O ano de 2025 foi o mais letal do século para o jornalismo no Peru, colocando fim a uma era em que o país nunca figurava entre os mais perigosos para a prática do jornalismo em uma região em que a taxa de crimes contra profissionais de mídia sempre é historicamente alta.
No total, foram registradas quatro mortes de profissionais da imprensa: Gastón Medina Sotomayor, Raúl Celis López, Fernando Nuñez Guevara e Mitzar Castillejos, das quais duas em dezembro, indicando uma escalada da violência.
Os dados são do informe anual da Associação Nacional de Jornalistas do Peru (ANP).
A ANP alerta que esses crimes ocorreram em um contexto de impunidade estrutural, com investigações que não avançam com a velocidade ou diligência necessárias, aumentando assim o risco para jornalistas no país.
As quatro mortes trazem um cenário preocupante, tanto pelo crime em si, quanto pelo fato de que, segundo a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ), fazia quase uma década que não se registravam assassinatos de profissionais da mídia no Peru.
“2025 deixa uma verdade inegável: no Peru, informar custa vidas. E o que é realmente perigoso é se acostumar com isso”, escreveu Zuliana Lainez, presidente da ANP.
Letalidade na América Latina
O número aproxima o Peru do patamar de violência observado no México, país com a pior taxa de letalidade de jornalistas na América e a segunda pior do mundo, onde nove profissionais foram assassinados em 2025, segundo a Repórteres sem Fronteiras (foram três na contagem da IFJ e seis na do Comitê de Proteção a Jornalistas).
As mortes no Peru também contribuem para a estatística que classifica a América Latina como a região mais letal do mundo para jornalistas fora de zonas de guerra. Os crimes no continente são persistentes e impulsionados pela impunidade, como mostra a IFJ.
“Essa falta de justiça envia uma mensagem perigosa: assassinar um jornalista na América Latina e no Caribe continua sendo um crime de baixo risco.”
Ataques e intimidação
O informe da associação de imprensa também contabiliza 458 ataques contra jornalistas em 2025. Em média, foram 38 ataques mensais, mais do que um por dia.
A maior parte dos casos (127) foram de ameaças e assédio. Foram registrados também 114 casos de agressões físicas, 46 casos de intimidação judicial e quatro sanções ou pressões administrativas.
Por tipo de mídia, o jornalismo digital foi o mais atacado, com 219 casos, seguido pela televisão (108), imprensa escrita (66) e rádio (65). “O ambiente digital, fundamental para o jornalismo investigativo e a fiscalização do poder, tornou-se um dos principais alvos de ataques e retórica estigmatizante”, aponta a IFJ, que divulgou o relatório da ANP.
O documento traz ainda uma análise por gênero, com os homens enfrentando maior volume de ataques e as mulheres sofrendo ataques específicos, que incluem assédio, violência simbólica e descrédito profissional.
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Censura e risco à liberdade de imprensa
Além dos ataques individuais, os jornalistas no Peru enfrentam riscos e ameaças coletivos vindos dos três poderes da República.
No relatório, a ANP destaca, por exemplo, a tentativa de aprovação de leis de censura, tentativa de camuflar figuras que criminalizam o trabalho jornalístico – tanto durante o governo de Dina Boluarte quanto de José Jerí –, pedidos de operadores da Justiça de quebra de sigilo profissional, entre outros.
Aumento de violência em momentos-chave
Outro dado alarmante trazido pelo relatório sobre a violência contra jornalistas no Peru é o padrão de intensificação das agressões em períodos chave do debate público.
Setembro e outubro, quando ocorreram manifestações contra o governo da então presidente Dina Boluarte e seu subsequente impeachment, foram os meses mais críticos.
Diante disso, a ANP chama atenção para o fato de que 2026 é um ano eleitoral no país e, por isso, os riscos para jornalistas se elevam. “A atmosfera do que está por vir é tudo menos promissora”, escreve a presidente da organização.
Outro ponto de atenção é o fato de que a maioria dos responsáveis por ataques são funcionários públicos (217 casos). Em seguida, vêm os membros das forças de segurança (121). Coletivamente, agentes estatais foram responsáveis por mais de 70% dos ataques registrados, “um número alarmante que destaca o papel do Estado não apenas como garantidor, mas também como perpetrador de violações à liberdade de imprensa”, aponta a IFJ.
“A Federação Internacional de Jornalistas compartilha da preocupação da ANP e enfatiza que os ataques contra a imprensa no Peru não são incidentes isolados, mas sim parte de um padrão sistemático que visa silenciar vozes críticas, inibir o jornalismo investigativo e restringir o debate público.”
A IFJ também se somou aos apelos de que as autoridades peruanas lutem contra a impunidade e garantam o livre exercício do jornalismo:
“Garantir condições seguras para o exercício do jornalismo é uma obrigação indelegável e um requisito essencial para o funcionamento da democracia e para o direito do público à informação.”
Acesse o relatório da ANP completo, em espanhol, aqui.
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