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Estados Unidos

Pentágono anuncia ‘nova geração’ de imprensa credenciada, dominada por influencers e veículos de extrema direita

Lista vem uma semana após veículos como NYT, CNN e até a Fox News devolverem seus crachás por discordarem de políticas vistas como violações da liberdade de imprensa

Vista aérea do Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA

Foto: X



O desfecho da crise que levou órgãos de imprensa tradicionais e de alcance nacional e global a devolverem seus crachás por discordarem das novas regras restritivas no Pentágono foi uma guinada para a direita e extrema direita.


Uma semana após jornalistas dos principais órgãos de imprensa dos EUA renunciarem às suas credenciais para a cobertura do Pentágono por discordarem de regras restritivas, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos (antigo Departamento de Defesa) anunciou a lista da chamada “nova geração do press corps”, formada majoritariamente por veículos e redes de direita e extrema direita.

O porta-voz da instituição, Sean Parnell, publicou no X que 60 jornalistas ganharam crachás para a cobertura regular, alguns com posições fixas dentro do órgão (estúdios ou escrivaninhas) após assinarem a nova política imposta pelo governo Donald Trump.

Alguns dos veículos confirmados são Tim Pool’s Timcast, Gateway Pundit, Post Millennial, Human Events, National Pulse, Turning Point USA (a organização fundada por Charlie Kirk) e uma newsletter do Substack chamada Washington Reporter.

Apenas 26 profissionais de 18 veículos assinaram a nova política e permanecerão credenciados, incluindo a rede de extrema direita One America News.

O que disse o Pentágono sobre a nova lista de imprensa

O porta-voz do Departamento de Guerra afirmou que os novos credenciados representam “um amplo espectro de novos veículos de mídia e jornalistas independentes”.

Parnell afirmou que o impacto deles sobre o povo americano é mais “eficaz e equilibrado” do que o dos jornalistas que preferiram se “auto-deportar” do Pentágono. E completou, no estilo de narrativa anti-imprensa do governo Trump:

“Os americanos abandonaram de forma vasta consumir informações pelas lentes de ativistas disfarçados de jornalistas na mídia tradicional.”.

Mas a lista causou controvérsia e reações negativas.

O jornalista do Washington Post Drew Harwell afirmou que os novos credenciados são blogueiros e influenciadores de direita conhecidos por uma abordagem leve do governo Trump.

Tom Jones, do Instituto Poynter, foi mais duro e disse em um artigo de opinião que o fato de eles terem concordado em assinar a política de cobertura leva a um questionamento de suas habilidades jornalísticas.

O que mudou nas regras de cobertura do Pentágono

Em maio, o governo Trump iniciou restrições ao trabalho e a circulação de jornalistas no Pentágono, que é dirigido por Pete Hegseth, um ex-âncora da rede Fox News, apoiadora do presidente.

Naquele momento, as regras incluíam a limitação de circulação em áreas comuns e impunham escoltas obrigatórias.

No fim de setembro, o Pentágono anunciou mudanças mais radicais. Uma delas previa que o Departamento de Guerra aprove previamente a publicação de qualquer material jornalístico produzido pelos correspondentes credenciados, contendo informações sigilosas ou não.

As credenciais de todos os jornalistas seriam substituídas por novas e o jornalista que não assinasse um documento concordando com as novas regras estaria sob o risco de perder acesso ao Pentágono.

Depois, no início de outubro, um novo documento com orientações foi divulgado. Desta vez, o órgão voltou atrás sobre a necessidade de concordar com as regras, mas ainda exigiu que os profissionais assinassem um documento dizendo que entendiam as normas.

Além disso, o novo documento do governo informou que a área de imprensa dentro do Pentágono seria mudada de lugar.  Os jornalistas da Associação de Imprensa do Pentágono afirmaram que a mudança os deixaria isolados.

Reação em bloco contra as novas regras até entre apoiadores de Trump

Cerca de 40 veículos que cobriam o Pentágono se recusaram a assinar a nova política de cobertura imposta pelo governo de Donald Trump.

A lista incluiu até mesmo a Fox News, alinhada de Trump e de onde Hegseth saiu para assumir a Secretaria Nacional de Guerra, além dos principais nomes da imprensa americana como CNN, New York Times e Washigton Post.

Eles alegaram que não assinariam o documento porque ele fere os direitos garantidos pela primeira emenda da Constituição, que trata de liberdade de expressão e de imprensa.

Na ocasião, Pete Hegseth compartilhou o post no X da revista The Atlantic, do The New York Times e do Washington Post com um emoji de uma mão dando tchau.

No dia 16 de outubro,  prazo final para a assinatura, os jornalistas que até então eram credenciados entregaram os crachás e  deixaram o prédio da instituição em bloco levando caixas e sacolas com objetos pessoais que utilizavam em suas mesas ou salas fixas. 

Em seu artigo sobre a nova lista de credenciados para a cobertura do Pentágono, Tim Jones, do Instituto Poynter, observa que o fato de não estarem mais dentro do prédio do órgão não significa que veículos como o New York Times, o Washington Post e as redes nacionais de TV irão parar de dar notícias sobre o Departamento de Defesa.

“Mas, sem dúvida, o trabalho fica um pouco mais difíceis em termos de acesso a pessoas relevantes para a cobertura”, avaliou.

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