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Negócios

Axel Springer compra Daily Telegraph por £570 milhões e quer torná-lo principal voz da centro-direita em língua inglesa

Conglomerado de mídia alemão cobriu a proposta dos donos do Daily Mail e não deve enfrentar obstáculos regulatórios para assumir o controle do jornal

capas do jornal Daily Telegraph, vendido ao grupo Axel Springer




A venda do jornal britânico conservador Daily Telegraph para o grupo local proprietário do Daily Mail, anunciada como certa em novembro, teve nesta sexta-feira (6) uma reviravolta: o conglomerado de mídia alemão Axel Springer acabou arrematando o veículo por £ 575 milhões, colocando fim a um longo enredo iniciado em 2023.

Fundado há 170 anos, o Telegraph é considerado um dos três grandes da imprensa britânica – ao lado do The Times e The Guardian. Ele não ia mal financeiramente, e continuava exercendo grande influência na política do país quando o imbroglio começou.

O problema é que ele foi colocado como garantia de um vultoso empréstimo tomado pelos seus donos, o irmãos David e Frederick Barclay, que comandavam um império empresarial nas áreas de construção, hotelaria e varejo mas acabaram brigando em vida.

David morreu em 2021. Em julho de 2023 o Lloyds Bank confiscou os títulos do grupo Telegraph por conta de uma dívida de £ 1,15 bilhão. O banco não queria operar o negócio e abriu uma concorrência para encontrar interessados.

Quem tentou comprar o Daily Telegraph

Muitos nomes se apresentaram, incluindo donos de outras empresas jornalísticas. Até que o banco se livrou do problema após o pagamento da dívida pelo consórcio RedBird IMI, ancorado pelo fundo International Media Investments, controlado pelo xeque Mansour bin Zayed Al Nayian, causando forte reação.

Ele é um proeminente membro da família que comanda Abu Dhabi, e não seria possível distinguir o que são recursos pessoais, corporativos e do Estado. O governo abriu uma investigação e aprovou uma lei impedindo Estados estrangeiros de deter participação em jornais do país.

Nesse período, o RedBird IMI nunca exerceu controle direto por falta de aprovação das autoridades regulatórias. E foi obrigado a colocar novamente o jornal à venda.

Outro grupo, liderado somente pelo RedBird, tentou comprar o Telegraph, mas ao ver suas chances de aprovação reduzidas, desistiu da operação no fim de 2025. E deixou o jornal de presente para um barão da imprensa britânica: Lord Rothermere, que tinha sido um dos interessados no início, mas ficou pacientemente aguardando os ventos soprarem a seu favor.

Ele é o dono do grupo DMGT, que possui um vasto portfólio de publicações, liderado pelo tabloide de direita Daily Mail.

Rothemere ofereceu £ 500 milhões pelo Daily Telegraph em novembro, e o negócio parecia encaminhado até na esfera regulatória. Até que o Axel Springer voltou ao jogo, cobriu a proposta e o RedBird IMI aceitou o valor superior ao que a empresa empresa havia se comprometido a pagar.

O novo dono do Daily Telegraph

Fundado pelo jornalista e empresário alemão Axel Cäsar Springer, que morreu em 1985, o grupo de mídia que leva o seu nome foi fundado em 1946 em Hamburgo e possui veículos como Bild, Die Welt, Hamburger Abendblatt e Berliner Morgenpost.

A empresa vem se expandindo na arena internacional por meio de aquisições e tem forte presença no jornalismo digital. Entre os títulos de sua propriedade estão o Politico e o Business Insider. Eles chegaram a tentar comprar o Financial Times, mas o jornal acabou nas mãos do grupo japonês Nikkei.

Mathias Döpfner, CEO do Axel Springer, afirmou que vê no Telegraph um “enorme potencial de crescimento” e quer transformá-lo no principal veículo de centro‑direita do mundo anglófono, investindo em expansão digital e internacionalização.

Ele também destacou o desejo de preservar o caráter e a tradição do jornal.

O grupo TMG, que controla o Daily Telegraph e sua edição dominical, Sunday Telegraph, além de sites e outras atividades de mídia, tem quase 900 profissionais. O jornal está desde 2014 sob o comando do jornalista Chris Evans, que foi confirmado no cargo pelos novos donos.

O governo já sinalizou intenção de não colocar obstáculos regulatórios. Embora o Axel Springer seja um grupo estrangeiro, os recursos são privados e não ligados a um Estado.

A venda do Daily Telegraph e a política britânica

As palavras do CEO do grupo alemão sinalizam que a linha editorial do Daily Telegraph não deve ser alterada, em um momento em que o cenário político britânico passa por fortes transformações – e em um país em que os jornais assumem preferência formal por uma agremiação política, influenciando resultados eleitorais.

Os dois partidos que sempre dominaram a política, Conservador e Trabalhista (hoje no poder, com Keir Starmer no cargo de primeiro-ministro) estão em queda na aprovação popular, conforme indicam pesquisas e resultados recentes de eleições locais.

A extrema direita ganhou força no país. O partido Reform, do controvertido Nigel Farage, está em primeiro lugar nas intenções de voto nas próximas eleições, seguido pelo Partido Verde, que ganhou tração ao vencer uma eleição local no norte da Inglaterra há duas semanas. 

Dentre os três jornais nacionais que não são tabloides (os que não falam apenas de crimes e celebridades, exercendo influência política significativa sobre as classes média e baixa), apenas um, o The Guardian, é alinhado aos Trabalhistas.

O The Times pertence ao magnata da mídia Rupert Murdoch. E o Daily Telegraph aparentemente seguirá na mesma linha editorial-política anterior, que inclui a defesa de valores nacionalistas e críticas diretas a políticas inclusivas e de proteção ambiental – que na verdade estão mais alinhados ao discurso extremista de Farage do que a uma posição mais inclinada para o centro como sugeriu o CEO do Axel Springer.


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