Os Estados Unidos registraram a queda mais acentuada entre os 23 países das Américas avaliados no novo ranking da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) sobre liberdade de expressão e imprensa, refletindo o primeiro ano do presidente Donald Trump de volta à Casa Branca.
Segundo o levantamento, o país perdeu 22,65 pontos e caiu do quarto para o 11º lugar, no recuo mais expressivo desta edição do estudo, divulgada nesta terça-feira (10). O Brasil aparece em quarto lugar, após a República Dominicana, Chile e Canadá. A Venezuela ocupa a última posição.
A SIP atribui a piora nos Estados Unidos a um ambiente marcado pela retórica hostil à imprensa durante o governo do presidente Donald Trump, à eliminação de certas salvaguardas institucionais e a episódios de agressões contra jornalistas durante reportagens, que ocorreram sobretudo em coberturas de ações da polícia imigratória.
Queda dos EUA se destaca em cenário de piora regional
A retração dos Estados Unidos ocorre em um contexto mais amplo de deterioração das condições para o exercício do jornalismo nas Américas.
A sexta edição do levantamento da SIP mostra que a média global atingiu 47,13 pontos em uma escala de 0 a 100, o nível mais baixo desde a criação do indicador. Os resultados foram elaborados a partir da avaliação de 195 especialistas sobre liberdade de expressão em 23 países da região.
O diretor executivo da entidade, Carlos Lauría, destacou que os resultados confirmam “uma deterioração significativa tanto em regimes autoritários quanto em democracias consolidadas”.
Segundo ele, o cenário reflete uma tendência regional marcada por pressões políticas, violência, assédio judicial e riscos crescentes para o exercício do jornalismo.
República Dominicana lidera ranking; Venezuela e Nicarágua seguem nas últimas posições
A República Dominicana permaneceu na primeira colocação, com 82,17 pontos, e foi a única nação incluída na categoria “Com Liberdade de Expressão”.
Ainda assim, o coordenador acadêmico do estudo e pesquisador da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), León Hernández, alertou para a presença de uma “mordaça furtiva”, caracterizada pelo uso discricionário da publicidade oficial e pela vulnerabilidade econômica que afeta numerosos meios de comunicação.
Chile, Canadá, Brasil, Uruguai e Jamaica aparecem na sequência entre os países mais bem posicionados. Mesmo assim, o relatório observa que grande parte do hemisfério enfrenta o desafio de fortalecer mecanismos de proteção para jornalistas e revisar estruturas legais que restringem ou desencorajam a liberdade de expressão.
Na faixa mais crítica do ranking, Venezuela, com 7,02 pontos, e Nicarágua, com 18,22 pontos, seguem na categoria “Sem Liberdade de Expressão”. No caso venezuelano, a SIP denunciou a consolidação de uma estrutura sistemática de censura, com o fechamento de mais de 400 estações de rádio e a prisão de 25 jornalistas após os eventos eleitorais de 2024.

Relatório da SIP aponta avanço de pressões contra o jornalismo
Na apresentação do ranking, Martha Ramos, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP e diretora da Organização Editorial Mexicana (OEM), chamou atenção para a proliferação de discursos e práticas de corte autoritário que buscam apresentar a imprensa como “inimigo número um”, com o objetivo de evitar a prestação de contas e enfraquecer o escrutínio público.
De acordo com o texto, o período analisado se consolida como um dos mais difíceis para o exercício do jornalismo na região, marcado por homicídios, detenções arbitrárias, processos judiciais e exílios forçados que atingem jornalistas do México e da América Central até vários países do Cone Sul.
Entre os mecanismos de restrição mais frequentes mencionados no levantamento estão a criminalização do jornalismo independente, o uso de discursos estigmatizantes contra a imprensa e diferentes formas de asfixia econômica deliberada contra veículos críticos.
El Salvador aparece entre os casos mais graves
Sergio Arauz, presidente da Associação de Jornalistas de El Salvador (APES), detalhou a situação salvadorenha, posicionada ao lado de Cuba, Venezuela e Nicarágua nos níveis mais críticos do ranking.
Arauz denunciou uma “escalada repressiva” no contexto do regime de emergência impulsionado pelo governo de Nayib Bukele. Segundo ele, a aplicação da Lei de Agentes Estrangeiros, somada ao assédio judicial contra meios de comunicação e jornalistas, forçou ao exílio cerca de 50 jornalistas salvadorenhos no último ano.
Vice-editor-chefe do El Faro, cuja redação opera atualmente do exterior, Arauz afirmou: “Não há possibilidades de exercer o jornalismo plenamente sem enfrentar consequências quando existe um Poder Executivo com poderes praticamente ilimitados e sem controles efetivos”.
Ele também alertou para o crescimento da autocensura entre a população salvadorenha, impulsionada pelo medo de represálias.
Para 2026, o documento projeta uma etapa marcada por processos eleitorais e mudanças geopolíticas que poderão redefinir o ambiente informativo nas Américas, levantando novos dilemas, desafios e responsabilidades para a defesa da liberdade de imprensa.
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