Um tribunal de Hong Kong sentenciou Jimmy Lai, magnata da mídia e fundador do conglomerado de imprensa Next, a 20 anos de prisão nesta segunda-feira (9). Ele recebeu a sentença menos de um mês após ser condenação por ameaça à segurança nacional e por sedição.
Lai, que defende a democracia e é crítico do Partido Comunista Chinês, foi condenado com outros seis funcionários de alto escalão do Apple Daily. O jornal fechou as portas em junho de 2021, após uma série de perseguições do governo do território.
Por causa da condenação, ONGs internacionais, União Europeia, governo do Reino Unido e dos Estados Unidos reagiram. Entidades e governos acusaram Hong Kong de violação da liberdade de imprensa e pediram pela soltura do magnata.
Apesar de não ser literalmente perpétua, como a Lei de Segurança Nacional da China prevê, a sentença de 20 anos é, resumidamente, uma condenação à morte na prisão.
Afinal, o magnata tem 78 anos e, além disso, nos últimos seis em que passou preso, teve o estado de saúde ainda mais prejudicado, afirmaram familiares e organizações.
Indignação após sentença a magnata Jimmy Lai em Hong Kong
O Governo dos Estados Unidos afirmou que a condenação é uma conclusão “injusta e trágica” para o caso, que dura mais de cinco anos. O secretário de Estado do país, Marco Rubio, assinou o posicionamento.
“A decisão demonstra ao mundo que Pequim não hesitará em recorrer a medidas extremas para silenciar aqueles que defendem as liberdades fundamentais em Hong Kong.”
A ministra das Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, afirmou que a decisão mostra uma tentativa de Pequim de silenciar pessoas críticas à China. Lai, que nasceu quando Hong Kong ainda era território do Reino Unido, é um cidadão britânico.
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Cooper afirmou que a situação do magnata foi discutida pessoalmente entre o premiê Keir Starmer e o presidente chinês Xi Jinping no fim de janeiro. “Abrimos espaço para discutir nossas maiores preocupações diretamente com o governo chinês”, afirmou Cooper. Starmer fez uma visita oficial à China no dia 29.
“O cidadão britânico Jimmy Lai foi condenado hoje a 20 anos de prisão em Hong Kong por exercer seu direito à liberdade de expressão, após uma perseguição política.”
A porta-voz da União Europeia, Anitta Hipper, afirmou que a perseguição política sofrida pelo magnata “prejudica a reputação de Hong Kong”. Em nome do bloco, ela pediu que a China libertasse o ex-bilionário considerando a idade avançada e o estado de saúde dele.
“A perseguição política de Jimmy Lai e dos ex-executivos e jornalistas do Apple Daily prejudica a reputação de Hong Kong”, disse Hipper.
ONU e ONGs também se manifestaram
Legislação de Hong Kong dá espaço a interpretações vagas que podem levar a sentenças que violam o direito internacional, disse Volker Türk, da ONU. O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos divulgou um comunicado afirmando que analisou o veredito do caso, o considerando “preocupante”.
Hong Kong deixa de ser uma cidade governada pela lei para se tornar uma cidade governada pelo medo, diz Anistia Internacional. Em comunicado assinado por Sarah Brooks, diretora da ONG, afirmou que “cada dia que ele passa atrás das grades é uma grande injustiça”.
“Com esta decisão, vemos mais uma vez como a Lei de Segurança Nacional de Hong Kong está sendo usada para distorcer liberdades fundamentais e transformá-las em atos criminosos.”
“A decisão é o prego final no caixão da liberdade de imprensa em Hong Kong”, afirmou a CEO do CPJ (Comitê para Proteção aos Jornalistas), Jodie Ginsberg. A organização também ressaltou a idade avançada e o estado de saúde debilitado do magnata.
A organização Repórteres Sem Fronteiras afirmou que o processo contra Lai “não passou de uma farsa”. A ONG também pediu que o Reino Unido e outros governos internacionais intervenham a favor da libertação imediata do homem.
“A condenação equivale a uma sentença de morte, visto que a saúde do cidadão britânico de 78 anos está se deteriorando rapidamente.”
China diz que prisão de Jimmy Lai é “legítima”
Mesmo diante da repercussão internacional, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, afirmou que “não há motivo para debate” sobre a prisão. Em conversa com canais de TV após a condenação, ele falou que a Justiça de Hong Kong segue a lei de forma “razoável, legítima e legal”.
Ignorando a cidadania britânica de Lai, Jian pediu que os países estrangeiros respeitassem a soberania da China.
“Pedimos que os países envolvidos respeitem a soberania da China, o Estado de Direito em Hong Kong, e não façam declarações irresponsáveis sobre a condução do caso pelas autoridades.”
Entenda a sentença recebida por Jimmy Lai
Jimmy Lai foi condenado em dezembro por três crimes. Ele recebeu uma acusação de publicar material sedicioso em seus jornais (conteúdos tidos como instigação contra o governo) e duas acusações de conspiração com forças estrangeiras contra o Partido Comunista Chinês e o governo de Hong Kong.
O magnata sempre declarou ser inocente e negou todas as acusações, embora os juízes consideraram que havia evidências suficientes para a condenação. A Lei de Segurança Nacional embasou todas as acusações contra ele, mesmo com reações internacionais negativas à prisão.
A Justiça de Hong Kong também condenou Lai por fraude em 2022. A condenação foi feita devido à acusação de que ele operava uma empresa de consultoria na sede do jornal.
Repressão em Hong Kong
A condenação de Jimmy Lai é considerada “única”, já que ele não é um profissional independente, e sim dono de um conglomerado de mídia. Hong Kong, que é um território chinês com certa autonomia, teve um histórico de repressão crescente a jornalistas, principalmente nos últimos cinco anos.
A Lei de Segurança Nacional, implementada por Pequim em 2020, criminaliza atos de secessão (separação da China). Ela não só endurece o olhar da Justiça para alguns atos, mas também prevê a prisão perpétua para quem cometa infrações como subversão ou conluio com forças estrangeiras – crime pelo qual a Justiça acusou Lai.
A lei silenciou vozes independentes enquanto fechou veículos. Desde então, Hong Kong também fortaleceu a censura a canais públicos, com uma onda de prisões de jornalistas e de assédio contra profissionais da imprensa.
Esse cenário reforça a posição da China no primeiro lugar entre países com maior número de jornalistas encarcerados no mundo, segundo o Comitê para Proteção aos Jornalistas. Em 2025, o país conquistou pelo terceiro ano consecutivo a liderança no censo feito pela ONG, com 50 detidos em um ano.
Segundo relatório da Federação Internacional de Jornalistas, o país tem 143 profissionais da mídia atrás das grades atualmente.
Justiça também condenou funcionários de alto escalão
Seis ex-funcionários de alto escação do Apple Daily receberam suas condenações juntamente com o magnata hoje. A Justiça condenou a 10 anos de prisão o editor-chefe Ryan Law Wai-kwong, o editor-chefe executivo Lam Man-chung, e o editor da edição em inglês do jornal, Fung Wai-Kong.
Ao mesmo tempo, outros dois receberam sentenças de sete anos de prisão. São eles: o editor-associado Chan Pui-man e o editorialista Yeung Ching-kee. O CEO do Apple Daily, Cheung Kim-Hung, recebeu a menor pena entre os condenados: seis anos e nove meses de condenação.
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