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Alerta em forma de ‘beat’ dançante: Jon Batiste lança música sobre mudanças climáticas 20 anos após furacão Katrina; veja o clip

Jon Batiste canta 'Petrichor', um chamado pela ação contra as mudanças climáticas

Jon Batiste canta 'Petrichor', um chamado pela ação contra a crise ambiental (reprodução YouTube / Covering Climate Now)

Integrante de uma dinastia de músicos e ativistas, Jon Batiste usa a arte como instrumento de conscientização e mobilização ao escolher as mudanças climáticas como tema de uma das músicas de seu novo álbum; confira o clip.

Vinte anos depois que o Furacão Katrina devastou sua cidade natal, Nova Orleans, o músico e ativista americano Jon Batiste lançou uma nova música sobre mudanças climáticas, implorando às pessoas que ajam, levantem a voz, insistam e “votem nas pessoas certas”.

“Como artista, é preciso assumir uma posição”, disse a estrela global em entrevista na terça-feira (25) à coalizão internacional de jornalismo climático Covering Climate Now.

“É preciso unir as pessoas. O poder dos cidadãos é uma forma de transformar o mundo.”

“[A canção] é um alerta em forma de ‘beat’ dançante,” disse Batiste sobre a nova música, intitulada Petrichor, que faz parte de seu novo álbum, Big Money.

O compositor, vencedor de um Oscar e detentor de vários prêmios Grammy tocou Petrichor junto com sua banda durante a entrevista.

https://youtu.be/3JkWmyusOEQ

O nome da música sobre mudanças climáticas: a chuva e o equilíbrio do planeta

A palavra “petrichor” refere-se “ao cheiro da terra depois da chuva”, disse Batiste.

“Após muito tempo sem chuva o solo fica quente e seco, e então [com a chuva} o equilíbrio volta.

Neste momento estamos desequilibrados… os sistemas naturais que sustentam a vida do planeta estão ameaçados.”

Repetindo várias vezes o refrão “eles estão queimando o planeta”,  a música Petrichor não ameniza os perigos das mudanças climáticas. Mas Batiste se mostra otimista.

“Quando você faz uma música, você quer inspirar as pessoas, e também demonstrar o que elas podem fazer. E as coisas que podemos fazer são realmente muito simples.

Como a tecnologia de energia limpa, para a qual podemos mudar neste momento. Podemos fazer com que o mundo seja movido por coisas que não o destroem.”

“Há uma manta de poluição ao redor da Terra”, acrescentou Batiste, referindo-se aos gases que aquecem o planeta liberados pela queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão e pelo corte de florestas.

“Os verões estão mais quentes, tudo está quente, os padrões climáticos estão mudando. Ninguém quer isso. E sabemos qual é a solução.

Há uma esmagadora maioria de pessoas que acreditam em energia limpa… e elas estão mudando para essas novas tecnologias.”

Projeto 89 por cento: mundo espera que governos ajam

O iornal britânico The Guardian e outros parceiros da coalizão de jornalismo climático Covering Climate Now lançaram no início deste ano o Projeto 89 por cento, em referência ao fato de que 80 a 89% das pessoas do mundo querem que seus governos tomem uma ação climática mais forte, de acordo com diversos estudos científicos.

Batiste confirmou que faz parte daquela maioria climática de 89% –, assim como sua mãe, Katherine Batiste, que fez trabalhos ambientais para o governo dos EUA na Louisiana durante a maior parte da infância de Jon.

Ela estava ao lado dele durante a entrevista para a Covering Climate Now.

“Acreditamos na ciência,” Katherine Batiste disse. “Lá vai você,” Jon concordou, sorrindo. “Você ouviu.”

Jon Batiste: dinastia de músicos e ativistas

Muitos sabem que Jon Batiste vem de uma família musical histórica em Nova Orleans –, seu tio Lionel Batiste foi um dos pilares da Treme Brass Band, e seu primo Russell Batiste Jr era um célebre baterista de jazz. Mas sua família também é de ativistas.

Seu avô materno, David Gauthier, era líder do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios da Louisiana e apoiou a greve dos trabalhadores do saneamento em 1968, que atraiu Martin Luther King Jr para Memphis – onde o líder acabou assassinado.

Entre outras causas, Jon tem atuado nos protestos Black Lives Matter, uma postura que sua mãe via como uma continuação do legado de seu pai. Ele acreditava em defender o que é certo”, disse Katherine Batiste, “e isso meio que se transferiu para mim, e eu passei para Jon”.

“Fui criado por pessoas incríveis”, disse Jon, que passou sete anos como líder de banda no The Late Show With Stephen Colbert, até 2022.

