Duas semanas após o incêndio mais letal da história de Hong Kong, – que atingiu um condomínio residencial no dia 26 de novembro, deixando 160 mortos e 31 desaparecidos – autoridades chinesas repreendem a imprensa local e estrangeira por realizar uma cobertura crítica dos fatos, o que eles chamam de “criar problemas”.
A expressão mais representativa desta repressão é o caso do comentarista Wong Kwok-ngon, conhecido como Wong On-yin, que foi detido pela polícia acusado de publicar vídeos sobre o incêndio com o objetivo de “provocar ódio contra o governo” e de “sedição”.
Além do caso do comentarista, a repressão das autoridades locais contra jornalistas tem se mostrado de outras maneiras. No mesmo dia em que Wong Kwok-ngon foi preso, o Gabinete de Salvaguarda da Segurança Nacional de Hong Kong convocou jornalistas estrangeiros para alertá-los sobre a cobertura do caso.
As autoridades disseram que eles estariam espalhando informações falsas e “ultrapassando limites”. Os profissionais foram avisados que não haveria tolerância para quem “criasse problemas”.
Entre os veículos que estiveram na reunião estão Agence France-Presse, Financial Times, The New York Times, Associated Press, Bloomberg e The Wall Street Journal. Os jornalistas presentes relataram que não houve espaço para perguntas e que os oficiais não deram exemplos de desinformação que teria sido publicada.
Posteriormente, o órgão publicou um pronunciamento sobre isso que continha um aviso: “Não diga que não avisamos”.
A atitude repressiva das autoridades acerca do caso do enorme incêndio segue o roteiro habitual do que se vê na região sob controle da China, mas levanta críticas de especialistas.
O CPJ (Comitê de Proteção a Jornalistas) acompanha os casos de ataque à liberdade de imprensa na cobertura do incêndio em Hong Kong com preocupação. “A escalada de intimidação para silenciar a imprensa é terrível e inaceitável”, disse Beh Lih Yi, diretora do CPJ para a Ásia-Pacífico.
“É vergonhoso que as autoridades em Pequim e Hong Kong estejam usando a segurança nacional como pretexto para assediar jornalistas e silenciar pedidos de responsabilização justamente quando o povo de Hong Kong está de luto por uma tragédia.”
O caso de Wong
O comentarista de 71 anos foi detido no sábado (6). Segundo a polícia, ele é suspeito de “prejudicar a investigação de delitos que colocam em risco a segurança nacional” por supostamente divulgar informações sigilosas em um vídeo publicado no Youtube.
Ele também enfrenta a acusação de “praticar um ato com intenção sediciosa”.
Wong foi ouvido por um tribunal na terça-feira (9) e continua preso sem direito a fiança, aguardando julgamento. Se condenado, ele pode ficar até sete anos preso.
A polícia também apreendeu 15 dispositivos do comentarista, incluindo computador e celular.
Segundo a organização Hong Kong Free Press, Wong é a primeira pessoa a ser acusada do crime de divulgar informações que colocam em risco a segurança nacional. Esta tipificação foi incluída na Lei de Segurança Nacional em maio deste ano e ainda não havia sido usada.
Wong participaria de uma conferência de imprensa organizada pela sociedade civil sobre o caso do incêndio. No entanto, o evento foi cancelado quando outros participantes foram detidos sob acusações similares às enfrentadas posteriormente por Wong.
Histórico de repressão em Hong Kong
A repressão que circunda a cobertura do incêndio chama atenção internacional pois está relacionada a uma tragédia com ampla repercussão, mas não é inédita.
A China consistentemente figura entre os países que mais prendem jornalistas. Um relatório da IFJ (Federação internacional de Jornalistas) aponta que há 143 profissionais de mídia atrás das grades no país.
A organização RSF (Repórteres Sem Fronteiras) aponta que antigamente, Hong Kong, que é um território chinês com certa autonomia, era considerado um oásis para a liberdade de imprensa na região. No entanto, desde 2020 o cerco vem se fechando.
Foi neste ano que Pequim adotou uma Lei de Segurança Nacional que silencia vozes independentes e que, desde então, já resultou no fechamento de diversos veículos, na censura a canais públicos e em uma onda de prisões de jornalistas e assédio contra profissionais de imprensa.
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