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Liberdade de imprensa

Irã: mídia polarizada entre reformistas e pró-regime, medo e pressões agravam crise da informação na guerra

por Sanam Mahoozi | pesquisadora da City St George’s, University of London

Imagem de prédios destruídos no Irã fornecida pela agência de notícias governamental Tasnim

Foto de prédios residenciais destruídos no Irã fornecidas pela agência Tasnim via Wikimedia Commons sob licença Creative Commons



A guerra aprofundou um problema que já marcava o ambiente de mídia iraniano: a convivência entre veículos alinhados ao poder, publicações reformistas sob pressão e uma forte repressão estatal. Nesse cenário, obter informação confiável sobre o que acontece no país ficou ainda mais desafiador.


A repressão brutal aos protestos em todo o país em janeiro e, mais recentemente, os ataques de Israel e dos Estados Unidos têm mantido  o Irã no centro das atenções internacionais há várias semanas.

Cobrir o que acontece no Irã sempre foi difícil, tanto de dentro do país quanto de fora. Em períodos de agitação e turbulência política, isso se torna ainda mais complicado e restritivo.

O ecossistema de imprensa no Irã é dividido entre veículos fortemente ligados ao Estado e os considerados reformistas. Entre os veículos alinhados ao governo estão organizações como a emissora estatal Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB), Tasnim, Fars News e Mehr News, como mostra a BBC.

Esses veículos conservadores costumam promover narrativas que reforçam a posição da liderança clerical no poder. Sua cobertura frequentemente acompanha a visão de líderes da linha-dura, como o líder supremo Ali Khamenei, morto nos ataques iniciais de 28 de fevereiro.

Outros veículos estatais, como o Mizan, ligado ao Judiciário iraniano, também publicam cobertura que apresenta a República Islâmica como vítima de agressão estrangeira no conflito atual.

Há também um grupo menor de publicações reformistas, como Shargh Daily, Ham-Mihan e Donya-e-Eqtesad, que costumam trazer análises mais críticas sobre questões políticas e econômicas do país.

Imprensa de oposição no Irã sob pressão constante

Mas os jornais reformistas operam sob pressão constante. No auge dos protestos, no começo de janeiro, as autoridades iranianas impuseram um severo apagão de internet e um bloqueio das comunicações.

Muitos veículos locais ficaram inacessíveis online. Um pequeno número de meios linha-dura, como Fars e Tasnim, continuou a distribuir informações via canais no Telegram.

Por mais de duas semanas, boa parte das informações que saíam do Irã minimizava a dimensão da repressão do governo aos manifestantes. Em vez disso, as narrativas oficiais enfatizavam uma suposta interferência estrangeira, culpando os Estados Unidos e Israel pela onda de protestos.

Veículos reformistas que desafiam essa narrativa frequentemente sofrem retaliação. Jornalistas são presos com frequência e jornais são suspensos ou fechados.

As autoridades fecharam o Ham-Mihan em janeiro de 2026 depois que seu editor-chefe publicou um artigo de opinião refletindo sobre a crise política atual e a revolução de 1979, que pôs fim à monarquia.

Essas restrições fazem com que os veículos alinhados ao Estado frequentemente dominem a narrativa que sai do Irã, moldando a forma como os acontecimentos no país são apresentados ao mundo.

Desafios para a imprensa internacional

Os veículos de imprensa internacionais enfrentam um conjunto diferente, mas igualmente complexo, de obstáculos. Jornalistas estrangeiros têm presença limitada dentro do Irã, em grande parte por causa dos riscos envolvidos.

Vários repórteres de veículos importantes, como The Washington Post e The New York Times, já foram detidos pelas autoridades iranianas no passado, criando um ambiente de cautela entre as redações internacionais.

Como resultado, apenas um número pequeno de veículos mantém repórteres no país. Organizações como Financial Times e Al Jazeera têm presença limitada em solo iraniano, enquanto muitas outras operam a partir de escritórios regionais na Turquia ou nos Emirados Árabes Unidos.

Agências como Reuters, Bloomberg, CNN e CNBC costumam depender desses hubs regionais, enquanto outras cobrem o Irã a partir da Europa ou da América do Norte.

Dificuldades também fora do Irã

Mesmo fora do país, reunir informações confiáveis continua sendo difícil.

Muitas fontes dentro do Irã têm medo de falar com a imprensa estrangeira, já que as autoridades intimidam ou prendem rotineiramente pessoas que se comunicam com jornalistas internacionais. Autoridades do governo também relutam em falar com repórteres estrangeiros.

Os apagões de internet durante protestos e guerras complicam ainda mais a cobertura. Com as comunicações frequentemente restritas, jornalistas precisam recorrer a informações de organizações de direitos humanos, redes de ativistas e contas oficiais em redes sociais.

Organizações de mídia da diáspora, que atuam fora do Irã mas transmitem e publicam em persa, têm papel crucial para preencher parte desse vazio de informação. Esses veículos alcançam públicos dentro e fora do país.

Entre eles estão Iran International, BBC Persian, IranWire, Manoto e Voice of America. Embora a Voice of America tenha sido perdido seu financiamento e tirada do ar pelo governo Trump, sua cobertura em persa continua operando e levando notícias dos Estados Unidos ao público.

Ainda assim, alguns de seus profissionais a acusam de censurar a cobertura sobre o príncipe herdeiro exilado do Irã, Reza Pahlavi, que emergiu como o principal nome da oposição no levante mais recente.

Pahlavi aparece com frequência em outros veículos da diáspora, que abrem espaço para vozes oposicionistas que raramente têm presença na mídia doméstica iraniana, a não ser para serem desacreditadas.

Como mantêm redes extensas de fontes dentro do Irã, os veículos da diáspora costumam estar entre os primeiros a receber vídeos, imagens e relatos de testemunhas sobre protestos ou ações militares. Depois de verificado, esse material frequentemente é usado por organizações internacionais como The New York Times, CNN e BBC World.

Esses veículos também relatam com mais detalhe nuances menos visíveis para jornalistas estrangeiros, como o que os iranianos realmente pensam sobre a guerra ou sobre a morte do líder supremo. Enquanto veículos internacionais focavam nos que lamentavam a morte do aiatolá Ali Khamenei, a realidade é que muitos iranianos comuns estavam celebrando.

Pressões extraordinárias sobre imprensa local e internacional

Seja trabalhando para jornais reformistas dentro do Irã, organizações internacionais no exterior ou veículos da diáspora, jornalistas que cobrem o país enfrentam pressões extraordinárias.

Muitos são alvo de tentativas de invasão digital, assédio online e, em alguns casos, ameaças físicas.

O trabalho é emocionalmente exaustivo, especialmente para jornalistas iranianos que cobrem acontecimentos que afetam diretamente seu próprio país, suas comunidades e suas famílias.


Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.


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