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Protesto de autores

Mais de 100 escritores deixam principal editora da França em protesto contra dono de extrema direita

Vincent Bolloré, magnata da mídia dono da Hachette e do conglomerado de mídia Vivendi, já teve que depor no Senado para se explicar sobre uso de seus títulos para promover interesses políticos da extrema direita

Vincent Bolloré, magnata da mídia na França, sentado com microfone durante entrevista

Vincent Bolloré, magnata da mídia na França (foto: Wikimedia Commons)




Cento e quinze escritores publicaram uma carta aberta nas redes sociais anunciando a saída em massa da Grasset, uma das maiores editoras de livros da França em protesto contra o dono da empresa, um controvertido magnata da mídia frequentemente associado a nomes da extrema direita no país. 

A Grasset é propriedade do grupo Hachette, que, por sua vez, é controlado pelo bilionário Vincent Bolloré desde 2023. A aquisição do maior grupo editorial da França foi somente mais uma na extensa lista de compras do magnata. 

O bilionário de 74 anos, dono de canais de TV, jornais impressos e rádios, já precisou dar esclarecimentos no Senado da França por suspeita de usar seus veículos para propagar interesses políticos. 

Ele já foi denunciado pela organização Repórteres Sem Fronteiras por promover a extrema-direita em seus canais e por fomentar uma cultura do silêncio entre repórteres, forçando a assinatura de cláusulas de confidencialidade.

O anúncio da demissão em massa dos autores veio poucos dias após a Grasset demitir o diretor executivo Olivier Nora. Na companhia havia 26 anos, ele era considerado o último bastião que protegia a editora dos pensamentos de extrema direita de Bolloré.

O ato dos escritores representa uma ampliação do raio de acusações de manipulação feitas contra o bilionário. Antes, essas críticas estavam restritas ao mundo da mídia. Agora, elas também abrangem a área da cultura. 

Carta anunciou saída dos autores

No documento publicado na quarta-feira (15), os escritores afirmam que não querem que suas ideias “sejam propriedade” de Vincent Bolloré.

Eles alegaram, ainda, que a Grasset sofreu “um ataque inaceitável” contra a sua independência editorial.

“Nós nos recusamos a ser reféns de uma guerra ideológica que busca impor o autoritarismo em todos os lugares, na cultura e na mídia”

Os escritores informam que recorreão à Justiça para reaver os direitos das obras que já publicaram.

Entre os grandes nomes que assinaram a carta estão Vanessa Spingora, autora do livro “O Consentimento”, e Virginie Despentes. Ela escreveu o livro “Querido Babaca” e é considerada um ícone feminista na França. 

Demissão de diretor foi estopim

O diretor executivo desligado da Grasset recebeu uma homenagem na carta publicada pelos editores.

A carta classifica Nora como alguém que pregava a convivência de autores com opiniões diferentes. Eles afirmaram, ainda, que o profissional tinha “elegância moral, disponibilidade e compromisso”. 

A Grasset não explicou oficialmente a demissão de Nora.

Fontes do jornal The Guardian apontam que o desligamento foi forçado e está ligado à contratação do escritor conservador Boulaem Sansal.

O autor é um crítico do islamismo e já deu declarações classificando as pessoas que seguem a religião como “fanáticos e violentos”. 

Quem vai assumir a vaga dele é Jean-Christophe Thiery, empresário e nome de confiança de Bolloré. 

Nem o bilionário nem a editora responderam publicamente sobre a saída em massa dos escritores.  

Em audiências no Senado francês, Bolloré negou interesses políticos ou ideológicos nas compras dos jornais e da editora.

Segundo ele, as publicações tinham “espaço para todas as visões” e seu interesse era puramente econômico.

O império de Vincent Bolloré

Vincent Bolloré não só controla a editora alvo do protesto dos autores, como também é dono do grupo Vivendi, um conglomerado que concentra canais de TV, rádio e jornais da França.

Entre as publicações sob o guarda-chuva dele estão o Canal+, o CNews, a rádio Europe 1 e o Journal du Dimanche. 

O controle de uma só pessoa sobre tantos veículos diferentes não é o único fator que levanta críticas ao magnata. De acordo com organizações internacionais de liberdade de imprensa, o bilionário usa os seus canais como um meio para dar voz a líderes de extrema-direita. 

Reportagens elogiosas ao candidato extremista Jordan Bardella, do Reagrupamento Nacional (RN), são frequentes nos veículos comandados pelo bilionário. Bardella é cotado para concorrer à presidência do país em 2027. 

Além disso, a crescente presença de comentaristas de direita, anti-imigração e reacionários no CNews fez o canal ser chamado de “Fox News francesa” nos últimos anos.

A rádio Europe 1, por sua vez, virou uma “máquina de opinião”, segundo a Repórteres Sem Fronteiras.

Campanha contra a Repórteres Sem Fronteiras

Além de multiplicar discursos da extrema direita, o bilionário também foi acusado pela RSF de usar uma empresa da qual é sócio minoritário para fazer uma campanha de desinformação contra a organização.

A campanha em questão seria uma resposta a uma investigação que mostra os interesses políticos do bilionário no controle da comunicação do país. 

Segundo a RSF, em 2024, a Progressive Media criou sites falsos se passando pela organização. Os sites acusavam a ONG de “mudar o panorama audiovisual francês de acordo com a sua visão de pluralismo”. 

Jornalistas sob “cláusula de silêncio”

Um fator que dificulta a divulgação de informações sobre o que acontece dentro das empresas de mídia  de Bolloré são as cláusulas de confidencialidade.

Jornalistas que rescindem contrato com os veículos do magnata precisam assinar documentos do tipo para receber suas indenizações ou seguro-desemprego, segundo a RSF.

De acordo com uma investigação da ONG, essas cláusulas têm redação vaga, sem especificar um prazo para o fim do “acordo de silêncio”.

Com isso, os profissionais demitidos ficam proibidos de fazer comentários que possam “prejudicar a reputação ou os interesses da empresa”. 

Não há um balanço de jornalistas afetados pelas cláusulas, já que eles sequer podem confirmar as assinaturas. A RSF estima, porém, que 500 jornalistas franceses assinaram o documento em 10 anos.

Isso, de acordo com a denúncia, cria um estado de “hipervigilância” nos repórteres e faz com que eles pensem duas vezes antes de propor ou fazer uma matéria. 


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