Nos dias que antecederam uma eleição que pode redefinir a geopolítica da Europa, uma campanha coordenada se espalhou no Telegram tentando influenciar as urnas a favor de Viktor Orbán, no poder desde 2010 na Hungria e apontado pela Repórteres Sem Fronteiras como um dos predadores da liberdade de imprensa no mundo.
De acordo com um levantamento da empresa de análise de dados Vox Harbor, divulgada pela Reuters nesta sexta-feira (10), uma onda de desinformação por mensagens age a favor do premiê nos últimos dias antes da votação supostamente a partir da Rússia, que tem a Hungria como sua principal aliada na União Europeia.
As denúncias de desinformação deliberada acontecem em um cenário complexo para a Hungria e fazem parte de um ambiente midiático conturbado.
Sob o comando do premiê há 16 anos, o país vive uma onda de repressão explícita ao ativismo, à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa.
Com o partido do primeiro-ministro caindo nas pesquisas, a expectativa é de que, caso seu opositor ganhe, a situação mude. O caminho até lá, porém, pode ser difícil.
Desinformação nas eleições
A pesquisa da Vox Harbor aponta que o disparo de mensagens pró-Orban acontece majoritariamente no Telegram. A maioria delas tenta espalhar medo sobre o que acontecerá se ele perder o cargo.
Há nas mensagens divulgadas um padrão: frases idênticas, entregues quase ao mesmo tempo em grupos diferentes. Esses sinais, de acordo com a Vox, mostram que esta é uma campanha orquestrada.
A maioria das mensagens pró Orbán vêm de distribuidores da Rússia, país comandado por Vladimir Putin.
O líder russo é próximo do húngaro e, assim como ele, ocupa uma lista seleta de governantes “predadores” da liberdade de imprensa. Nem a Rússia nem o governo Orbán se pronunciaram oficialmente sobre o assunto.
Esta não é a primeira denúncia do uso de desinformação por parte do partido do primeiro-ministro. Em março, o jornal húngaro Lakmusz identificou 17 canais do TikTok com vídeos de IA espalhando mensagens pró-governo e contra o Tisza, partido de centro-direita contrário a Orbán.
Um dos vídeos de IA mostrava um apoiador de Orbán usando um boné com os dizeres “Make Hungary Great Again”, em referência ao MAGA.
Ironicamente, além de ser próximo de Putin, Orbán também tem boas relações com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O Vice-Presidente dos EUA, JD Vance, foi à Hungria nesta semana para declarar apoio a Orbán.
Quando o jornal denunciou os vídeos de IA, em 19 de março, seis dos 17 canais monitorados não estavam mais disponíveis. Antes de caírem, porém, alguns dos vídeos tinham mais de 60.000 visualizações.
Partido de Orbán está atrás nas pesquisas
Para alguns, a campanha de desinformação é uma tentativa de correr atrás da vitória em uma eleição que não está favorável a Orbán.
Segundo a pesquisa mais recente do Medián Közvélemény, órgão de análise de dados independente, o Fidesz, partido do atual premiê, pode conseguir até 55 cadeiras no parlamento, ficando em segundo lugar. O Tisza, do candidato Péter Magyar, deve conseguir ao menos 138, garantindo, com folga, a maioria para governar.
Magyar prega a aproximação da Hungria com a União Europeia e vende sua possível vitória como um “novo capítulo” para a liberdade de imprensa no país. Entre os seus planos, está uma ampla reforma do sistema de mídia e a suspensão imediata da transmissão pública de notícias – que, aos olhos das organizações internacionais, é uma porta-voz do partido de Orbán.
Em um comunicado, o diretor-geral da RSF pediu ao Tisza que, se ganhasse, sentasse para uma conversa sobre como restabelecer a autonomia dos serviços de comunicação do país. A ONG pediu, ainda, que Magyar suspendesse o processo movido pela Hungria contra a Lei Europeia da Liberdade de Imprensa (Emfa).
“Se um governo liderado por Tisza chegar ao poder após 12 de abril, apelamos ao partido para que envie um sinal forte, retirando a queixa da Hungria contra a Emfa.”
A ação movida pelo governo Orbán pede que a lei, que dá salvaguardas ao pluralismo dos meios de comunicação, seja anulada no país. A justificativa é de que ela viola a soberania nacional.
Orbán consta desde 2021 na lista de 34 predadores da liberdade de imprensa, compilada pela organização Repórteres Sem Fronteiras. Ele e Alexander Lukashenko, de Belarus, são os únicos líderes da europeus listados.
No ranking de liberdade de imprensa mundial, por sua vez, o país está na 68ª posição. Entre os membros da União Europeia, ele fica atrás apenas de Bulgária, Chipre e Grécia.
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