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Canções natalinas

Por que as músicas de Natal soam tão… ‘natalinas’? Musicólogo explica a magia

por Samuel J Bennett | Professor de Produção Musical, Nottingham Trent University

Billie Eilish cantando música de Natal no palco do Saturday Night Live

Billie Eilish cantando Have Yourself a Merry Little Christmas no programa Saturday Night Live, em 2023 (foto: reprodução YouTube)



Por que basta ouvir os primeiros segundos de certas músicas para pensar imediatamente no Natal? Um musicólogo explica como instrumentos, referências culturais e nostalgia moldam o som típico das canções natalinas.


Dentro dos primeiros acordes de muitos clássicos de Natal, somos transportados imediatamente para o clima das festas. Mas por que exatamente essas músicas específicas nos fazem pensar no fim de ano?

Em seu livro Music’s Meanings, o pesquisador de música popular Philip Tagg explora como os ouvintes interpretam a música que escutam.

Tagg aplica a semiótica — o estudo de como interpretamos sinais no mundo ao nosso redor — à música. Esses sinais podem ser percebidos de maneiras diferentes por pessoas distintas e terem seus significados transformados ao longo do tempo.

Para ilustrar esse conceito, Tagg cita o exemplo da guitarra pedal steel, originalmente associada à tradição musical havaiana e cheia de referências ao Havaí.

Com o tempo, o instrumento passou a ser amplamente utilizado na música country, a ponto de hoje, segundo Tagg, a maioria das pessoas associar imediatamente seu som ao country, sem sequer pensar no Havaí.

Assim como a guitarra pedal steel nos transporta diretamente para o universo do country, há um instrumento que faz o mesmo quando o assunto é Natal: os sinos de trenó.

Sinos de trenó: referência das músicas de Natal

De peças orquestrais leves como Troika, de Prokofiev (1933), até Santa Tell Me, de Ariana Grande (2014), os sinos de trenó há muito funcionam como um atalho sonoro para sinalizar que uma música pertence ao repertório natalino.

A explicação para essa associação está fora da música.

O Natal é ligado ao inverno e à neve. Trenós, usados como meio de transporte nessas condições, passaram a ser diretamente associados à data — e, por consequência, também os sinos usados para alertar pedestres sobre sua aproximação.

Assim como no exemplo da guitarra pedal steel, chegamos ao ponto em que os sinos remetem diretamente ao Natal, sem que pensemos no trenó em si.

Sinos também lembram igrejas celebrando nascimento de Cristo

Essa ligação se estende a outros instrumentos da família dos sinos.

A tradição das igrejas de tocar seus sinos, especialmente em celebração ao nascimento de Cristo, fez com que sinos maiores também ganhassem espaço não apenas na música de Natal, mas também em decorações e representações visuais da data.

No ano passado, a Official Charts Company, do Reino Unido, publicou a lista das 40 músicas de Natal mais ouvidas em streaming.

Ao ouvir essa seleção, é possível perceber sons semelhantes a sinos na maioria das faixas — da introdução que lembra um glockenspiel em All I Want for Christmas Is You (1994), de Mariah Carey, aos sinos tubulares sintetizados de Do They Know It’s Christmas (1984), do Band Aid.

Elementos sonoros e memória afetiva

Outros elementos musicais também ajudam a espalhar o clima natalino, como melodias líricas e metais marcantes.

Mas a maioria deles tem algo em comum: não são sons modernos, nem especialmente frequentes no pop atual. Pelo contrário, remetem ao passado.

A nostalgia do Natal: de Bing Crosby a Billie Eilish

O Natal é uma data profundamente nostálgica. Originalmente, o termo “nostalgia” se referia a um tipo de saudade de casa, e não apenas à lembrança afetiva de um passado difuso, como usamos hoje.

Ainda assim, os dois sentidos se aplicam bem às emoções associadas à data.

É um período em que muitas pessoas voltam para casa, fazendo não só uma viagem geográfica, mas também temporal — mergulhando em tradições antigas e familiares, em um ritmo diferente do cotidiano.

Os artistas sabem disso e alimentam essa nostalgia por meio da música, das letras e das imagens que evocam o passado.

Talvez por isso a maioria dos álbuns de Natal seja composta por releituras de clássicos, e não por material inédito. É uma estratégia simples: se já conhecemos a canção, é mais fácil nos conectarmos rapidamente à nova versão.

Alguns artistas vão ainda além e reproduzem aquilo que talvez seja o estilo natalino por excelência: a canção de crooner, com arranjos suaves e vocais calorosos.

Seja com Bing Crosby ou Nat King Cole, a voz aveludada acompanhada de uma orquestra leve tornou-se inseparável do Natal. É um tipo de som que, a menos que você tenha afinidade pessoal com o gênero, dificilmente escuta fora dessa época do ano.

Isso fica claro quando Billie Eilish interpretou Have Yourself a Merry Little Christmas no Saturday Night Live em 2023.

Ela deixou de lado seus sons eletrônicos característicos e optou por um trio tradicional de piano, bateria e contrabaixo, cantando de forma suave e acolhedora. O resultado remete a um passado idealizado — com castanhas assando na lareira e neve caindo do lado de fora.

O som definitivo do Natal

Por fim, vale voltar à lista das músicas natalinas mais ouvidas. Um artista — e um álbum — aparece duas vezes no top 20:

Michael Bublé, com Christmas (2011). O disco reúne todos os elementos clássicos do som natalino: vocais de crooner, arranjos orquestrais leves, canções tradicionais e, claro, sinos de trenó. Mais natalino do que isso, difícil.


Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.

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