Símbolo máximo de resiliência e da filosofia Keep Calm and Carry On — “mantenha a calma e siga adiante” —, a rainha Elizabeth II, que completaria 100 anos nesta terça-feira (21), também atingiu seu limite.
A monarca mais longeva do Reino Unido enfrentou um episódio de exaustão nervosa que o Palácio tentou apresentar ao público como uma “gripe de verão”, segundo uma nova biografia do jornalista Robert Hardman.
Embora tenha passado 70 anos no trono como símbolo de estoicismo, novas vozes e documentos revelam uma face muito mais vulnerável da rainha.
Em conversa com jornalistas estrangeiros na FPA, em Londres, o biógrafo e jornalista britânico disse que sua nova biografia busca mostrar uma dimensão mais humana da monarca, a partir de documentos e depoimentos de pessoas próximas que não haviam falado enquanto ela era viva.

Hardman, que também já biografou o rei Charles, escreveu o novo livro para marcar os 100 anos de nascimento da rainha Elizabeth II, em 21 de abril. O livro busca capturar a “essência” de uma mulher que, apesar de todo o cerimonial, manteve-se “absolutamente autêntica” até o fim.
O verão em que Elizabeth II chegou ao limite
Um dos momentos mais fortes narrados por Robert Hardman foi o episódio de exaustão nervosa vivido pela rainha em 1969.
Naquele verão, a monarquia atravessava um período de enorme exposição. O documentário Royal Family estava sendo filmado, e Charles seria investido como Príncipe de Gales.
O evento foi o primeiro planejado especificamente para a televisão a cores, mas ocorreu sob a ameaça de bombas de separatistas galeses. Uma delas chegou a explodir e foi ouvida durante a procissão de carruagens.
Embora ela aparecesse sorrindo nas fotografias, o estresse tornou-se insuportável. Ao voltar a Londres, a rainha cancelou todos os compromissos, incluindo o torneio de tênis de Wimbledon, e desapareceu por uma semana.
O Palácio informou que ela estava com uma “gripe de verão”. Hardman, no entanto, relatou que Elizabeth II estava em um estado próximo ao colapso mental e precisou de repouso absoluto na cama.
O episódio teve consequências públicas. Em 1969, foi a única vez em seu reinado em que não houve uma nova mensagem de Natal. Exausta, a rainha determinou que o documentário fosse reprisado.
Segundo Hardman, os lucros do filme, que teve audiência superior à chegada do homem à Lua, foram doados por Elizabeth II para a construção da sede da BAFTA em Piccadilly. A rainha teria sido, assim, a grande financiadora do prédio da instituição.
A rainha, Andrew e o mito do filho preferido
Hardman também contestou a ideia, recorrente na imprensa, de que Andrew teria sido o filho preferido e intocável da rainha.
Segundo o autor, Elizabeth II via Andrew como o filho que mais precisava de atenção por ser “sem direção”, vulnerável a explorações e não dotado da mesma inteligência dos irmãos.
Hardman afirmou ainda que o cargo de enviado comercial assumido por Andrew não foi uma manobra da rainha. A ideia teria partido de Tony Blair e Peter Mandelson (atualmente pivô de um escândalo por seu envolvimento com Jeffrey Epstein) em 2001, porque a Marinha Real já não tinha funções para ele.
O Palácio, segundo o relato, tentou sem sucesso convencer a Marinha a mantê-lo.
A aprovação da carta de renúncia de Andrew da vida pública, após o escândalo Epstein, foi descrita como o ponto emocional mais baixo de Elizabeth II. Assessores teriam afirmado que nunca a viram tão abatida.
Antes de morrer, segundo Hardman, a rainha já planejava retirar Andrew de Royal Lodge para entregar a casa a William e Kate. Ele acabou despejado ano passado pelo rei Charles, quando novos documentos sobre a ligação com Epstein vieram à tona.
Donald Trump, Escócia e um retrato em Mar-a-Lago
Para produzir o livro, Hardman visitou Donald Trump na Flórida. Segundo o autor, o ex-presidente sempre se mostrou um grande admirador da rainha quando se encontraram.
Trump e Elizabeth II conversaram por quase uma hora, embora o encontro estivesse previsto para durar cerca de 15 minutos.
O tema principal teria sido a ligação dos dois com a Escócia: as mães escocesas de ambos e suas propriedades no país — campos de golfe, no caso dele, e Balmoral, no dela.
Hardman contou que Trump mantém uma cópia do último retrato oficial da rainha, pintado em 2022 por Basia Hamilton, em destaque na sala de jantar principal de Mar-a-Lago.
