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Liberdade de imprensa

Guerra na Ucrânia, agressões em protestos e mais: relatório aponta piora na liberdade de imprensa na Europa

15 ONGs colaboraram para o documento do Conselho da Europa, registrando ameaças que vão de assédio digital a violência física

Carro que levava jornalistas destruído após ataque de drone russo na Ucrânia

Carro que levava jornalistas destruído após ataque de drone russo na Ucrânia em outubro de 2025 (foto: administração militar da Ucrânia, via Telegram)




Enquanto outras guerras — em Gaza e agora no Irã — reduziram a atenção internacional sobre o conflito que já se estende há quatro anos na Ucrânia, seus efeitos devastadores para o jornalismo continuam no centro das preocupações com a liberdade de imprensa na Europa.

É o que aponta o relatório On the Tipping Point: Press Freedom 2025, publicado na semana passada pelo Conselho da Europa como resultado de um trabalho conjunto de 15 organizações, entre elas a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ), Repórteres Sem Fronteiras, Comitê para a Proteção de Jornalistas, PEN International, Article 19, Index on Censorship e European Broadcasting Union.

Segundo o documento, a liberdade de imprensa continuou sob pressão constante na Europa em 2025, afetada por intimidações jurídicas e digitais, ataques físicos, tentativas de captura da mídia e repressão transnacional.

A guerra entre Rússia e Ucrânia é apontada como a ameaça mais grave aos jornalistas na região. De acordo com os registros do Conselho, quatro profissionais morreram, outros ficaram feridos, e muitos seguem detidos em territórios ocupados ou continuam desaparecidos.

Fora da zona de guerra, o cenário também é marcado pela violência física. O relatório afirma que jornalistas em diversos países europeus têm sido frequentemente agredidos durante protestos, por agentes policiais, ativistas políticos e manifestantes.

Esse tipo de ataque foi relatado em um quarto dos países abrangidos pelo levantamento, com os níveis mais altos registrados na Geórgia, Sérvia e Turquia.

O documento também reúne casos de prisões, espionagem com softwares de vigilância, processos judiciais intimidatórios conhecidos como SLAPPs, interferências políticas em veículos de imprensa e um problema histórico que segue comprometendo a atividade jornalística: a falta de financiamento.

Mais alertas e impunidade persistente

Ao longo de 2025, os parceiros da plataforma registraram 344 alertas relacionados a violações graves da liberdade de imprensa, um aumento de 29% em relação aos 266 casos reportados no ano anterior.

Rússia, Turquia, Geórgia, Sérvia e Ucrânia concentraram o maior número de notificações, o que reforça a percepção de que a deterioração do ambiente para o jornalismo não se limita a contextos de guerra aberta, mas também se espalha por democracias formais e sistemas híbridos da região.

A categoria mais frequente foi a de ataques à integridade física de jornalistas, com 90 alertas no período. O relatório também chama atenção para a permanência da impunidade: até 31 de dezembro de 2025, 51 assassinatos de jornalistas seguiam sem solução nos registros da plataforma.

Prisões e vigilância ampliam pressão sobre o jornalismo

A privação de liberdade aparece como outro eixo central da deterioração do cenário europeu. No fim de 2025, 148 jornalistas estavam detidos no continente, segundo o levantamento.

Azerbaijão, Rússia, Belarus, territórios ucranianos ocupados sob controle russo e Turquia concentram a maior parte desses casos.

Além das detenções, o documento alerta para o uso de vigilância digital e outras formas de intimidação tecnológica contra profissionais da imprensa.

O avanço dessas práticas se combina a ações judiciais abusivas e a interferências políticas sobre veículos de comunicação, aprofundando a sensação de insegurança mesmo em países com tradição institucional mais consolidada.

Mulheres jornalistas e profissionais no exílio estão entre os mais vulneráveis

O relatório também destaca a escalada da violência de gênero contra mulheres jornalistas, especialmente por meio de assédio online, campanhas coordenadas de intimidação e outras formas de ataque digital.

Para os autores, esse tipo de violência não representa apenas uma agressão individual, mas um mecanismo de silenciamento com impacto direto sobre a diversidade e a pluralidade do debate público.

A situação é agravada pela precarização do trabalho jornalístico, pela fragilidade financeira de redações e pela exposição de profissionais forçados ao exílio.

Nesse contexto, o enfraquecimento econômico da imprensa aparece no relatório não como um problema secundário, mas como parte estrutural da erosão da liberdade de imprensa na Europa.

Compromissos oficiais ainda não se traduzem em proteção efetiva

Embora o documento registre iniciativas recentes em alguns países para reforçar mecanismos de proteção à imprensa, combater ações judiciais abusivas e preservar o sigilo de fonte, os autores observam uma distância considerável entre promessas institucionais e resultados concretos.

Em 2025, menos de um terço dos alertas recebeu resposta dos governos, e apenas 20% de todos os casos registrados pela plataforma desde 2015 haviam sido resolvidos.

O diagnóstico final é o de uma Europa em que o jornalismo continua formalmente protegido por marcos democráticos, mas cada vez mais vulnerável a pressões múltiplas, difusas e persistentes.

Mais do que expor abusos de Estados abertamente repressores, o relatório sugere que nem mesmo a região que concentra a maior parte das democracias liberais do mundo está hoje plenamente segura quando o assunto é liberdade de imprensa.

O documento completo pode ser visto aqui.


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