O FBI (Federal Bureau of Investigation, semelhante à Polícia Federal nos Estados Unidos) fez buscas na casa da repórter Hannah Natanson, do Washington Post, na manhã desta quarta-feira (14).
Os agentes federais confiscaram dois computadores – um pessoal e um do Washington Post –, um celular e um smartwatch Garmin, geralmente usado para atividades físicas.
Hannah cobre o governo Trump e fez reportagens sobre a reformulação das estruturas de governo, incluindo demissões em massa, para promoção de uma agenda pró-Trump.
Segundo o FBI, Hannah não é o alvo principal da investigação, mas sim Aurelio Perez-Lugones, um funcionário do Pentágono, o Departamento de Guerra dos EUA. Ele tinha acesso a informações sigilosas e é acusado de levar documentos secretos para casa.
A jornalista não é acusada de nada e a queixa criminal contra Aurelio Perez-Lugones não o acusa de vazar informações sigilosas, apenas de tirá-las do local de trabalho.
Leia também | Apagão digital no Irã ultrapassa 130 horas e impõe silêncio forçado a jornalistas, diz RSF
Procuradora diz que jornalista estaria recebendo informações vazadas ilegalmente
A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, usou o seu perfil no X para falar sobre o caso. Ela confirmou que as buscas foram feitas na casa da jornalista e afirmou que o motivo foi o fato de que ela estaria recebendo e reportando sobre informações vazadas por um funcionário do Pentágono.
Por meio desta publicação, Pam Bondi informou que Aurelio Perez-Lugones está preso e o chamou de “vazador”.
Ela não se pronunciou sobre críticas de violação da liberdade de imprensa, mas aproveitou para defender a ação do ponto de vista do governo Trump:
“O governo Trump não tolerará vazamentos ilegais de informações confidenciais que, quando divulgadas, representam um grave risco à segurança nacional de nossa nação e aos bravos homens e mulheres que servem ao nosso país.”
This past week, at the request of the Department of War, the Department of Justice and FBI executed a search warrant at the home of a Washington Post journalist who was obtaining and reporting classified and illegally leaked information from a Pentagon contractor. The leaker is…
— Attorney General Pamela Bondi (@AGPamBondi) January 14, 2026
Washinton Post classifica medida como ‘agressiva’
Na reportagem sobre o ocorrido, o Washington Post ressaltou que é “extremamente raro” que agentes da lei façam buscas na casa de repórteres.
Em um email enviado para a redação, o editor-executivo do jornal, Matt Murray, chamou as buscas de uma ação “incomum” e “agressiva”.
Ele também disse que o caso é “profundamente preocupante e levanta questões profundas sobre as proteções constitucionais ao nosso trabalho.”
“As regulamentações federais, destinadas a proteger a liberdade de imprensa, são elaboradas para dificultar o uso de táticas agressivas de aplicação da lei contra repórteres com o objetivo de obter a identidade de suas fontes ou informações.”
Operação alerta para risco de restrição da liberdade de imprensa
Assim como o Washington Post, outras organizações alertaram para o risco de restrição da liberdade de imprensa em ações como esta.
O Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ) afirmou que a ação do FBI “ignora proteções de longa data ao material de trabalho dos jornalistas e à liberdade de imprensa em geral” e que “essa operação deveria preocupar todos os americanos”.
Katherine Jacobsen, coordenadora do programa para os EUA, Canadá e Caribe do CPJ argumentou que usar o FBI para apreender os equipamentos de trabalho de uma jornalista “é uma violação flagrante das proteções jornalísticas e mina o direito do público à informação”.
“Sem garantias de que os jornalistas possam proteger seus materiais de reportagem, o jornalismo investigativo sofrerá um grande revés, corroendo mais um mecanismo de responsabilização governamental.”
Liberdade de imprensa nos Estados Unidos enfrenta obstáculos
A operação do FBI é mais um item na lista crescente de riscos à liberdade de expressão e de imprensa nos Estados Unidos. Com o retorno de Donald Trump ao poder, ataques à imprensa têm se tornado mais frequentes nos EUA.
O país ocupa atualmente a posição 57, de um total de 180, no World Press Freedom Index, da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Em 2025, os EUA caíram duas posições em relação ao ano anterior e vêm traçando uma trajetória descendente no ranking.
“Após um século de expansão gradual dos direitos de imprensa nos Estados Unidos, o país está vivenciando seu primeiro declínio significativo e prolongado na liberdade de imprensa na história moderna, e o retorno de Donald Trump à presidência está agravando consideravelmente a situação”, explica a RSF.
Leia também | Por que Trump processa tanto a imprensa? Para silenciar e não para ganhar, apontam especialistas
Leia também | Autoridades ao redor do mundo repudiam e investigam Grok por imagens de IA sexualizadas: “Nojento”
Leia também | Mulheres, diversidade, viés: Trump oficializa censura e proíbe uso de 200 palavras em programa do governo federal
Leia também | Trump processa BBC por difamação pedindo US$ 10 bi – e caso vira batata-quente para governo britânico