Segundo o relato, Trump disse que se recusou a pendurar o retrato perto de outros quadros por considerar desrespeitoso colocá-la ao lado de outras figuras.
Hardman também defendeu Trump das críticas de que teria sido rude ao caminhar à frente da monarca. Segundo o autor, ele apenas seguia o protocolo segundo o qual o convidado precede o anfitrião na inspeção de tropas.
A rainha, por sua vez, considerava Trump “divertido”.
Primeiros-ministros, Brexit e o chapéu da rainha
Elizabeth II conviveu com 15 primeiros-ministros, cada um com uma dinâmica própria.
Winston Churchill foi o único a quem ela chamava pelo primeiro nome: “Winston”. Para a rainha, ele era a figura que, ao lado de seu pai, havia “salvado o mundo”.
Sobre Margaret Thatcher, Hardman disse que a imagem de rivalidade entre as duas foi reforçada pelo sexismo da mídia. Para ele, as duas eram muito parecidas: adoravam os pais, tinham fé profunda e visões tradicionais sobre a família.
A presença da rainha no funeral de Thatcher foi, segundo Hardman, uma demonstração de enorme respeito pelo que a ex-primeira-ministra havia conquistado.
O autor também comentou o famoso chapéu azul com estrelas amarelas usado pela rainha no Parlamento, interpretado por muitos como uma referência às cores da União Europeia.
Segundo Hardman, foi uma “coincidência divertida” criada pela camareira Angela Kelly, que fez a rainha rir das leituras políticas.
Apesar disso, em 1972, Elizabeth II teria sido uma entusiasta firme da entrada do Reino Unido no mercado comum. Hardman disse suspeitar que ela fosse provavelmente inclinada à permanência na União Europeia, por acreditar sempre em alianças e consenso.
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Finanças reais e perda de transparência
As finanças da família real foram outro tema abordado por Hardman.
Segundo o autor, em 1992, foi a própria rainha quem decidiu pagar imposto de renda para conter críticas públicas, mesmo diante do conselho de John Major de que ela não era obrigada a fazê-lo.
Hardman também observou uma redução na transparência atual. Enquanto Charles divulgava seus impostos como Príncipe de Gales, o príncipe William decidiu não fazer o mesmo, o que tem gerado novas pressões políticas.
A sucessão de Charles III e os últimos dias de Elizabeth II
A transição para Charles III foi descrita por Hardman como “impecável”, apesar do caos político vivido pelo Reino Unido naquele momento.
O autor citou uma carta enviada ao The Times na semana da morte da rainha. Nela, uma pessoa observava que tinha na geladeira um litro de leite que havia visto dois reis e duas primeiras-ministras em uma única semana.
Para Hardman, essa estabilidade institucional ajudou a evitar uma crise civil.
O momento em que Charles soube que era rei foi descrito de forma cinematográfica. Ele estava dirigindo seu Land Rover em uma estrada escocesa, depois de colher cogumelos, quando o telefone vibrou no banco de trás.
Seu secretário atendeu. Ali mesmo, no acostamento de uma pequena estrada, Charles foi chamado de “Sua Majestade” pela primeira vez.
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Diplomacia, bastidores e o papel simbólico da monarquia
Hardman também relatou episódios de bastidores da diplomacia real.
Em 1969, a esposa do presidente da Finlândia tomou pílulas para dormir por engano e passou a procissão real dormindo profundamente entre o príncipe Philip e a princesa Anne.
Para o autor, a monarquia tem a função de recompor, no plano humano, relações desgastadas pela política.
Ele citou como exemplo a visita da rainha aos Estados Unidos, dez meses depois da crise de Suez, quando os norte-americanos quase desvalorizaram a libra. Segundo Hardman, Elizabeth II ajudou a recompor a relação no nível humano.
Na Austrália, no referendo de 1999, imigrantes vindos de regimes instáveis teriam sido alguns dos que mais votaram pela manutenção da rainha. Para eles, o trono funcionava como uma garantia de estabilidade diante do “perigo” dos políticos eleitos.
Ao concluir sua análise, Robert Hardman afirmou que Elizabeth II continua infinitamente fascinante porque, apesar de todo o cerimonial, era “absolutamente autêntica” e nunca permitiu ser definida por nada que não fosse sua própria essência e seu dever.
Elizabeth II: In Private. In Public. The Inside Story, de Robert Hardman, publicado pela Pan Macmillan para o centenário de nascimento da rainha, está à venda em livrarias físicas e online.
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