O Príncipe Harry e a atriz e empresária Elizabeth Hurley foram as duas primeiras testemunhas a depor no processo contra a editora Associated Newspapers, responsável pelos tabloides o Daily Mail, Mail on Sunday e MailOnline, sobre invasão de privacidade.
Tanto Liz quanto Harry tiveram que conter as lágrimas ao relatar o que sofreram. Liz Hurley depôs nesta quinta (21) e passou por volta de três horas respondendo a perguntas sobre o caso.
O príncipe falou na quarta-feira (20) em uma sessão que durou cerca de duas horas.
Direito à privacidade
Harry disse em seu depoimento que a ideia de que não tem direito à privacidade é “repugnante” e nunca acreditou que sua vida “estivesse em campo aberto para ser explorada comercialmente por essas pessoas.”
Com a voz embargada, ele citou os sofrimentos impostos à sua mulher, a atriz Meghan Markle:
“Eles continuam a me perseguir, tornaram a vida da minha mulher um verdadeiro inferno, excelência”.
Harry ainda argumentou que este processo tem um elemento social e que sente que é seu dever agir:
“É uma questão de interesse nacional o fato de essas organizações de mídia acreditarem que são donas da privacidade das pessoas. Que tenham transformado algo que não deveria ser da conta delas em algo que é muito da conta delas.
[É] parte do conceito de dever público, que eu genuinamente acredito ser um dos papéis mais importantes que tenho a cumprir, e algo que minha mãe [a princesa Diana, que morreu em um acidente quando era perseguida por fotógrafos de celebridades] me transmitiu.”
Vazamento de informações
Tanto Harry quanto Liz negaram as sugestões de que vazamentos de informações sobre suas vidas tenham vindo de pessoas que eles consideram amigos.
Elizabeth Hurley acusou o Daily Mail de grampear seu telefone fixo, colocar escutas nas janelas de sua casa e roubar suas informações médicas quando estava grávida de seu filho Damian, hoje um adulto que estava presente no tribunal.
Ela classificou essa situação como “devastadora” e “invasão brutal de privacidade”.
“Acredito que todos deveríamos ser livres para viver com a expectativa de que o que é privado permaneça privado.
As pessoas deveriam se sentir à vontade em suas próprias casas, livres para falar coisas pessoais com a mãe, família e amigos, sem que essas conversas fossem gravadas ilegalmente e transmitidas ao mundo por um jornal de seu próprio país.”
Julgamento do jornal em processo aberto em 2022
O processo é movido pelo Príncipe Harry, o cantor Elton John e seu marido, o cineasta David Furnish, a atriz e empresária Elizabeth Hurley, a atriz e diretora Sadie Frost, a baronesa Doreen Lawrence — ativista e mãe de Stephen Lawrence, assassinado em 1993 — e o ex-parlamentar liberal-democrata Sir Simon Hughes.
A ação coletiva, apresentada inicialmente em 2022, afirma que a Associated Newspapers contratou investigadores particulares para obter ilegalmente informações privadas de diversas formas. Entre as práticas denunciadas estão:
- Instalação clandestina de escutas em residências e veículos;
- Grampo de conversas telefônicas em tempo real;
- Acesso indevido a contas bancárias, históricos de crédito e transações financeiras;
- Pagamento a policiais com vínculos com investigadores particulares para obtenção de informações internas;
- Obtenção de registros médicos por meio de identidade falsa em hospitais e clínicas privadas.
Os autores afirmam ter tomado conhecimento dessas práticas por meio de novas evidências, consideradas “altamente angustiantes”, que revelariam atividades “criminosas e abjetas”, além de “graves violações de privacidade”.
A editora, por sua vez, nega todas as acusações e afirma que o processo se baseia em “calúnias absurdas”.
Segundo a Associated Newspapers, trata-se de uma “fishing expedition” (tentativa especulativa de encontrar provas) conduzida pelos autores e seus advogados, e todas as reportagens publicadas teriam sido feitas com base em informações legítimas.
O que está em jogo no julgamento
O julgamento deve se estender por nove semanas. Todos os autores deverão prestar depoimento e serão interrogados pelos advogados da Associated Newspapers.
O juiz determinou que o processo se concentre na análise de reportagens específicas, que os autores afirmam ter sido produzidas com base em informações obtidas de forma ilícita.
A editora será representada por ex-executivos e jornalistas seniores. Entre os que deverão depor está Paul Dacre, ex-editor do Daily Mail e atual editor-chefe da DMG Media, braço editorial da empresa.
Este é o segundo julgamento em que o príncipe Harry depõe contra um grupo de mídia britânico. Em 2023, ele se tornou o primeiro membro da família real em mais de 130 anos a testemunhar em tribunal, em um processo bem-sucedido contra o grupo responsável pelo Daily Mirror.
A família real britânica não comentou o caso e tem se mantido afastada dos processos judiciais movidos por Harry e Meghan Markle contra a imprensa do Reino Unido.
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