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Eurovison em guerra

Islândia é o quinto país a boicotar Eurovison em protesto contra participação de Israel

Holanda, Eslovênia, Irlanda e Espanha já tinham anunciado que não estarão no festival em 2026

Yuval Raphael, cantora de Israel, em apresentação no Eurovision 2025

Yuval Raphael, a representante de Israel no Eurovision 2025, ficou em segundo lugar com passiva votação popular, provocando suspeitas de campanhas para mobilizar público (foto: divulgação Eurovision)



As pressões sobre a organização do Eurovision 2026 para impedir a presença de Israel não foram suficientes para que o país fosse banido, mas o boicote de cinco nações participantes de um dos mais importantes festivais musicais do mundo mostra que a crise está longe do fim.


A emissora pública da Islândia, RÚV, anunciou que também não participará no Eurovision 2026, em protesto contra a presença de Israel no festival de música.

É o quinto país a boicotar o evento, seguindo os passos da Espanha, Irlanda, Holanda e Eslovênia. As emissoras públicas das quatro nações haviam confirmado o boicote na semana passada, imediatamente após a decisão da União Europeia de Radiodifusão (EBU) de manter Israel na disputa.

“Dado o debate público neste país, (…) é claro que nem a alegria nem a paz prevalecerão com a participação da RÚV no Festival Eurovision”, afirmou a emissora em comunicado nesta quarta-feira (10) aprofundando a crise política em torno do evento.

A próxima edição será na Áustria,  que venceu o Eurovision 2025. Embora não faça parte da Europa, Israel participa do Eurovision desde 1973 por ser membro da EBU, assim como a Austrália.

Controvérsia sobre Israel no Eurovision

O Eurovision é organizado pela EBU, formada por emissoras públicas de cada país, financiadas ou controladas pelos Estados membros. Assim, suas decisões refletem, direta ou indiretamente, as posições dos governos que representam.

A participação de Israel no Eurovision 2026 não chegou a ser objeto de votação direta na Assembleia Geral da entidade, na semana passada.

Os membros votaram sobre as medidas adotadas pelos organizadores do festival e anunciadas há um mês para evitar interferências governamentais nos resultados, um dos motivos das pressões contra Israel.

Além da crise humanitária em Gaza, emissoras europeias denunciaram que a conquista do segundo lugar pela cantora israelense Yuval Raphael em 2025 foi resultado de uma ação organizada para turbinar votos do público, compensando notas mais baixas dos jurados profissionais.

Em um comunicado, a EBU, que organiza o Eurovision, disse que os membros demonstraram “claro apoio às reformas para reforçar a confiança e proteger a neutralidade”.

No entanto, em 2022 a Rússia foi banida, após a invasão da Ucrânia. E a reação de cinco países, dentre eles a Espanha, considerada um dos grandes participantes e com importante contribuição financeira, demonstra que a tentativa de neutralidade fica cada vez mais difícil.

Após a confirmação de Israel, a RTE emitiu uma nota afirmando considerar que a participação de Israel é injusta, dada a terrível perda de vidas em Gaza e a crise humanitária que continua a colocar em risco a vida de tantos civis.”

Israel no Eurovision 2025 e as acusações de manipulação

A suspeita de interferência de Israel nos resultados foi outro motivo alegado pelas emissoras contrárias à participação do país.

Em 2025, a cantora israelense Yuval Raphael conquistou o segundo lugar com a canção “New Day Will Rise”, recebendo o maior número de votos populares.

Antes, a letra da música teve que ser mudada pois continha conteúdo considerando político, o que não é permitido.

O resultado foi contestado na época por diversas emissoras europeias, que acusaram o governo israelense de ter mobilizado campanhas coordenadas para influenciar o voto por telefone. Israel nunca comentou as acusações.

As novas regras da EBU para o Eurovision 2026

Em resposta às críticas, a EBU anunciou há duas semanas mudanças significativas nas regras de votação, a partir do próximo festival.

Entre elas estão a possibilidade de realização de auditorias independentes, em caso de suspeita de irregularidades.

O peso das notas dos jurados técnicos em relação ao voto popular será aumentado e campanhas governamentais ligadas às canções serão proibidas.

Essas medidas foram apresentadas não só para acalmar os ânimos, mas como forma de preservar a integridade do concurso e evitar que episódios semelhantes ao de 2025 se repitam.

Mas a desistência de cinco emissoras, que não apenas não enviarão representantes mas também não devem transmitir a final, mostram que o esforço não convenceu a todos.

O que disse Israel

Autoridades israelenses acusaram países europeus de tentarem transformar o festival em instrumento diplomático, enquanto Yuval Raphael, protagonista da polêmica de 2025, declarou recentemente que “a música deve unir, não dividir”.

O presidente de Israel, Isaac Herzog, disse na rede social X após a confirmação da participação do país:

“Israel merece ser representado em todos os palcos ao redor do mundo, uma causa com a qual estou total e ativamente comprometido.

Espero que a competição continue a defender a cultura, a música, a amizade entre nações e a compreensão cultural transfronteiriça.”

A história do Eurovision ‘apolítico’

O Eurovision Song Contest é um dos maiores festivais de música do mundo, realizado anualmente desde 1956.  Cada país participante envia uma canção inédita para competir, escolhida em festivais internos realizados pelas emissoras públicas.

O vencedor geral é escolhido por meio de uma combinação de votos de júris nacionais e do público. As semifinais e a grande final são megashows transmitidos para todo o mundo, assistidos por milhões de espectadores.

As regras da União Europeia de Radiodifusão (EBU) proíbem expressamente mensagens políticas durante o concurso.

Um exemplo claro ocorreu em 2023, quando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky pediu para enviar uma mensagem em vídeo durante a final. A EBU recusou o pedido, afirmando que o Eurovision não pode ser usado como plataforma política.

Curiosamente, naquele mesmo ano, a Ucrânia venceu com uma canção que trazia alusões à resistência na guerra contra a Rússia, mostrando como o festival, mesmo tentando manter neutralidade, acaba refletindo o contexto político vivido pelos países participantes.


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