Preso em Istambul durante uma coletiva de imprensa do partido pró-curdo Partido da Igualdade e Democracia do Povo (DEM) e ameaçado de deportação, o jornalista francês Raphaël Boukandoura foi libertado nesta quarta-feira (21) após pressões internacionais.
Boukandoura trabalha como correspondente na Turquia para diversos veículos desde 2015 e possui um visto de trabalho válido.
Ele afirmou que estava participando do evento exclusivamente como jornalista na segunda-feira (19) e negou ter proferido palavras de ordem. Outras nove pessoas também foram presas no mesmo evento.

Gazeteciler Sendikası
Segundo a Associação de Estudos de Mídia e Direito (MLSA), organização que acompanhou o caso, o jornalista foi transferido para o Centro de Detenção para Estrangeiros de Arnavutköy, onde passou dois dias sob risco de ser deportado.
Ele próprio confirmou que estava livre em uma ligação para a agência de notícias francesa AFP após deixar o centro de detenção, perto do aeroporto de Istambul. A advogada que o defende também confirmou a soltura.
França pede libertação do jornalista
Na terça (20) o governo da França havia se manifestado sobre a prisão do jornalista francês na Turquia. O Ministério das Relações Exteriores afirmou à AFP esperar a libertação de Boukandoura “o mais breve possível”.
“Nossa embaixada na Turquia, juntamente com o consulado-geral em Istambul, está acompanhando de perto a situação e está pronta para fornecer proteção consular.”
A prisão de Raphaël Boukandoura repercutiu na mídia francesa, sendo noticiada em todos os principais veículos.
Os jornais Libération, Ouest France, Mediapart e Courier International, para os quais o jornalista trabalha, divulgaram um comunicado conjunto pedindo sua libertação:
“Raphaël Boukandoura é um excelente profissional que reside na Turquia desde 2015. Nossos pensamentos estão com sua família. A liberdade de informação é um direito fundamental.”
Entidades criticam prisão
A detenção do jornalista também foi alvo de organizações de defesa das liberdades de expressão e de imprensa, que demandaram sua liberdade.
A Repórteres sem Fronteiras (RSF) se disse profundamente preocupada com o caso e classificou a detenção como uma medida “completamente arbitrária”. Erol Önderoglu, representante da RSF na Turquia, chamou o risco de deportação de “inaceitável”.
“Raphaël Boukandoura possui credenciamento permanente de imprensa e reside na Turquia há muito tempo. Ele é um jornalista experiente que cobre assuntos da atualidade e não pode ser tratado como um criminoso. Essa grave e ultrajante injustiça precisa ser corrigida.”
O Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ) também haviam instado as autoridades turcas a libertarem imediatamente o repórter e permitir que a imprensa trabalhe livremente.”
O Sindicato Nacional dos Jornalistas da França reforçou que Boukandoura não fazia nada além do que exercer sua função de jornalista quando foi preso.
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Contexto
A coletiva de imprensa da qual Boukandoura participava denunciava a ofensiva das autoridades sírias contra a população curda que vive no nordeste do país, região que faz fronteira com a Turquia.
A intervenção da polícia no evento aconteceu após a leitura de uma declaração do DEM que pedia “uma interrupção imediata dos ataques” e a proteção de civis.
O governo turco reconheceu os ataques contra a população curda no país vizinho como uma ação legítima de “guerra ao terror”, o que provocou reações dos curdos que vivem na Turquia, que representam cerca de 20% da população turca.
Histórico de prisão de jornalistas na Turquia
A prisão de Raphaël Boukandoura não é um caso isolado. A detenção e deportação de jornalistas estrangeiros na Turquia é uma prática comum, com ao menos três casos registrados em 2025.
O jornalista sueco Joakim Medin ficou 51 dias preso acusado de insultar o presidente Recep Tayyip Erdogan. O jornalista inglês da BBC Mark Lowen ficou 17 horas preso e foi deportado por supostamente representar uma “ameaça à ordem pública”.
A Turquia ocupa a posição 159 de 180 no ranking de liberdade de imprensa elaborado pela RSF, o Press Freedom Index. “Todos os recursos são utilizados para enfraquecer os jornalistas e veículos mais críticos”, diz a descrição do país na lista.
Da mesma forma, outro jornalista francês enfrenta repressão similar, mas na Argélia. Cristophe Gleizes foi condenado a sete anos de prisão sob acusações de “glorificar o terrorismo” e “portar material considerado propaganda”.
O caso rendeu uma campanha por sua libertação estrelado por grandes nomes, incluindo o ex-jogador de futebol brasileiro Raí.
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