada nos leva a outro assunto que não tem hora para o belenense: o esporte. Apaixonados como todo bom brasileiro, em Belém reinam leões  (Clube do Remo), bichos papões (Paysandu) e águias (Tuna Luso).

Se você acha que a paixão pelo futebol é exclusiva da seleção brasileira, precisa assistir a um RexPa – dizem que é o clássico com mais jogos disputados do mundo, Remo e Paysandu colocando em risco amizades duradouras.

Do estádio para dentro, o negócio é sério. Mas, cruzaram os portões, a molecagem ganha vida e tem time que depois de perder é literalmente enterrado.

O Ver-o-Peso, o maior mercado a céu aberto da América Latina, não cansa de ser telespectador desses velórios. “São mais de 20 anos de brincadeira aqui. Somos rivais dentro do campo, fora somos trabalhadores, então a encarnação é sadia.

Fazemos isso há muitos anos e é um prazer reunir a galera. Fico muito feliz de poder estar aqui e só tenho a comemorar ver a galera toda reunida”, conta Manoel Ribeiro, de 65 anos, mais conhecido como “Didi do Ver-o-Peso”, durante o enterro do Paysandu, após uma derrota.

Culinária paraense

Já que chegamos à feira, vamos falar de herança alimentar? Uma das maiores deixadas pelos indígenas.

“Originalmente, em Belém, você tem três pontos de ocupação, a aldeia Parauaçú, onde fica a Igreja do Carmo, outra aldeia Parauaçú, onde é o Forte do Presépio, e a aldeia Caeté, onde é a Capela de Santo Antônio. Essas três três aldeias manejavam frutos muito importantes para a gente até hoje, como açaí e a castanha do Pará. E nós misturamos tudo, as influências portuguesas com as indígenas. A gente se apropriou desses sabores que hoje são a nossa marca. Todas essas tradições transformam Belém numa capital gastronômica muito importante para o mundo”, destaca o historiador Michel Pinho.

Pupunha cozida, manga madura, peixe fresco, açaí do grosso. Se você não começou a salivar, tem alguma coisa errada, mas acalma o coração, um episódio detalhado sobre esse assunto importantíssimo você vai ver mais para frente.

Descentralização, novos territórios na cidade de Belém 

Concentrando em Belém, são mais de 1,3 milhão de habitantes. Você talvez encontre um número maior: dois milhões, mas neste cálculo é considerada a Região Metropolitana, que abrange os municípios de Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Bárbara do Pará, Santa Izabel do Pará, Castanhal e Barcarena.

Mas a capital se divide em cerca de 70 bairros, e muito da densidade populacional se concentra nos bairros periféricos, por estarem nas áreas de expansão da cidade.

O mais populoso deles é o Guamá (onde está a Universidade Federal do Pará, que vai sediar a Cúpula dos Povos em novembro), com mais de 80 mil moradores segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/2022).

Em seguida, estão os bairros do Tapanã, Pedreira, Marco e Marambaia, todos abrigando no mínimo 60 mil pessoas. Da imagem contada a partir de uma ótica central, Belém expandiu, e vem sendo obrigada a dar espaço para as narrativas desses bairros.

Potente e marcado por grande diversidade social, racial e de gênero, esse processo levou ao crescimento de demandas que reivindicam uma nova luz sobre a cidade.

O crescimento da cultura musical do tecnobrega, por exemplo, impulsionou esse movimento e fez reverberar o som da periferia para além dos muros do que é considerado “histórico”. Afinal, como resistir à música que “é só no charminho”?*

Esse processo de valorização do pertencimento passa por diversas camadas, mas, especialmente, pela ocupação de espaços públicos e pela valorização do patrimônio histórico.

“A valorização e a apropriação dos espaços culturais são mais do que fundamentais para a preservação da memória coletiva de uma cidade.

