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Liberdade de imprensa

Jornalista presa há seis anos nas Filipinas é condenada por ‘financiamento ao terrorismo’

Organizações de liberdade de imprensa protestaram contra resultado do julgamento

Manifestantes seguram faixa em protesto contra condenação da jornalista Frenchie Mae Cumpo, nas Filipinas

Manifestantes protestaram contra a condenação de Frenchie Mae Cumpo, nas Filipinas (foto: divulgação IFJ)



Condenada em 22 de janeiro com base em lei de combate ao terrorismo, a jornalista Frenchie Mae Cumpio passou quase seis anos presa antes do julgamento, e pode ficar 18 anos na cadeia. O caso provocou protestos contra a repressão à imprensa nas Filipinas.


A jornalista Frenchie Mae Cumpio foi condenada nesta segunda-feira (22) pelo Tribunal Regional de Tacloban, nas Filipinas, sob a acusação de “financiamento ao terrorismo”. Ela está há em prisão preventiva desde fevereiro de 2020.
Segundo a juíza Georgina Uy Perez, responsável pelo veredicto, a condenação por financiamento ao terrorismo foi baseada em provas consideradas suficientes “além de qualquer dúvida razoável”, de acordo com a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ, na sigla em inglês).A sentença, que também alcança a ativista de direitos humanos Marielle Domequil, prevê pena mínima de 12 anos e máxima de 18 anos de prisão, sem direito a liberdade condicional.

As duas foram absolvidas de acusações paralelas por posse ilegal de armas de fogo e explosivos.

Em nota, Aleksandra Bielakowska Gerente de Defesa do Escritório da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) para a Ásia-Pacífico, disse:

Estamos horrorizados com este veredicto. As investigações e evidências da RSF apresentadas no tribunal pelos advogados de Frenchie Mae Cumpio mostram claramente como este caso foi fabricado desde o início.

A condenação de Frenchie Mae Cumpio representa um fracasso devastador por parte do sistema de justiça filipino e o flagrante desrespeito das autoridades pela liberdade de imprensa. As Filipinas devem servir como um exemplo internacional de proteção da liberdade de mídia – não um perpetrador que marca, processa e aprisiona jornalistas simplesmente por fazerem seu trabalho.”

Cumpio foi presa com outros ativistas em 2020

Frenchie Mae Cumpio era diretora executiva do site de notícias Eastern Vista e apresentadora da rádio Aksyon Radyo Tacloban.

Ela foi detida em 7 de fevereiro de 2020 durante uma série de batidas policiais na cidade de Tacloban, junto a outros quatro ativistas de direitos humanos, em um caso que ficou conhecido como o “Tacloban 5”.

Inicialmente, a jornalista foi acusada de posse ilegal de uma arma de fogo e de uma granada supostamente encontradas em sua cama durante a operação policial. Mais de um ano depois, a promotoria acrescentou a acusação de financiamento ao terrorismo, crime que pode resultar em pena de até 40 anos de prisão.

Absolvições parciais e histórico de acusações sem provas

Ao longo dos anos, diversas acusações contra Cumpio foram arquivadas por falta de provas ou erros processuais, apontou a IFJ.

Em 6 de novembro de 2025, uma nova acusação de homicídio foi anulada após o tribunal determinar que ela havia sido identificada erroneamente como autora do crime.

Em outubro de 2025, o Tribunal de Apelações também anulou uma multa imposta por instância inferior no mesmo processo de antiterrorismo, por ausência de vínculo com o Partido Comunista das Filipinas (CPP) ou com seu braço armado, o Novo Exército Popular (NPA).

Apesar das decisões judiciais favoráveis, a acusação de terrorismo foi mantida. Cumpio testemunhou em sua defesa em novembro de 2024, negando todas as acusações.

A equipe jurídica da jornalista, liderada por Josa Deinla, da União Nacional dos Advogados do Povo, afirmou que pretende apresentar um pedido de reconsideração e recorrer da sentença, solicitando também liberdade sob fiança.

Entidades denunciam repressão à imprensa e uso político da lei antiterrorismo

A condenação foi imediatamente repudiada por organizações internacionais. A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) classificou o caso como uma tentativa clara de silenciar o jornalismo independente e crítico.

m nota, afirmou que “a condenação de Frenchie Mae Cumpio por acusações infundadas, após quase seis anos de detenção, é uma violação extremamente alarmante dos direitos humanos, uma falha do sistema de justiça em proteger e defender a liberdade de imprensa e uma clara tentativa de silenciar o jornalismo crítico e independente”.

A FIJ também exigiu que o governo do presidente Ferdinand Marcos Jr. atue imediatamente para libertar Cumpio e ponha fim à perseguição de jornalistas com base na legislação antiterrorista.

A União Nacional de Jornalistas das Filipinas (NUJP) declarou que o caso é emblemático da deterioração das liberdades fundamentais no país.

“A condenação não é um bom presságio para a capacidade da mídia de noticiar os assuntos que Frenchie abordou sem medo de represálias.”

Cobertura crítica e “rotulagem vermelha” precederam a prisão

Antes de ser presa, Cumpio era conhecida por cobrir denúncias de abusos cometidos pelas forças armadas filipinas em comunidades marginalizadas. O Eastern Vista, veículo dirigido por ela, é afiliado à Altermidya, uma rede independente de comunicação voltada para a cobertura de temas ignorados pela grande imprensa.

A jornalista e seus colegas foram alvo de “rotulagem vermelha”, prática pela qual jornalistas, ativistas, sindicalistas e defensores de direitos humanos são publicamente associados a grupos comunistas armados.

Essa estratégia tem sido amplamente criticada por colocar alvos sob risco de assédio, perseguição e até violência física.

A relatora especial da ONU para liberdade de expressão, Irene Khan, já havia se manifestado sobre o caso, afirmando que as acusações contra Cumpio pareciam ter natureza retaliatória, motivadas por seu trabalho jornalístico.

Protestos e mobilização internacional continuam

No dia 21 de janeiro, véspera da sentença, manifestantes se reuniram em frente ao Departamento de Justiça em Manila pedindo a libertação imediata de Cumpio e de Marielle Domequil.

O caso mobiliza sindicatos de jornalistas, organizações de direitos humanos e observadores internacionais preocupados com o avanço de legislações repressivas nas Filipinas.

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