As eleições na Hungria neste domingo (12), consideradas por analistas políticos como transformadoras pela possibilidade de romper a aliança entre o país e a Rússia, que tem em Viktor Orbán seu principal aliado na União Europeia, foram também acompanhadas de perto por organizações de liberdade de imprensa, ansiosas por uma mudança de rumos.
Sob Orbán, que perdeu as eleições para Péter Magyar, a Hungria ocupa a 68ª posição no ranking global de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Entre os membros da União Europeia, o país fica atrás apenas de Bulgária, Chipre e Grécia.
Orbán sob pressão nas eleições da Hungria
O premiê é considerado desde 2021 um “predador” da liberdade de imprensa em uma lista compilada pela RSF. A lista foi renovada em 2025 e ele se manteve nela.
Quando entrou na lista pela primeira vez, Orbán reagiu com ironia. Nas redes sociais, publicou um vídeo comparando jornais de oposição em uma banca como um sinal de que a comunicação no país era livre.
Vladimir Putin, presidente da Rússia, é outro integrante da lista de predadores. Às vésperas da eleição, uma campanha de desinformação originada na Rússia tentando favorecer Orbán foi detectada na Hungria.
A missão da RSF antes da eleição
Apostando em transformações, a RSF realizou, em março, uma missão pré-eleitoral a Budapeste para avaliar os riscos associados à reeleição do primeiro-ministro Viktor Orbán e as oportunidades que poderiam surgir de uma mudança democrática no governo.
Antecipando a votação de 12 de abril, que na avaliação da ONG seria decisiva para a liberdade de imprensa na Europa e além, representantes da organização se encontraram com a comunidade jornalística húngara e com o partido de oposição Tisza, que está na frente das pesquisas e pode derrubar Orbán.
O que diz a oposição sobre a imprensa
A sinalização foi positiva. Em uma coletiva de imprensa, respondendo a uma pergunta de Pavol Szalai, diretor do escritório da RSF em Praga, Péter Magyar, líder do Tisza e candidato a primeiro-ministro, disse:
“Precisamos de uma mídia pública totalmente diferente na Hungria, e de qualidade. Para fornecer informações às pessoas, não ameaçá-las, não fornecer desinformação.”
A RSF disse ter recebido mais garantias do Tisza de que suas recomendações sobre a restauração da liberdade de mídia seriam consideradas, com impacto sobre outros países.
Segundo a organização, as “técnicas predatórias” de Viktor Orbán foram recicladas por líderes políticos na França, Itália, Polônia, Eslováquia, Eslovênia e nos Estados Unidos, o que significa que sua reeleição “poderia fornecer aos partidos anti-imprensa em todo o mundo novas ferramentas para ação”.
Como Orbán deteriorou a imprensa na Hungria
Segundo a RSF, os dados sobre liberdade de imprensa na Hungria demonstram que Orbán “minou constante e efetivamente o pluralismo e a independência da mídia” em seus 16 anos comandando o país.
A Hungria é um dos países destacados em um relatório feito por uma coalizão de organizações de jornalismo europeias, divulgado há dois meses, apontando a deterioração da liberdade de imprensa na região.
Segundo o estudo, a liberdade de imprensa na Hungria continuou a piorar em 2025, consolidando o país como o caso mais profundo, na União Europeia, de captura da mídia por estruturas alinhadas ao Estado.
O estudo atribui esse quadro a uma estratégia prolongada do partido de Viktor Orbán para controlar a mídia pública, concentrar veículos privados em mãos favoráveis ao governo — 80% dos veículos estão nas mãos de oligarcas ligados ao premiê — e distorcer o mercado por meio da publicidade estatal.
Veículos independentes seguem em desvantagem estrutural, quase excluídos da publicidade estatal, enquanto a mídia pró-governo continua recebendo recursos públicos.
O relatório diz ainda que a mídia pública permanece sob controle político e funciona mais como instrumento de propaganda do que como fonte independente de informação.
Assédio e difamação contra jornalistas
Outro ponto destacado no estudo é o aumento do assédio político e das campanhas de difamação contra jornalistas e veículos críticos ao governo Orbán ao longo de 2025.
Esses profissionais passaram a ser rotulados como “agentes estrangeiros” ou atores partidários, num ambiente que favoreceu abusos online, desinformação coordenada e ataques à reputação da imprensa.
Apesar disso, o relatório ressalta que ainda existe na Hungria um núcleo de mídia independente, principalmente online, mas em posição extremamente frágil.
O documento conclui que, com as eleições de 2026, esse ambiente representa um risco sério ao debate público plural e à responsabilização democrática.
O que a eleição pode mudar para a imprensa húngara
A Repórteres Sem Fronteiras, uma das colaboradoras do estudo, concorda que consertar esse caos não será tarefa simples, e não há ainda respostas prontas.
Em comunicado após a missão de março, Thibaut Bruttin, diretor-geral da RSF, cobrou abertura e participação:
“Se o partido Tisza vencer, um novo capítulo na história da mídia húngara poderá se abrir — mas o ‘como’ deve ser discutido.
Como você reconstrói a emissora de serviço público? Como você aloca anúncios estaduais para ajudar a preservar fontes confiáveis de informação? A consulta às partes interessadas relevantes será fundamental.”
As promessas do Tisza para a mídia
Pelo menos durante a campanha eleitoral, os compromissos foram positivos. De acordo com a RSF, o programa de governo do Tisza inclui uma revisão abrangente do sistema de mídia da Hungria que desmantelaria a propaganda estatal e restauraria a mídia pública independente que foi reprimida sob o partido Fidesz.
O partido se comprometeu a suspender imediatamente a transmissão pública de notícias — que foi transformada em um porta-voz de propaganda pelo partido Fidesz de Viktor Orbán — até que as condições para o jornalismo transparente e ético sejam reconstruídas e garantam que a liderança desses meios de comunicação seja nomeada de maneira independente, garantindo neutralidade editorial e cobertura equilibrada.
O plano também busca reestruturar órgãos reguladores para garantir diversidade política e responsabilidade, e eliminar o uso arbitrário de spyware pelo Estado.
Outra medida prometida é aumentar a transparência financeira e a eficiência, auditar os gastos passados e reduzir a publicidade politicamente orientada.
Além disso, o Tisza declarou que vai apoiar o jornalismo independente por meio de um fundo de imprensa apartidário e planeja reconstruir o cenário da mídia do país.
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