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Cultura pop

Oito séculos de Papai Noel: uma viagem visual pela história do símbolo do Natal

Projeto The Public Domain Review recuperou imagens do Papai Noel em representações que incluem anúncios comerciais e até propaganda de guerra

Papai Noel origem Natal imagem de Thomas Nest


Papai Noel com arma em punho durante a Segunda Guerra Mundial é uma das representações do Bom Velhinho descobertas por pesquisadores em arquivos históricos para entender as origens da figura mais popular do Natal.


Muitos atribuem a atual figura de Papai Noel à Coca-Cola, que em 1931 lançou uma campanha publicitária estrelada por um velhinho sorridente de barbas branca e roupa vermelha, supostamente inspirado em São Nicolau – mas sua origem vem de muito mais longe.

Primeira propaganda da Coca Cola com Papai-Noel em 1930.
Primeira propaganda da Coca-Cola com Papai Noel

Entre o santo caridoso que viveu no século IV e o bom velhinho atual, o personagem foi muitas vezes representado de forma parecida com a imagem popularizada pela marca de refrigerantes, até mesmo para outras marcas comerciais.

Mas nem sempre com as mesmas cores nem a mesma pureza infantil, aparecendo até armado em propaganda de guerra dos EUA.

O projeto sem fins lucrativos The Public Domain Review, que há mais de dez anos se dedica a resgatar imagens da história da arte e da literatura que caíram em domínio público, fez um levantamento da figura e da “persona” Papai Noel, identificando suas primeiras origens no século XIII e acompanhando a evolução ao longo do tempo.

Século XIII: na Holanda, a origem de Santa Claus 

Segundo o The Public Domain Review, o nome Santa Claus, como Papai Noel é conhecido na língua inglesa, tem suas raízes no nome holandês informal para São Nicolau, Sinterklaas (uma abreviação de Sint Nikolaas).

São Nicolau, que teria nascido na Turquia e morrido em Bari, era um bispo conhecido por dar presentes secretos e colocar moedas nos sapatos deixados para ele. Mas a história mostra que a inspiração do Papai Noel desenhado por Haddon Sundblom para a Coca-Cola provavelmente não foi diretamente o santo.

São Nicolau de Mira salva três inocentes da morte, quadro do pintor Ilya Repin
São Nicolau de Mira salva três inocentes da morte, retratado pelo pintor russo Ilya Repin (Domínio público, via Wikimedia Commons , CC BY)

A adaptação holandesa tem muitas semelhanças com o Papai Noel moderno. De acordo com a lenda, Sinterklaas carregava um bastão, cavalgava sobre os telhados montando um enorme cavalo branco e tinha ajudantes travessos que escutavam nas chaminés para descobrir se as crianças estavam sendo boas ou más.

A noite de São Nicolau, de Jan Steen, circa 1660

Este quadro do pintor Jan Steen, que está no Rijksmuseum de Amsterdã, não mostra Sinterklaas “em pessoa”, mas retrata a menina que acaba de receber presentes por ter se comportado bem, enquanto seu irmão está com o sapato vazio. 

Uma mulher com outra criança no colo aponta para a chaminé de onde o bom velhinho teria vindo.

Todas essas características também o ligam à lenda de Odin, um deus que era adorado entre os povos germânicos no norte e oeste da Europa antes da cristianização, segundo o guia visual do The Public Domain Review.

Embora na Europa a festa de São Nicolau, no dia 6 de dezembro, tenha sido muito popular durante a Idade Média, após a Reforma religiosa no século XVI a celebração desapareceu na maioria dos países protestantes.

Uma das exceções é a Holanda, onde o culto ao Sinterklaas sobreviveu até os dias de hoje. Grandes celebrações são feitas em várias cidades para recepcionar o personagem, que muitos holandeses fazem questão de dizer que não é Papai Noel.

Foto: Wikimedia
Século 17: O Pai Natal inglês 

Outra importante influência para a imagem do Papai Noel foi Father Christmas (Pai Natal, também conhecido como Velho Pai Natal e Senhor Natal),  personagem tradicional do folclore inglês.

Ele normalmente representava o espírito de bom humor no Natal, mas não era associado a crianças ou a trazer presentes.

Acredita-se que os primeiros exemplos ingleses da personificação do Natal venham de uma canção do século XV que se refere a um “Sire Christmas”.

