O bilionário Elon Musk não compareceu ao depoimento convocado pela justiça francesa no caso que investiga a criação de imagens sexualizadas pela IA Grok e outras alegações contra a rede social X, da qual ele é dono.
A entrevista voluntária, que também abrangia outros executivos da rede social incluindo a ex-CEO Linda Yacarino, estava marcada para esta segunda-feira (20) e foi convocada em fevereiro, no mesmo dia em que a sede da empresa foi alvo de buscas em Paris.
Os promotores informaram à imprensa francesa que “registraram a ausência das primeiras pessoas convocadas”, sem mencionar o nome de Musk. O bilionário havia chamado as autoridades francesas de “retardadas” semanas atrás em um post no X em francês.
O não compareceimento do bilionário ao depoimento acontece em meio a uma série de investigações criminais feitas não só pela França, como também por outros países e pela União Europeia contra o X.
O fato de que Musk esnobou a Justiça francesa não é uma novidade. O bilionário já esteve ausente em outra audiência em 2024, quando a Justiça de Los Angeles investigava a aquisição do Twitter por parte do bilionário.
Não há previsão para qualquer punição a Musk pela falta desta segunda-feira, já que a presença dele não era obrigatória. Até o momento, ele também não foi acusado na esfera criminal.
Convite para depoimentos
As investigações contra o X na Françcomeçaram em janeiro de 2025, quando duas denúncias diferentes apontaram para problemas nas plataformas. Uma delas foi do deputado centrista Eric Bothorel, do partido de Emmanuel Macron; a segunda foi de um servidor público especializado em crimes cibernéticos.
A princípio, o foco das denúncias era a manipulação do algoritmo para influenciar no país e o uso ilegal de dados pessoais dos usuários para propaganda. Pouco tempo depois, porém, os promotores adicionaram no campo das investigações o papel da ia Grok na manipulação de deepfakes sexuais.
A falta de Musk no tribunal acontece dois meses após um convite do chefe da unidade de crimes cibernéticos da França. A convocação do dono do X, de Linda Yaccarino, ex-CEO da empresa, e de outros 10 executivos da companhia não era obrigatória, mas sim voluntária.
De acordo com a promotoria, o depoimento voluntário seria parte da “fase construtiva” do processo. Em comunicado, o Ministério Público explicou que a ausência deles não atrapalha as investigações, que devem seguir.
“As entrevistas voluntárias com os executivos têm objetivo de permitir que eles apresentem sua posição em relação aos fatos e, quando apropriado, as medidas de conformidade que planejam implementar.”
EUA se recusaram a ajudar a França
A promotoria francesa pediu que os EUA ajudassem nas investigações, supostamente, com o envio de dados do X para o país europeu.
Em resposta dada na sexta-feira (17), o Departamento de Justiça do Governo Trump afirmou que o pedido viola a Primeira Emenda, de liberdade de expressão, do país. As informações são do jornal Wall Street Journal.
De acordo com o jornal, a resposta do governo americano disse, ainda, que a França “tenta envolver os Estados Unidos em um processo criminal politicamente motivado”.
Em resposta ao jornal americano, o xAI agradeceu ao departamento. Musk e Trump tiveram uma relação próxima no começo do segundo governo do republicano. O bilionário chegou a ser chefe do “departamento de eficiência governamental” da presidência.
Investigação na UE e buscas no X
Ao mesmo tempo em que a França abriu o processo que culminou no chamado de Musk para o depoimento, a União Europeia também protocolou uma investigação sobre a rede social, dessa vez, com foco no Grok. Em 26 de janeiro, o bloco abriu uma apuração para saber se a IA viola a Lei de Serviços Digitais da Europa.
O intuito da investigação era saber se a empresa identificou e mitigou os riscos da geração de imagens por parte do Grok.
De acordo com o comunicado divulgado pela UE, os riscos de disseminação de conteúdo sexualmente explícitos “parecem ter se materializado”.
Pouco tempo depois, o Reino Unido também abriu uma investigação no mesmo sentido. O órgão regulador Information Commissioner’s Office (ICO) anunciou que tinha “sérias preocupações” com a geração de imagens sexualizadas por parte da IA. De acordo com eles, a prática é uma “violação grave da legislação de proteção de dados”.
Em 3 de fevereiro, no mesmo dia em que Musk foi intimado para o depoimento sobre o X e o Grok, o Ministério Público de Paris e a Europol fizeram uma batida policial nos escritórios da empresa.
Na ocasião, Musk não se pronunciou oficialmente, mas a conta de assuntos governamentais do X chamou o ato de “teatro policial com objetivos políticos”.
Grok e sexualização
Criado em 2023 pela xAI, de Elon Musk, após a compra do X (que até então se chamava Twitter), a IA é totalmente integrada à plataforma. Em suas novas versões, ele permite que usuários usem fotos como base para fazer outras imagens realistas de pessoas.
Apesar de já ser problemática em 2023, a situação do Grok piorou em 2025, com uma nova ferramenta da plataforma.
Naquele ano, a empres lançou o Grok Imagine, ferramenta de criação de vídeos sem limites sobre os prompts dos usuários. Essa plataforma permitia que qualquer pessoa pedisse ao Grok vídeos ou fotos pornográficas.
Durante 11 dias em 2025, o Grok fez mais de 3 milhões de fotos sexualizadas, de acordo com o Centro de Combate ao Ódio Digital. Esse número inclui imagens de 23.000 de crianças.
A ferramenta também deu espaço para que famosas fossem vítimas da plataforma. Entre as mulheres atingidas pelo crime virtual estão a vice-primeira-ministra da Suécia, Ebba Busch, a ex-vice-presidente dos EUA, Kamala Harris.
Processos nos Estados Unidos
A Europa não é o único lugar com investigações ativas contra o Grok. O caso das imagens sexualizadas criadas pela IA também virou alvo de ações judiciais nos Estados Unidos, em ao menos dois estados diferentes.
Enquanto na Califórnia duas adolescentes e uma jovem acionaram a Justiça afirmando que a IA facilitou a criação de fotos pornográficas delas, a prefeitura de Baltimore, em Maryland, alega que a IA fez propaganda enganosa ao se declarar “segura”, mas expondo adolescentes a pornografia.
Nos dois casos, as vítimas alegam que a empresa de Musk sabia dos riscos aos usuários, mas os ignorava em busca de lucro.
Musk tem falado pouco sobre o assunto
Apesar de usar constantemente a rede social da qual é dono para falar sobre política ou sobre as novidades do Grok, Musk tem optado pelo silêncio em relação às investigações.
Seus comentários sobre as acusações são raros e o mais recente deles aconteceu no sábado (18), quando ele falou sobre a recusa do DOJ a cooperar com a França. Respondendo ao post do Wall Street Journal, Musk falou que “de fato, isso precisa parar”.
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