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Impunidade

Profissão perigo: RSF contabiliza jornalistas mortos, presos, sequestrados e desaparecidos em 2025

No balanço de mais um ano dramático para profissionais de imprensa, Repórteres Sem Fronteiras afirma ‘falta coragem’ para implementar políticas de proteção

Anas Al-Sharif, jornalista da Al Jaqzeera morto em Gaza

Anas Al-Sharif foi assassinado em um ataque em 10 de agosto (Foto: CPJ)



Violência contra jornalistas aparece de várias formas. Dados da Repórteres Sem Fronteiras em seu balanço do ano de 2025 apontam para riscos em zonas de conflito e áreas dominadas por facções criminosas, como o México e outros países da região.


Exercer a profissão de jornalista está cada vez mais perigoso ao redor do mundo, confirma o balanço anual da Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

A organização internacional de defesa da liberdade de imprensa contabilizou quantos profissionais foram alvo de assassinatos, de detenções arbitrárias, foram feitos reféns e os que estão desaparecidos.

Na contagem da RSF, 67 jornalistas foram mortos este ano (quase a metade em Gaza), 503 estão presos e 20 foram feitos reféns. O ano está terminando com 135 profissionais de imprensa desaparecidos, alguns há décadas, sem confirmação sobre se estão ainda vivos.

O relatório apresenta ainda dados de outros tipos de violência contra jornalistas, como a repressão a profissionais que cobrem manifestações e a obrigação de se exilar por conta de guerras e da falta de liberdade de imprensa em seus países de origem.

Ainda que o ano não tenha terminado, os números compilados pela Repórteres sem Fronteiras retratam os últimos 12 meses, de 1 de dezembro de 2024 a 1 de dezembro de 2025.

Outras organizações de defesa da liberdade de imprensa também divulgam anualmente relatórios de violência contra jornalistas, como o Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ) e a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ). Mas os números variam entre si porque as pesquisas têm metodologias diferentes.

Impunidade alimenta violência contra jornalistas

Thibaut Bruttin, diretor geral da RSF, fez uma fala forte ao comentar os dados. Ele aponta a prevalência da impunidade nos casos de violência contra jornalistas e afirma que estes profissionais continuam sendo vítimas de violência por “falta de coragem” da comunidade internacional em enfrentar o problema:

“É aqui que a impunidade por esses crimes nos traz: o fracasso das organizações internacionais, que já não conseguem garantir o direito dos jornalistas à proteção em conflitos armados, é consequência de um declínio global na coragem dos governos, que deveriam implementar políticas públicas de proteção.”

Com o mesmo tom duro, Bruttin ainda sublinhou o fato de que jornalistas que morrem em serviço são propositalmente assassinados:

“Testemunhas-chave da história, os jornalistas tornaram-se gradualmente vítimas colaterais, testemunhas inconvenientes, moedas de troca, peões em jogos diplomáticos, homens e mulheres a serem “eliminados”. Devemos ter cuidado com noções falsas sobre repórteres: ninguém dá a vida pelo jornalismo — ela lhes é tirada; jornalistas não apenas morrem — eles são assassinados.”

Junto com o relatório, a organização lançou um vídeo que traz um panorama da situação da violência no mundo exemplos de casos emblemáticos.

“Estes atos de violência não são acidentes. Eles são táticas para silenciar jornalistas”, diz uma passagem do vídeo.

Profissionais desaparecidos

A quantidade de profissionais desaparecidos ganha destaque no levantamento da RSF, um drama que nem todas as ONGs de liberdade de imprensa têm destacado.

No total, são 135 desaparecidos em 37 países, com 72% dos desaparecimentos  no Oriente Médio e na América Latina.

Em 2025, chama a atenção que mesmo um ano após a queda do regime de Bashar al-Assad na Síria, muitos dos repórteres presos ou capturados durante seu governo ainda não foram encontrados.

Assim, a Síria ocupa a primeira posição no ranking de desaparecimentos de profissionais de imprensa, sendo responsável por 37 deles, quase um quarto do total mundial.

Atrás dela estão o México, com 28 desaparecimentos, o Iraque, com 12, e Burkina Faso, com 2.

Jornalistas mortos em 2025

Ainda que os compilados de cada organização apresentem números totais diferentes, a análise sobre os locais com maior incidência de violência estão em consonância.

Assim como as outras organizações, a RSF destacou a alta letalidade decorrente dos ataques de Israel na Faixa de Gaza (43% de todos os jornalistas mortos).

A organização também apontou para a alta incidência de mortes em zonas de conflito, como é o caso do Sudão e da Ucrânia. E ainda em locais como o México, com violência causada por facções criminosas e políticos ligados a elas.

Segundo a RSF, o México é o segundo país mais perigoso para jornalistas, atrás apenas da Faixa de Gaza. Este foi o ano com mais mortes no país (9) dos últimos três anos, ainda que a presidente Claudia Sheinbaun tenha assumido compromissos de proteção.

A tendência se espalhou à medida que a América Latina se tornou mais “mexicanizada”, respondendo por 24% dos jornalistas assassinados do mundo.

Apenas dois jornalistas estrangeiros foram mortos este ano: o fotojornalista francês Antoni Lallican, morto por um ataque de drones russos na Ucrânia, e o jornalista salvadorenho Javier Hércules, morto em Honduras, onde viveu por mais de uma década.

Todos os outros jornalistas assassinados relataram as notícias em suas próprias nações.

Prisões de jornalistas

Não importa a metodologia usada, a China segue disparada como o país que mais prende jornalistas. Segundo a RSF, há 121 detidos no país ao fim de 2025.

Muitas destas prisões vem acontecendo em Hong Kong, que apesar de ser parte da China tem um regime um pouco diferente e já foi considerada um oásis da liberdade, mas hoje padece com a Lei de Segurança Nacional que restringe liberdades de expressão e de imprensa.

Atrás dela, vem a Rússia, com 48 presos – sendo 26 ucranianos.

A Rússia se destaca por ser o país que mais prende jornalistas estrangeiros, seguida de Israel, que mantém 20 profissionais palestinos atrás das grades.

Profissionais feitos de reféns

Dos 20 jornalistas que foram feitos de reféns em 2025, quase metade deles (9) trabalhavam no Iêmen.

Sete deles foram capturados por rebeldes houthis, um grupo político e religioso armado, apoiado pelo Irã.

Neste quesito a Síria aparece novamente no topo da lista, com 8 profissionais ainda sequestrados por grupos jihadistas.

Outros dois jornalistas foram sequestrados no Mali e um na Índia, que foi libertado no dia seguinte.

Predadores da liberdade de imprensa

“A impunidade não é inevitável”. Sob este lema, a RSF destacou atores que foram considerados os principais predadores da liberdade de imprensa pela organização.

A lista completa com 34 nomes de pessoas, empresas e instituições já foi divulgada, mas a entidade trouxe novamente neste relatório cinco destes atores.

Eles estão diretamente relacionados com alguns dos lugares com maior ocorrência de violência contra jornalistas.

São eles: o presidente da Rússia, Vladimir Putin: o líder supremo do Talibã no Afeganistão, Haibatullah Akhundzada: as Forças Armadas de Israel: a Comissão Estatal de Segurança e Paz, de Mianmar, e o Cartel Jalisco Nova Geração, do México.


Veja o relatório completo em inglês aqui.

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