O livro The Examination and Tryal of Father Christmas (1686), de Josiah King, publicado logo após o Natal ter sido restabelecido como um dia santo na Inglaterra depois de ter sido banido como um símbolo de “superstição católica e auto-indulgência ímpia”, traz uma ilustração do personagem.

The Examination and Tryal of Father Christmas
Reprodução

Mesmo sem os elementos da personalidade do atual Papai Noel, os trajes e a barba lembram mais figura contemporânea do que o São Nicolau das imagens sacras.

1810: Papai Noel cruza o Atlântico 

Embora a costa leste da América estivesse cheia de colonos holandeses, apenas no início do Século XIX a figura de “Sinterklaas” cruzou o Atlântico e deu origem ao Papai Noel americanizado, bem antes de a Coca-Cola criar sua campanha.

Após a Guerra Revolucionária, a cidade de Nova York, já fortemente influenciada pelos holandeses (anteriormente chamada de Nova Amsterdã), viu uma nova onda de interesse nos costumes holandeses e, com eles, São Nicolau.

Em 1804, John Pintard, um influente patriota e antiquário, fundou a Sociedade Histórica de Nova York e estabeleceu São Nicolau como santo padroeiro da organização e da cidade.

Em 6 de dezembro de 1810, a Sociedade ofereceu seu primeiro jantar de aniversário de São Nicolau. Pintard contratou o artista Alexander Anderson para desenhar uma imagem do santo, a ser entregue no jantar.

No retrato, ele ainda era mostrado como uma figura religiosa, mas também estava claramente depositando presentes em meias ao lado da lareira, ato associado a recompensar a bondade das crianças.

Ainda que o “dia de São Nicolau” nunca tenha decolado da maneira que Pintard queria, a imagem de “Sancte Claus” de Anderson ficou famosa.

St. Nicholas by John Pintard Dec. 6th. A.D. 343*1810
St. Nicholas. Dec. 6th. A.D. 343
*1810 (Wikimedia Commons)

Um ano antes da festa,  o autor Washington Irving havia escrito sobre o Papai Noel em sua ficção satírica Knickerbocker’s History of New York , descrevendo um alegre personagem em oposição ao santo bispo do passado -voando em um trenó puxado por renas e entregando presentes pelas chaminés.

‘A Night Before Christmas’

O evento seguinte que ajudou a firmar a imagem do Papai Noel foi o poema de 1822 intitulado A Visit from St. Nicholas , escrito por Clement Moore, mais tarde conhecido como The Night Before Christmas .

Moore baseou-se na descrição de Irving e na tradição de Nova Amsterdã de Pintard e acrescentou mais alguns elementos semelhantes ao Odin das lendas alemãs e nórdicas para criar o santo que anda de trenó, bem como os nomes de suas renas voadoras.

Em 1905, um curta-metragem que marcou a estreia de Papai Noel nas telas foi inspirado no poema de Moore.

1863: Na revista Harper’s Weekly, uma figura mais próxima à do Papai Noel atual 

O cartunista americano Thomas Nast estabeleceu referências para o visual atual do Papai Noel com uma ilustração para uma edição de 1863 da Harper’s Weekly, como parte de uma grande ilustração intitulada “A Christmas Furlough”.

Papai Noel origem Natal imagem de Thomas Nest

Nast era um cartunista político, e os desenhos faziam referência à Guerra Civil, alguns com enfoque crítico.
Em desenhos posteriores de Nast, uma casa no Pólo Norte foi adicionada, assim como a oficina para construir brinquedos e um grande livro cheio de nomes de crianças que foram travessas ou legais.
1864: Cores variadas para o traje de Papai Noel 

Embora Nast tivesse inserido a imagem das renas e do trenó, o famoso traje vermelho ainda não era obrigatório, embora tivesse aparecido em algumas representações.

O Papai Noel seria ainda representado em uma variedade de cores, como azul, verde e amarelo, conforme retratado nesta edição de 1864 de “”The Night Before Christmas”.

Papai Noel de roupa amarela 1864 The Night Before Christmas.
Reprodução The Public Domain
1868: Roupa ameixa para um Papai Noel sem calças 

A Coca-Cola não foi a primeira a usar a imagem de Papai Noel para promover seus produtos.