Quando a população se reconhece nesses lugares, ela passa a enxergá-los como parte da sua própria identidade, e é esse vínculo afetivo que mantém viva a história, não como algo distante ou que já foi esquecido, mas como algo presente no cotidiano”, afirma a jovem Julie Camarão, de 22 anos, arquiteta e urbanista.

Memória e educação patrimonial

Assim como o professor Michel Pinho, já em uma vertente de outra geração, ela é criadora de conteúdo voltado para a educação patrimonial. Para Julie e para muitos belenenses, ocupar e se apropriar é a chave para a preservação.

A memória materializada a que ela se referiu quando conversou com o Amazônia Vox salta dos prédios e guarda tradições. Já faz um tempo que nos posicionamos como fontes de conhecimento científico ou saberes tradicionais, muito além de uma cultura exótica ou de um sumário restrito à fartura que somos em uma mesa – sim, nós somos.

Com a altivez necessária, mostramos que somos “estrelinhas tão cintilantes que é pra todo mundo ver”*.

“Filha da terra, da encantaria, da nossa floresta”*, Belém seguirá a conectar as heranças da Belle Époque às histórias que saem das matas e disputam espaço ao desembarcar em solo firme, passar pela feira e subir ao palco do Theatro da Paz.

A gente encerra esse episódio te contando que essa cidade das mangueiras, mais um apelido carinhoso devido aos corredores por onde ela começou a escoar desenvolvimento, é muito mais do que um ponto no mapa.

É um convite a enxergar com outros olhos essas tantas Amazônias. Estão preparados? Essa é só a primeira parada da nossa série COP 30: Destino, Belém.

Notas:

1- Pindorama, no contexto brasileiro, é um nome de origem Tupi que significa “terra das palmeiras”. Era o nome pelo qual os povos indígenas se referiam à região antes da chegada dos europeus, especialmente o Brasil. 

2- Um dos maiores nomes da cultura paraense do Século XX, Ruy Guilherme Paranatinga Barata Poeta foi compositor, advogado, historiador, professor e político. Nasceu em Santarém, no oeste do Pará, em 25 de junho de 1920, e faleceu em 23 de abril de 1990, aos 69 anos, em São Paulo. Teve várias músicas de sucesso gravadas pela cantora Fafá de Belém como: “Foi Assim”, “Pauapixuna” e “Esse rio é minha rua”.

Saiba mais em: 

https://periodicos.ufpa.br/index.php/nra/article/view/12760/

https://ufpa.br/album-fisico-com-cancoes-de-paulo-andre-e-ruy-barata-e-lancado-com-apoio-da-ufpa/ 

3- Saiba mais sobre a Revolta da Cabanagem em:

Memórias da Cabanagem

https://www.secult.pa.gov.br/downloads/LIVRO_CABANAGEM_DIGITAL_01.PDF
Cabanagem, Revolução Amazônica (1835-1840)

https://flcmf.org.br/wp-content/uploads/2022/06/Rebelioes-Populares-Cabanagem-revolucao-amazonica-1835-1840.pdf 

4- O Glória é o altar-mor da Basílica de Nazaré, uma redoma de cristal anti-projétil onde fica a imagem original de Nossa Senhora. A descida da escultura desse altar ocorre desde 1992 e é feita duas vezes ao ano; uma delas durante o Círio, para ser vista mais de perto pelos fiéis.

Este texto fez referência a várias letras de músicas regionais. Confira o glossário abaixo:

  • *1 – Flor do Grão Pará: Lucinha Bastos
  • *2 – Eu sou de lá: Fafá de Belém
  • *3 – Tô Belém: Nilson Chaves
  • *4 – No meio do pitiú: Dona Onete
  • *5 – Só no charminho: Gang do Eletro
  • *6 – Iniciais BP: Arraial do Pavulagem
  • *7 – Mulher da Amazônia: Gaby Amarantos (part. Zaynara)

Este artigo foi publicado originalmente no Amazônia Vox, um portal de notícias sobre a Amazônia reunindo informações, diretório de fontes locais e de profissionais de jornalismo e produção de conteúdo da região, e é republicado aqui sob licença.

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