Eu vi meu avô, meu pai, todas essas pessoas que estavam no meu círculo imediato trabalhando e não desanimando. O segredo é continuar, não olhar para só para si mesmo ou ficar lamentando a situação, mas encontrar uma maneira de fazer algo com o que você tem e na posição em que você está.”

O álbum ‘Big Money’: clima e desigualdades sociais

A música Petrichor ilustra os temas maiores de seu álbum Big Money, acrescentou, porque a busca por dinheiro a todo custo está colocando o clima em risco. E não só o clima.

“Estamos no momento mais rico da história da humanidade, disse ele. “Recursos não faltam. No entanto, existem pessoas que não têm água potável, alimentos limpos e cuidados de saúde básicos.

“E isso está afetando desproporcionalmente aqueles em comunidades de baixa renda, pessoas de cor. [Quando] a maior parte da riqueza está nas mãos de apenas uma pequena percentagem de pessoas, irá inevitavelmente corromper as políticas que podem mudar esse estado de coisas.

É para isso que a música é realmente voltada. Há um cobertor de poluição ao redor do planeta, mas é o resultado de um cobertor de poluição ao redor de nossas almas.”

“É apropriado estarmos aqui neste local de culto, disse” Batiste sobre o cenário da entrevista – a  New York Middle’s Church, cujo lema é “Just love” – porque “como disse o Papa Francisco, a Terra é a nossa casa comum, um planeta sagrado, e temos que assumir nossa responsabilidade como guardiães do planeta.”

Jon Batiste e o furacão Katrina

Quando o furacão Katrina atingiu Nova Orleans, em 29 de agosto de 2005, a tempestade e a ruptura dos diques de proteção deixaram 80% da cidade debaixo d’água, mataram pelo menos 1,8 mil pessoas e levaram muitas outras a deixar a cidade para nunca mais voltar.

Enquanto os que estavam fora vivenciavam a tempestade na televisão, como um evento de mídia, a família Batiste viveu o que aconteceu.

Junto com sua mãe, pai, irmã e avó, Jon foi para o Texas antes da tempestade. Mas a casa da família onde Katherine Batiste cresceu, no bairro de Carrollton, em Nova Orleans, foi destruída, disse ela.

“Todas as minhas irmãs, irmãos, a minha família, suas casas foram destruídas… Perderam tudo … Foi devastador.”

“Nova Orleans, para mim, é a alma da América,” disse Jon Batiste, acrescentando que o que ocorreu na cidade “alertou” para o fato de que desastres provocados pelo clima podem acontecer em qualquer lugar, e há muitos lugares onde isso tem acontecido.

Mudanças climáticas e música: ritmo e poesia para apontar soluções

O papel do artista diante de tal perigo e injustiça é apontar soluções com ritmo e poesia“, disse Batiste.

“Como [o baterista de jazz] Art Blakey disse, ‘a música pode lavar a poeira da vida cotidiana’ e fazer com que a apatia de alguém se transforme em cuidado, em ação.

Como artista, você pode se conectar diretamente às pessoas – entretendo-as, mas motivando-as a tomarem  consciência de que têm algo a dizer, e que isso é significativo e poderoso.

Elas vão cantá-la no show, e sair de lá com a mensagem no coração. Vão entrar na cabine de votação e agir. Vão participar nas comunidades e agir, e vão viver suas vidas de forma alinhadas com ela. E isso é contagioso. Passa para a próxima pessoa, e para a próxima pessoa, para mais outra pessoa, e logo é a realidade coletiva.”

Embora a versão de Petrichor no álbum Big Money seja uma espécie de ‘tapper’ com 2 minutos e 38 segundos, a versão que Batiste tocou com sua banda uma semana antes no Central Park de Nova York foi de 11 minutos, eletrizando a multidão.

Batiste, que acaba de iniciar uma turnê com 50 shows nos EUA, disse que planeja lançar um álbum ao vivo que contará com uma versão igualmente estendida de Petrichor, extraída das próximas apresentações no Grand Ole Opry, em Nashville, e no Red Rocks Amphitheatre, no Colorado.

“É importante quando você está tentando mudando o mundo se divertir enquanto faz isso,” disse ele.

“Eu realmente quero que as pessoas continuem dançando e permaneçam otimistas – mas saibam que temos que nos mobilizar”


Este artigo faz parte do Projeto 89 por Cento da coalizão Covering Climate Now e foi publicado originalmente no The Guardian

Mark Hertsgaard é jornalista especializado em meio ambiente do jornal americano The Nation, co-fundador e diretor executivo da Covering Climate Now e autor de vários livros sobre mudança climática.

A Covering Climate Now é uma coalizão global de veículos de imprensa dedicados a aumentar e aprimorar a cobertura sobre as mudanças climáticas. O MediaTalks integra a coalizão. 

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