Neste anúncio de 1868, de um fabricante de doces de ameixa associados ao Natal, ele aparece com traje na cor da fruta e chapéu verde. Na pressa, parece ter esquecido de vestir as calças, trajando apenas ceroulas. Trenó e renas estão lá.

Reprodução The Public Domain

1881: Crítica política em figura parecida com a que foi popularizada pela Coca-Cola 

Nesta ilustração de 1881 de Thomas Nast chamada “Merry Old Santa”, o personagem Papai Noel moderno começa a tomar forma, aproximando-se da figura desenhada para a Coca-Cola.

A crítica política está presente. Ele leva nas costas uma mochila do exército, como a utilizada pelos soldados. O horário marcado no relógio simboliza o pouco tempo que o Congresso tinha para votar um aumento para os soldados, segundo historiadores.

Papai Noel Natal Thomas Nast
O desenho mais famoso de Thomas Nast, “Merry Old Santa Claus”, da edição de 1º de janeiro de 1881 da Harper’s Weekly.
1902, Papai Noel em livros

A vida e as aventuras do Papai Noel , do autor de O Mágico de Oz , L. Frank Baum, ajudou a popularizar a lenda do personagem do Natal. 

No entanto, na capa da primeira edição do livro de Baum o traje não é vermelho.

Nesta capa da revista Puck ilustrada pelo australiano Frank A. Nankivell, Papai Noel aparece em uma representação muito parecida com a atual.
Revista Puck vintage com imagem antiga de Papai Noel
1906, o velhinho em propaganda no Canadá 
Neste folheto de uma loja de departamentos canadense de 1906, o Papai Noel aparece com a fisionomia parecida com a atual, mas ainda com traje diferente, em que os detalhes brancos aparecem em preto.
Anúncio antigo Papai Noel
1906_Christmas_catalogue_Eaton
1913: na capa da revista dos escoteiros 

O ilustrador Norman Rockwell é autor de muitas representações do Papai Noel durante a década de 20, contribuindo para consolidar o visual moderno do personagem.

Na capa desta revista publicada antes da Primeira Guerra Mundial, a figura é bem próxima da imagem dos dias de hoje.

Desenho de Norman Rockwell na revista Boys’ Life publicada em dezembro de 1913

1914: Bem antes da Coca-Cola, Papai Noel em gravura japonesa 

Uma ilustração japonesa de 1914, de um artista desconhecido, mostra que a propagação da lenda do Papai Noel alcançou muito mais do que apenas a Europa e a América em uma era em que a publicidade ainda não havia difundido a imagem do bom velhinho.

Papai Noel retratado em gravura japonesa

1918: Papai Noel vai à guerra

O Papai Noel aparece de forma clássica nesta peça de propaganda dos EUA na Primeira Guerra Mundial, pedindo paz. O cartaz foi feito pela divisão educacional da US Food Administration.

Anúncio de esforço de guerra nos EUA com figura do Papai Noel

1920: representação realista de Papai Noel 

Estas são duas das muitas duas capas temáticas de Papai Noel desenhadas por Norman Rockwell para o jornal Saturday Evening Post. 

Assim como as representações de Sundblom para a Coca-Cola mais de uma década depois, as criações de Rockwell dão um aspecto muito humano e naturalista ao personagem, em oposição às características mais estereotipadas que existiam antes, como destacam os pesquisadores do projeto.

Papai Noel no jornal Evening Post
 
1930, em revista na Austrália 
Também antes do Papai Noel da Coca-Cola, o bom velhinho apareceu vestido de vermelho e com a roupa parecida com a atual em uma capa de revista, com o traje de inverno contrastando com o visual praiano do australiano.
Papai Noel anúncio vintage Austrália

1942, de novo na guerra, desta vez armado 

No poster da Segunda Guerra Mundial dos EUA, Papai Noel se afasta radicalmente do alegre traje vermelho e veste os sombrios tons de guerra, com arma em punho. A mensagem não poderia ser mais explícita: “Papai Noel foi para a guerra”.
Papai Noel em poster durante a Segunda Guerra com arma em punhoEm outro poster, a mensagem é mais otimista mas ainda marcada pelo drama da guerra, desejando Boas Festas “a você e aos seus, não importa onde eles estejam”, votos que continuam válidos até os dias de hoje.
Papai Noel poster vintage desejando boas festas


As imagens são de domínio público, resgatadas em arquivos pelo projeto The Public Domain Review.

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